Como dissemos ao final da seção anterior, Walzer propõe revisões do seu paradigma legalista, por entender que em sua forma original ele é restritivo em demasia. Ele afirma que, em algumas situações, aferrar-se a esse paradigma representaria uma diminuição da capacidade de defesa por parte das comunidades que conformam os diferentes Estados.
Walzer admite que poderia ser um problema ter que esperar sempre que a agressão se tornasse efetiva (por meio de uma invasão por exemplo) para exercer o direito de se defender. Em outras palavras, ele se mostra aberto à possibilidade de que um Estado possa agir preventivamente, com o intuito, tal como expresso pelo
paradigma legalista, de proteger seus cidadãos (ou seja a comunidade). Em suas palavras (2003, p. 124):
Tanto os indivíduos como os Estados podem legitimamente defender-se da violência que esteja iminente, mas ainda não seja concreta. Eles podem atirar primeiro se souberem que estão prestes a serem atacados. Esse é um direito reconhecido pelas leis nacionais e também pelo paradigma legalista para a sociedade internacional.
Diante desta postura, caberia questionar se Walzer não estaria adotando uma postura próxima do Realismo. Tal questionamento se deve ao fato do autor assumir a postura, conforme fica claro no trecho citado, de que poderia se mostrar prudente que um Estado não esperasse até se consumar uma agressão para efetuar um ataque. A questão que se coloca é: como conciliar a adoção de uma tal postura com a teoria da agressão? Isso porque, conforme vimos, em princípio qualquer ataque de um Estado contra outro é, por definição, um ato de agressão.
Para contornar essa dificuldade, Walzer estipula que tal tipo de guerra só será legítima se ela tiver início ao ser atingido o que ele chama de ameaça suficiente. Para atingir este ponto, ele estipula que são necessárias três condições, que são (2003, p. 137):
[...] uma intenção manifesta de ferir, um grau de preparação ativa que torne essa intenção um perigo positivo e uma situação geral em que esperar, ou tomar qualquer outra atitude que não seja a de lutar aumentará enormemente os riscos.
O conflito que ilustra uma situação em que tais requisitos se mostraram presentes é, segundo Walzer, a Guerra dos Seis Dias em 1967, entre Israel e uma aliança formada por Egito, Síria e Jordânia (que participaram com tropas), que recebeu o apoio de outros países árabes. A escalada de tensão que levou ao desencadeamento do conflito teve início em meados do mês de Maio do ano em
questão, quando o Egito elevou a concentração de tropas na península do Sinai12.
No dia 22 do mesmo mês, houve o fechamento dos Estreitos de Tiran, importante via de navegação para Israel, por ser o único acesso do país ao Mar Vermelho. A escalada teve prosseguimento no início de Junho, com a concentração de tropas por parte dos dois lados nas respectivas fronteiras. A guerra teve início no dia 5 de Junho de 1967, com um ataque aéreo surpresa de Israel contra bases militares do
12 O motivo alegado pelos egípcios foi o de que Israel estaria concentrando tropas na fronteira com a Síria. A origem dessa informação seria o Serviço de Inteligência da então União Soviética.
Egito. A alegação israelense para a realização de tal ataque foi a de que um ataque
ao país por parte dos exércitos árabes era iminente13.
O problema que se vislumbra, no nosso entendimento, com esta saída proposta por Walzer é que ela não possui aplicação geral, como o próprio autor reconhece. Em suas palavras (2003, p. 135):
(...) que atos deverão ser vistos, que atos realmente são vistos como ameaça suficiente para justificar a guerra? Não é possível elaborar uma lista porque a atuação do Estado, como a atuação humana em geral, assume significado a parir de seu contexto.
Ou seja, a avaliação dos riscos precisa ser feita de forma casuística (COSTA, 2005). Apesar do autor admitir esse tipo de guerra somente em situações muito específicas e raras, e de atribuir àquele que iniciou as hostilidades a responsabilidade de provar que estava respondendo a uma ameaça, parece-nos que fica aberta a possibilidade de ser explorada essa permissão dada pelo mesmo. Neste ponto, Holmes (1989) aponta para a possibilidade de que os Estados invoquem sempre e subjetivamente que estão agindo em legítima defesa, o que possibilitaria qualquer tipo de conflito armado.
Um caso que ilustra a questão de como o argumento em favor de ataques preventivos pode ser utilizado de forma contrária ao pretendido por Walzer é o da invasão do Iraque em 2003, levada a efeito pelos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. Diversas justificativas foram apresentadas, sendo o argumento central a suposta posse de Armas de Destruição em Massa (ADM) pelo regime iraquiano. Os Estados Unidos alegaram que o regime iraquiano representava uma ameaça real ao
país, pois poderia fornecer ADM’s a terroristas e oferecer refúgio aos mesmos14.
Assim, o ataque ao país árabe era apresentado à opinião pública como sendo uma ação preventiva.
O argumento em questão era deficiente em suas bases. Não havia elementos sólidos que sustentassem a alegação de um vínculo entre o Iraque e grupos terroristas interessados em atacar os Estados Unidos. Mesmo setores dos serviços de inteligência americanos punham em dúvida essa ligação. Assim sendo, pode-se
13 Para uma análise detalhada Guerra dos Seis Dias, desde seus antecedentes até suas consequências, ver a obra de Michael Oren, Seis Dias de Guerra (ver referências ao final do texto). 14 Na esteira dos atentados de 11 de Setembro de 2001, diversas autoridades americanas, inclusive o Presidente George W. Bush, alegaram que o Iraque mantinha laços com a Al-Qaeda, grupo perpetrador dos ataques.
considerar que cai por terra que o Iraque representasse uma ameaça iminente, mesmo de forma indireta. Lembremos que tal requisito se faz necessário para que seja aceito recurso do ataque preventivo. Além disso, não havia sido esgotado o recurso diplomático. Na verdade, até pouco antes do desfecho do ataque, havia uma intensa movimentação da diplomacia, mormente de países europeus, no sentido de
evitar o conflito. Ao final, ficou comprovada a inexistência das ADM’s em posse do
regime iraquiano.
Este exemplo mostra, na nossa visão, que a aceitação do recurso aos ataques preventivos por parte da teoria walzeriana abre a possibilidade do mau uso de tais ataques. A inexistência de uma regra geral a ser seguida contribui para o risco de adoção de um entendimento amplo da ideia de defesa preventiva, de forma a legitimar ataques que visam interesses outros que não a proteção dos países que realizam tais ataques.