Uma das características da teoria da guerra justa de Walzer é a igualdade moral dos combatentes. Os limites que ele julga serem aplicáveis à conduta durante a guerra são válidos para os dois lados envolvidos. Assim, mesmo aqueles que lutam por um Estado que, consoante a visão walzeriana do jus ad bellum, seja considerado agressor, não estão em inferioridade moral em relação àqueles que se defendem.
Para o autor, esta igualdade moral é necessária para que seja possível estabelecer uma distinção entre a guerra e um crime comum. De fato, em sua visão (2003, p. 70): “Sem o igual direito de matar, a guerra, enquanto atividade regida por
23Na definição de Walzer, a expressão normas de guerra se refere “àquele código mais específico que governa nossos julgamentos sobre o comportamento em combate, e que está apenas parcialmente expresso nas convenções de Haia e de Genebra” (2003, p. XXVIII). Isto significa que a expressão engloba tanto normas escritas oriundas do Direito Internacional atinente aos conflitos quanto a comportamentos oriundos de práticas estabelecidas pelo “costume” ao longo do tempo.
normas, desapareceria e seria substituída pelo crime e castigo, por conspirações malévolas e pela imposição da lei por meios militares".
A desconsideração desta igualdade seria um impeditivo para que se pudesse elaborar juízos morais relativos à natureza da guerra e da conduta militar. Além disso, transformaria qualquer guerra em uma provável carnificina, uma vez que cada lado envolvido evocaria critérios de urgência e necessidade, escudando-se nestes para efetuar um desrespeito aos limites, uma vez que alegaria ser possuidor de uma
causa justa, em detrimento de seu adversário.
Assim, na leitura feita por Costa (2005, p. 355), Walzer opera uma transposição da igualdade moral do nível interestatal para o nível dos indivíduos. Recordemos o paradigma legalista discutido anteriormente. Uma de suas premissas básicas é a de que as relações internacionais são levadas a efeito por uma plêiade de Estados soberanos e iguais. Sua função é oferecer proteção às comunidades neles residentes, bem como aos seus modos de vida. Tais comunidades e modos de vida possuem direitos iguais. Assim, cada Estado possui um valor moral igual ao de qualquer outro. Isto posto, a igualdade dos soldados decorre do fato de cada um deles ser “um instrumento político de comunidades com estatuto análogo” (COSTA, 2005, p. 198).
Este último ponto merece atenção. O recrutamento de soldados como instrumento do Estado levanta a questão do consentimento. Walzer opina (2003, p. 47) que quando os soldados escolhem lutar (como por exemplo os cavaleiros medievais e os mercenários) as restrições costumam ser colocadas por meio de “acordos” tácitos, resultantes do mútuo reconhecimento. Este porém não é o caso dos Estados modernos.
O Estado moderno trouxe o que o autor chama de “nacionalização” da vida
dos cidadãos. Com isto, ele quer significar a capacidade que os modernos aparatos estatais possuem de exercer poder coercitivo, mesmo nas democracias, pois segundo ele este tipo de regime fortalece a legitimidade estatal, e aumenta a possibilidade de coerção. Quando aplicado aos assuntos bélicos, este poder torna o
É neste ponto que se situa a preocupação de Walzer. Para ele, a guerra é sempre moralmente censurável (“a guerra é um inferno” é uma frase que ele escreve reiteradamente) quando os soldados são obrigados, em nome de um dever ou algum tipo de obrigação de cunho legal, a participarem de uma luta sobre a qual ele não tem qualquer responsabilidade. Ou seja, a guerra é reprovável quase sempre, conclui o autor. Por mais que Walzer reconheça algum grau de consentimento entre aqueles que se lançam à luta, como por exemplo quando eles assumem estar lutando pelo seu país, quando se trata de guerras que envolvem números expressivos de soldados não é possível traçar qualquer longínquo termo de comparação com as situações anteriormente citadas (duelos medievais por exemplo).
Assim, um soldado está enredado naquilo que Walzer chama “servidão militar” (2003, p. 59). Ele é obrigado a cumprir um sem-número de normas, embora lute a contragosto, ou exatamente por que pressupomos que ele lute a contragosto, diz-nos Walzer. Esta servidão se estende àqueles contra quem se luta, os que estão do outro lado. Este fato pode ser percebido pela leitura de cartas e memórias de
guerra. Segundo o filósofo, a partir destas leituras surge (2003, p. 61):
[...] a noção de que o soldado inimigo, mesmo que sua guerra tenha uma boa possibilidade de ser criminosa, é tão isento de culpa como nós mesmos. Armado, ele é um inimigo; mas não é meu inimigo em nenhum sentido específico. A própria guerra não é uma relação entre pessoas, mas entre entidades políticas e seus instrumentos humanos. Esses instrumentos humanos não são companheiros de armas, no estilo antigo, membros da confraria dos guerreiros. São “pobres coitados, iguais a mim” apanhados numa guerra que não criaram. Encontro neles meus iguais em termos morais.
É contra este sentimento que o Estado moderno dirige sua atenção. Ele atua responsabilizando os inimigos por todos os sofrimentos e privações enfrentados. A guerra moderna estimula o ódio entre os combatentes e as populações dos lados envolvidos. Os dirigentes políticos do inimigo funcionam como a fonte de todo o mal, e os soldados que lutam por ele são transformados em alvos pela sua evidente proximidade. Busca-se ao final um combate decisivo, onde as regras e convenções são transformadas em letra morta, pois que são percebidas como empecilhos para alcançar a vitória e derrotar o mal.
Partindo deste quadro de referência, para Walzer perde o sentido a defesa de direitos diferentes para os soldados. Se eles não violam as regras da guerra, ele diz,
não podem ser tratados como criminosos. É certo que muitas vezes os soldados combatem em nome de um Estado agressor, nos termos do que vimos no capítulo anterior. No entanto, muitas vezes lhes faltam condições para avaliar, de forma consistente, a justiça da guerra que travam. Evocando uma vez mais a obra de Francisco de Vitoria, Walzer lembra que, em caso de dúvida, os súditos devem lutar (2003, p. 67). Assim como o autor espanhol, Walzer coloca a responsabilidade pelo desencadear da guerra, e pelas consequências daí advindas, sobre os ombros daqueles que detém o poder de mando.
Entretanto, deste raciocínio não deriva que os soldados possam agir como criminosos de guerra. Mesmo que obedecendo a ordens superiores, se estas levarem a violações das normas de guerra, um soldado que incida em tais práticas
será um criminoso, pois (2003, p. 66) “as atrocidades que cometer cabem a ele
próprio; a guerra não”. A invocação de uma causa justa não pode permitir violar as regras da guerra.