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2 VIVÊNCIA CRISTÃ E COMUNIDADE EVANGELIZADORA

2.3 A IGREJA COMO COMUNIDADE DE P EQUENAS COMUNIDADES

A iniciação à vida cristã leva à inserção no seio de uma comunidade eclesial concreta, comunhão de cristãos iniciados na fé que, por sua natureza, são sujeitos da evangelização. Nesta seção veremos que esta comunidade precisa ter uma dimensão que proporcione verdadeira experiência cristã, e que a mesma deve ser articulada em rede de comunidade de comunidades, no exercício da pastoral orgânica.

2.3.1 Vivência cristã e o ta manho hu mano d a comunidade ecle sial

As dimensões de tamanho da comunidade eclesial têm o seu fundamento na experiência da Igreja do primeiro século. No Novo Testamento, a Igreja estava sempre localizada numa cidade (como em Tessalônica, Corinto, Laodiceia: 1Ts 1,1; 1 Cor 1,2; Cl 4,16) ou numa região (como na Ásia, Galácia, Macedônia, Judeia). Efetivamente estas comunidades eram igrejas domésticas (domus eclesiae), modelo muito propagado por Paulo. O modelo paulino tinha a casa como a estrutura básica: o apóstolo fundava pequenas comunidades em suas viagens missionárias que, na falta de estruturas, utilizavam-se da casa de um dos membros para as reuniões (geralmente um líder como Filemon, Febe, Priscila, Áquila...) (ALMEIDA, 2009a, p. 28-36):

O primeiro lugar de reuniões das comunidades cristãs foi a casa-moradia (oikia) e seu núcleo é a família (oikia). (...) O cristianismo cresce a partir da casa-moradia (oikia), pois embora aspire à fraternidade universal não tem acesso à vida pública. A opção pela comunidade-casa é opção realista e concreta, viável, prelúdio das CEBs atuais (CODINA, 1993, p. 72).

As igrejas domésticas fundadas por Paulo eram pequenas comunidades, não ultrapassavam o número de 30 a 40 pessoas. Algumas características eram marcantes nestas comunidades de base doméstica: os seus membros faziam o encontro pessoal com o Senhor e acolhiam a Boa Nova de Jesus, participavam de modo voluntário, partilhavam a fé, mantinham relações interpessoais com os demais membros, aspiravam uma fraternidade universal, instruíam-se pela Palavra e celebravam a sua fé na liturgia. Eram comunidades ministeriais, com lideranças próprias, mas mantinham

suas relações com o apóstolo pelos delegados enviados e pelas cartas (ALMEIDA, 2009b, p. 46-51).

O modelo de comunidades domésticas do Novo Testamento é inspirador para os tempos atuais. Isso porque a globalização impõe um horizonte de individualismo, sem personalização, que é insensível às realidades locais. Diante do desafio da despersonalização e do individualismo, a pastoral de pequenas comunidades surge como tarefa indispensável. A pequena comunidade permite mais facilmente a experiência de Jesus Cristo vivo, na fraternidade, na multiplicação de seu Corpo, uma instância essencial para sustentar a esperança do Reino (CELAM, 2003, p. 201-202).

É por esta razão que os documentos magisteriais insistem nas pequenas comunidades como elementos essenciais para a prática pastoral, reconhecendo a importância do seu florescimento (EN 58). As comunidades de base são definidas como centros de irradiação missionária, sendo opção prioritária de muitas conferências episcopais (RMi 51). O Documento de Aparecida destaca a importância das Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s) como uma verdadeira escola de formação de discípulos e missionários do Senhor (DAp 178), tendo-as como comunidades evangelizadoras comprometidas, onde se vai em busca dos afastados e se realizam serviços em prol da Igreja e da sociedade (DAp 179). Além das CEB´s, experiência muito válida e já consolidada e na América Latina (DP 96-97; 156), outras formas de pequenas comunidades como os grupos de vida, de oração e de reflexão da Palavra de Deus são destacadas (DAp 180).

As pequenas comunidades são uma opção por uma pastoral mais personalizada, a fim de que não se tenha apenas cristãos no meio da massa. Apesar da

necessidade de uma pastoral de massas22, há o risco de uma ação que acabe

reforçando a massificação. Eventos como as grandes peregrinações e as visitas do papa trabalham com massas anônimas. Certamente são oportunidades de despertar e intensificar a fé, mas carecem do diálogo com grupos e com indivíduos, não realizam o contato pessoal (LESBAUPIN, 1996, p. 46). É preciso ter presente que Jesus, embora

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A pastoral de massa apela para o simbolismo cristão, trabalha com o inconsciente cristão da cultura popular, com aquilo que faz parte do imaginário católico. Aqui não se espera grandes e imediatas transformações na pessoa, mas o despertar ou redespertar da fé, a penetração do Evangelho na vida e na mente do povo. Está incluso no roteiro da pastoral de massa eventos como: as procissões, a piedade da quaresma, as novenas, as bênçãos, as procissões de Nossa Senhora, as peregrinações aos santuários, as desobrigas. Também integra algumas ações que são mais pontuais e promissoras do ponto de vista pastoral: a Campanha da Fraternidade, as novenas de Natal, o mês da Bíblia, o mês missionário (MELO, 1996, p. 208-209).

tenha sido um pregador popular para as multidões, criou um grupo menor de discípulos que o seguia pelas estradas da Palestina.

Corre-se o risco de que nossas paróquias sejam compostas de massa, quando facilmente as pessoas fogem de suas responsabilidades, refugiando-se no anonimato. A pequena comunidade elimina o anonimato da massa, pois estabelece relações de amizade e de fé: “Para ser comunidade cristã é preciso passar além do anonimato das massas, é preciso viver relações de fraternidade, partilhar a vida, os bens, a própria experiência da fé, provocar um confronto permanente com a Palavra (o projeto de Deus), e celebrar na alegria, na festa, a salvação que vai se manifestando em nós pela força do Espírito de Deus (STRAGLIOTTO, 1997, p. 253-254).

A vivência cristã somente é possível em comunidades que tenham uma dimensão que proporcione a convivência de seus membros, como afirmam as Conclusões de Medellin (15, IIIA, 1a):

A vivência da comunhão a que foi chamado, o cristão deve encontrá-la na ‘comunidade de base’: ou seja, em uma comunidade local ou ambiental, que corresponda à realidade de um grupo homogêneo e que tenha uma dimensão tal que permita a convivência pessoal fraterna entre os seus membros. Por conseguinte, o esforço pastoral da Igreja, deve estar orientado à transformação dessas comunidades em ‘família de Deus’, começando por tornar-se presentes nelas, como fermento por meio de um núcleo, mesmo pequeno, que constitua uma comunidade de fé, esperança e caridade (...). Ela é, pois, célula inicial da estrutura eclesial e foco de evangelização...

Assim, as comunidades precisam ter “tamanho humano”: devem ser comunidades pequenas, afetivas e acolhedores, concretizadas em espaços de resgate da identidade, da dignidade e de autoestima, aberta aos excluídos. É preciso descentralizar e articular as grandes massas impessoais (BRIGHENTI, 2009, p. 157). O elemento fundamental deve ser o grau de pertença de seus indivíduos. “A comunidade deve ser tão grande que caibam nela todos os diferentes; por outro lado, deve ser tão aconchegante que ninguém e nenhuma realidade nela existente se sinta excluída” (BASSINI, 2009, p. 107).

Nas pequenas comunidades que seguem a eclesiologia de Igreja-comunhão prevalecem as relações afetivas e nominais: as pessoas se conhecem pelo nome e são humanizadas e integradas na comunidade a partir da comunidade, não apenas recebem uma assistência religiosa no sentido estrito do termo. É preciso um empenho

de superação do modelo Igreja-sociedade, no qual o fiel é um anônimo que recebe os sacramentos básicos para manter um verniz de vida cristã (BOFF, 1986, p. 84).

As comunidades de tamanho humano poderão mais facilmente considerar cada pessoa em sua história, respeitando

...cada pessoa em sua ineliminável dignidade e diferença; a acolhida da pessoa, de sua experiência pessoal, de sua trajetória, de suas necessidades, de seus anseios, numa atitude de ouvir simpatética, para, só depois, discernir; a misericórdia: assim como Deus se sente atraído pela nossa miséria para salvar-nos, a comunidade deve ser misericordiosa como o Pai (ALMEIDA, 2009b, p. 57).

Para ser comunidade não basta um aglomerado de pessoas. É preciso repensar o conceito de comunidade, fazendo da mesma um local de emancipação de indivíduos, que tenham suas decisões expressas diante das instituições, criando-se espaços de autonomia e de acolhida das diferenças. Comunidades de dimensão humana contribuem para que os seus integrantes sejam protagonistas da evangelização (BRIGHENTI, 2009a, p. 156-157).

Estas pequenas comunidades de tamanho humano devem superar limites de regionalização territorial, pois no contexto urbano, as comunidades são escolhidas por decisão afetiva. Hoje se evidencia mais facilmente a prática da Igreja primitiva, na qual as comunidades eram construídas a partir da experiência pessoal de cada fiel; não se participava de uma comunidade por uma conveniência territorial, nem por mera obrigação, mas sim pela adesão. É preciso resgatar o sentido original de paróquia (=estar ao redor da casa). Para isso, é preciso criar comunidades onde as pessoas estão, sem se prender demasiadamente em configurações territoriais. O crescimento demográfico faz com que se pense em novas alternativas pastorais, pois a vizinhança geográfica não significa relações de proximidade afetiva, de vínculo (AMADO, 2009b, p. 67-68).

As comunidades já existentes precisam de um autoquestionamento para verificar se, de fato, proporcionam uma experiência verdadeiramente comunitária. O desafio é a implementação de comunidades afetivas. Certamente, os agentes deverão repensar as suas dimensões (tamanho) e a sua estrutura para que haja autênticas comunidades de base, que desenvolvam forte sentido de pertença eclesial. Comunidades em que a maneira de celebrar e compartilhar a fé contribui para tornar a fé mais vivencial e consciente, onde se realiza um despertar crítico frente às injustiças, há uma educação

de fé mais sólida, uma liturgia mais encarnada na vida, um lugar de encontro mais humano para sólidas relações pessoais, uma fraternidade evangélica mais concreta (COMAS, 1999, p. 70).

As comunidades, antes de tudo, deverão ser bíblicas. Não somente porque se reúnem ao redor da Escritura, mas porque vivem a partir da Palavra de Deus: são mais do Evangelho do que da doutrina, disciplina, burocracia e códigos morais (ALMEIDA, 2009b, p. 55). Nas palavras de Puebla, as pequenas comunidades permitem ao povo maior conhecimento da Palavra de Deus, maior compromisso evangélico, surgimento de novos ministérios e formação de fé aos adultos (DP 629). Por isso, a iniciação à vida cristã de adultos põe a exigência de pequenas comunidades eclesiais: além de ser o próprio catecumenato um grupo de tamanho humano como uma experiência de vida comunitária, a iniciação cristã se efetiva em torno da Palavra e da formação de cristãos conscientes de seu compromisso com a comunidade.

2.3.2 Comunidade de co munidades e pasto ral o rgânica

A vivência cristã depende de comunidades de tamanho humano, que favoreçam os vínculos fraternos. Mas não basta garantir a dimensão das comunidades. É preciso que elas não estejam atomizadas e fechadas em si mesmas. Devem ser missionárias a partir de uma organização pastoral e da cooperação mútua entre as comunidades.

É neste sentido que as orientações magisteriais indicam para que a presença da Igreja se realize mediante a criação de comunidades e capelas (SD 60). As duas últimas conferências da América Latina e do Caribe definem a paróquia como “uma rede de comunidades” (SD 58; DAp 309; 517e), numa comunhão orgânica e missionária, tendo a Comunidade Eclesial de Base como célula viva (SD 61). Para concretizar a dimensão comunitária devem-se incentivar as pequenas comunidades eclesiais, os grupos de família, os círculos bíblicos, os movimentos e associações eclesiais (SD 142).

A rede de comunidades fundamenta-se no conceito de igreja de igrejas. As igrejas individuais não são subdivisões administrativas de uma realidade maior, nem a Igreja é uma federação de igrejas individuais. A Igreja é católica, porque é também

Igreja particular ou local. Há uma comunhão de igrejas na qual todas têm a plenitude da Igreja (FUELLENBACH, 2006, p. 108-109):

A Igreja Local é ‘porção’ do Povo de Deus, não ‘parte’ (a porção contém o todo, a parte não). Nela está ‘Igreja toda’, pois cada Igreja Local é depositária da totalidade do mistério de salvação; ainda que ela não seja a ‘toda a Igreja’, pois nenhuma Igreja local esgota esse mistério. Daí o imperativo de a diocese não se fechar sobre si mesma e de abrir-se às demais Igrejas Locais, constituindo uma ‘Igreja de Igrejas’ (Tillard) (BRIGHENTI, 2009a, p. 151).

Tal conceito se aplica em primeiro lugar às igrejas locais (dioceses), mas também se aplica às comunidades eclesiais locais. Cada comunidade vive a partir de sua localidade e da universalidade da Igreja, unida a uma referência maior (paróquia, diocese), configurando-se como igreja glocal (ALMEIDA, 2009b, p. 55). A diversidade de comunidades locais não se opõe à comunhão (koinonia) entre as comunidades em rede. Todas estão unidas pela mesma fé e pelo mesmo Evangelho. Como nos diz o livro dos Atos dos Apóstolos (2,42ss), os cristãos estão unidos pela mesma doutrina, pela partilha comum dos bens, pela fração do pão na Eucaristia e pela oração em comum (BRIGHENTI, 2009a, p. 154).

A prioridade de uma pastoral de rede de comunidades apresenta-se como um elemento importante da renovação das paróquias, principalmente aquelas que estão inseridas em contexto urbano. A paróquia, comunidade de comunidades, é descentralizada, criando-se comunidades com autonomia pastoral e administrativa, contudo ligadas ao centro que funciona como polo de unidade, para a discussão de assuntos de maior amplitude, para celebração de momentos-chave da vida da paróquia (ou da Igreja) e para manter a unidade. A paróquia neste contexto é o “centro de animação e coordenação de comunidades” (DP 644).

A paróquia, rede de comunidades, é um caminho para superar a pastoral de mera conservação (DAp 370). A paróquia, assumindo a condição de comunidade de comunidades, implementa a sua missionariedade ao superar a burocracia e a sacramentalização e ao repensensar os critérios de territoriedade.

Primeiramente, as paróquias têm o desafio de superar a burocracia e a sacramentalização. A paróquia não deve ser uma instituição puramente jurídica, um aglomerado de indivíduos ou um ponto de serviços religiosos. Antes de tudo é uma comunidade, uma comunhão de pessoas que se reúnem para escutar a Palavra de Deus, tornando-se comprometidas com as exigências da mesma. É preciso superar o

modelo paroquial centrado no clero e nos sacramentos. Ao optar pela rede de comunidades, favorecem-se novos ministérios, há melhor adaptação com o contexto urbano, supera-se a burocracia paroquial, havendo maior descentralização e incentivo para a missão (ANGOTTI FILHO, 2009, p. 131).

Domezi (1997, p. 236) testemunha que o modelo de CEB´s, efetivado a partir da experiência da década de 70 na Arquidiocese de São Paulo, tornou a comunidade mais decididamente missionária:

(...) a paróquia não é apenas uma entidade já instituída, com seu pároco nomeado, sua construção material, seus livros de registro de batismo e seus bens espirituais e econômicos. Torna-se espaço de articulação de uma rede de CEBs e de grupos de pastoral específica, e uma área de forças vivas e bens a serviço de todos, para a evangelização libertadora e transformadora em todos os ambientes.

A mera sacramentalização não solidifica a vida cristã na comunidade. Por isso, é preciso gastar o tempo e as energias para a superação do imobilismo pastoral, como nos testemunha um pároco que fez a opção por uma paróquia de rede de comunidades:

Quanto tempo se gastou nas paróquias para fazer o povo rezar, rezar bem e bastante, para o povo se confessar, participar das missas! Quantas lamúrias porque o povo se afasta do culto! Mas, quanto tempo gastamos em evangelizar e em engajar nosso povo na luta pelo reino de Deus, pela vida, pela justiça e pela santificação da humanidade?! (STRAGLIOTTO, 1997, p. 258).

Além da superação da burocracia e da sacramentalização, as paróquias que se organizam em rede de comunidades devem repensar os critérios de territoriedade. “Levando em consideração as dimensões de nossas paróquias, é aconselhável a setorização em unidades territoriais menores, com equipes próprias de animação e coordenação que permitam maior proximidade com as pessoas e grupos que vivem na região” (DAp 372). Nestes setores, recomenda-se a criação de comunidades de famílias para a partilha da fé.

A paróquia é uma realidade que tende a ser fechada em si mesma, sendo preciso que ela não se contente em ser apenas um prédio onde se celebra os sacramentos e se realiza a pastoral de manutenção. A paróquia deveria se organizar para atingir as fábricas, as escolas, as universidades, os hospitais, as instituições esportivas e culturais.

Segundo Santo Domingo, “a paróquia urbana deve ser mais aberta, flexível e missionária, permitindo uma ação pastoral transparoquial e supraparoquial” (SD 257). A paróquia deve fazer um diálogo com as realidades que estão ao seu redor e levar a Igreja aos diversos ambientes da sociedade. Os limites geográficos não são limites de missão, mas um critério de organização, para que a paróquia possa exercer de modo mais efetivo a sua missão. Deve, pois, pensar de modo global e agir de modo local (ANGOTTI FILHO, 2009, p. 137-138).

As pequenas comunidades devem se multiplicar nas periferias, nas zonas rurais e se adaptar nos grandes centros urbanos (DP 648):

Programar uma pastoral ambiental e funcional, diferenciada segundo os espaços da cidade. Uma pastoral de acolhida, dado o fenômeno das imigrações. Uma pastoral para os grupos marginalizados. Assegurar a assistência religiosa aos habitantes das grandes cidades durante os meses de verão e férias; dispensar atenção pastoral aos que passam habitualmente os fins de semana fora da cidade... (SD 260).

Assim, há dois modos de se organizar a paróquia: a) paróquias rede de comunidades territoriais: organizam as suas comunidades com base nos limites geográficos, como a setorização; sua missão se realiza mediante a visitação e a formação de pequenos grupos dentro do território; b) paróquia rede de comunidades ambientais: são construídas a partir das oportunidades, do critério da afetividade das pessoas em suas escolhas e em torno de carismas, sem depender da territoriedade. A paróquia, rede de comunidades, deve acolher estes dois modelos de modo simultâneo. (AMADO, 2009b, p. 69-70).

É preciso ainda considerar que a missão da paróquia, rede de comunidades, deve ser desinteressada do ponto de vista da adesão imediata ao centro paroquial. Principalmente quando se depara com o desafio de ambientes fechados como os condomínios, prédios e favelas deve-se assumir uma nova postura evangelizadora. Ou seja, a tarefa dos missionários não é ir até estas realidades para que seus moradores venham até a paróquia. O objetivo de ir até eles é semear o Evangelho e contribuir para o surgimento de comunidades. São muitas as ações que contribuem para que a Igreja chegue até estes ambientes: as bênçãos de casa, a visita das capelinhas e a pastoral da visitação (AMADO, 2009c, p. 147).

Por fim, a articulação de uma paróquia, rede de comunidades, se efetiva pela pastoral orgânica, pré-requisito indispensável para que haja verdadeira comunidade de

fé. Na pastoral orgânica “cada serviço específico não forma um corpo, mas forma um órgão dentro de um único corpo que é a Igreja, no conjunto (pastoral de conjunto) de seu ser e missão, levada a cabo através de diferentes serviços” (CCDM 102).

A organicidade pastoral de uma paróquia é garantida por três elementos (HACKMANN, 1996, p. 11-12; FLORISTÁN, 2002, p. 370-373): a) pela sua constante referência à Igreja particular; b) pela corresponsabilidade dos seus membros e a participação dos mesmos nos serviços pastorais; c) pelo exercício do conselho de pastoral que define as linhas e as propostas a partir de um planejamento.

a) A organicidade é, em primeiro plano, garantida pela referência à Igreja particular. Como já afirmamos, a comunidade deve ser glocal, unindo a sua localidade à universalidade da Igreja. Fundada no conceito de subsidiariedade, as comunidades devem realizar a sua ação de baixo para cima, no entanto, deve-se considerar a diocesaneidade (unidade com o plano diocesano) para que não se caia no paroquialismo. A comunhão com a diocese não massifica, mas potencializa a autonomia das comunidades (BRIGHENTI, 2006b, p. 207). Tal unidade da comunidade a torna aberta para uma comunhão bem maior que a comunhão em si mesma, a abertura para a comunhão com a Igreja universal.

b) A corresponsabilidade depende da consciência de que a Igreja é sujeito da evangelização, de uma Igreja toda ministerial que considera a igualdade de todos os fiéis pelo Batismo, sem a presença de paternalismos ou autoritarismos. A corresponsabilidade significa responsabilidade compartilhada: responsabilidade dos membros da comunidade e dos serviços pastorais que se unem em prol de um mesmo objetivo. É obrigação e direito compartilhar funções, decisões e ações que se referem à comunidade eclesial. A corresponsabilidade em uma comunidade eclesial não se faz de forma espontânea, de modo improvisado: sem um mínimo de institucionalização, a corresponsabilidade dos membros da comunidade torna-se nula ou passageira (COMAS, 1999, p. 87-88).

c) Por fim, a organicidade pastoral depende da eficácia do conselho de pastoral. Trata-se de uma das instituições mais originais para a renovação da Igreja na pastoral de conjunto (Med 11, III, 3). O conselho de pastoral é uma recomendação insistente, como um órgão constituído e consultivo (CDC cân. 536). Trata-se de uma assembleia de fiéis escolhidos, que participam das diversas pastorais, presidida pelo pároco, que realiza o cuidado pastoral da paróquia ou comunidade. O conselho de pastoral garante a responsabilidade dos membros pela ação evangelizadora da comunidade e a

comunhão entre pároco e demais fiéis. Sua funcionalidade é garantida por uma mentalidade eclesial de comunhão, de diálogo, de serviço e cooperação integrada de