5 A IMAGEM DA PESSOA COMUM
5.1 A Imagem da Pessoa Comum
A humanidade tem uma longa tradição de criar imagens.150Em um determinado momento, as imagens passaram a imitar aquilo que podia ser visto, em um novo contexto. Dessa forma, de acordo com Williams (1976, p. 158)
A imagem foi desde o séc. XIII, a figura física ou a semelhança [em relação a figura física151]. Essa também foi a origem do termo imago, que também evoluí para uma noção de fantasma, conceito ou ideia. Talvez haja relação na raiz do desenvolvimento do conceito de imitar, e por mais que existam muitas palavras para descrever esse processo (visão e ideia) há uma tensão profunda entre as ideias de ‘copiar’ e a ideia de imaginação e imaginário (WILLIAMS, 1976, p.158).
Embora tenha sido predominantemente figurativa ao longo da História, mimetizando (imitando) o visível, posteriormente a imagem se tornou abstrata, quer dizer, se separou daquilo que fora experimentado, ou seja, do que podia ser visto, separando a imagem de uma percepção imediata da realidade. A literatura de maneira geral, tem um papel importante nisso, porque ela foi capaz de criar imagens verbais (tanto em prosa
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Sobre as origens da produção da grafia, ver Leroi-Gourhan, O Gesto e a Palavra. ( LEROI- GOURHAN, André. O gesto e a palavra. Edições 70, 2002.)
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quanto em verso) que tinham a liberdade de adentrar domínios imaginários. A pintura, todavia, demorou até fins do Séc.XIX para se livrar de sua filiação ao figurativismo.
A imagem pode ser concebida para se referir diretamente a uma coisa (como um ícone), ou pode apenas servir para aludir a outra (como um índice), referenciar, ou mesmo comentar algo (como um símbolo). Assim, a imagem tem o poder de se aproximar da ideia e também do conceito e ao mesmo tempo se distancia da concepção de que ela é apenas imitação, mimeses: Aristóteles ressalta a importância da Mimeses, a palavra grega para imitação naquela que é a primeira obra crítica sobre o teatro grego, A Poética. A mimeses é uma das principais características da tragédia, e deve ser buscada pelos criadores da mesma. “Poesia é imitação. Espécies de poesia classificadas segundo o meio da imitação” (1966, p. 68-69 - 1447 a 1447 b).
Ou seja, a imagem não quer dizer, como Williams aponta acima, uma “cópia” da coisa em si, mas também, pode remeter a conceitos, como “imaginação” e “imaginário”, sempre presentes no drama: teatro, cinema e televisão153.
Um imaginário pode ser também um conjunto de imagens, como uma coleção com a qual se ordene um entendimento do mundo – neste sentido, ele se aproxima do conceito de “mitografia” (quer quando empregado por Leroi-Gourhan (1965/1965), quer utilizado por Derrida (1973). Se a imagem for tratada enquanto mito, por exemplo, é preciso a retornar a uma importante questão do pensamento ocidental. Em uma obra famosa sobre a origem do pensamento ocidental154, o filósofo e historiador de filosofia Jean Paul Vernant (1973) tece uma importante relação entre a origem do pensamento grego e ao pensamento científico como tal e a mitologia grega. Para o autor, embora a racionalidade tenha nascido em oposição ao mito, eles não são mutualmente excludentes e o mito exercia uma importância significativa em uma sociedade que pode ter ficado mais conhecida por fundar o pensamento filosófico e consequentemente a racionalidade ocidental, mas na qual o mito era fundamental “Entre a filosofia de um Anaximandro e a Teogonia de um poeta inspirado como Hesíodo, Cornford mostra que as estruturas se correspondem até no pormenor” (VERNANT, 1973 p. 295).
Não é possível, no âmbito da presente dissertação, por razões de limites conceituais e do apreço pela objetividade, elaborar uma discussão mais profunda acerca da natureza da
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Um estudo interessante sobre o imaginário é o de WUNENBURGER 2007. 154
imagem. Todavia, ao discutir a imagem, o imaginário e a imaginação, é importante discutir também como imagens podem se transformar em construções sociais – e ainda assim não se tornarem mitos. O cinema, por exemplo, está tomado por imagens que são construções, que eventualmente ocupam o nosso imaginário pessoal, essa coleção de imagens não está ligada, necessariamente, a imagem como representação da realidade.
Algumas imagens são poderosas e muitas vezes podem ser incorporadas no imaginário popular: afinal, a imagem, por ser tão explícita, possui um aspecto diferenciado das outras formas de comunicação – ela é autoexplicativa, ela não precisa de tradução155. Contudo, a imagem possui também, um caráter político-ideológico – conforme vem sendo denunciado por boa parte dos intelectuais que tomam para si a interpretação da Escola de Frankfurt e que considera que há presença da ideologia capitalista, mesmo de forma indireta, nos produtos dessa indústria – se o cinema é compreendido como um campo que cria imagens e essas imagens se tornam parte daquilo que entendemos como imaginário, a criação dessa imagem se torna também uma questão política. Dessa maneira, a imagem se constitui antes mesmo da relação produto-consumidor –da relação da construção da imagem que o homem tem de si mesmo; da imagem que ele aceita como sendo a reprodução da realidade, e como ele pode ser excluído do tecido social antes mesmo da relação econômica propriamente dita – mas na própria construção da sua identidade.
Bourdieu (2008) diz: “os sujeitos sociais compreendem o mundo social que os compreende”. Utilizando o seu raciocínio podemos parafraseá-lo da seguinte maneira: “os sujeitos sociais compreendem o mundo imagético que compreende a sua imagem”e assim, se a imagem da pessoa comum não está presente no mundo da imagem, ela (a pessoa comum) também não pertence a esse mundo.
A pessoa comum pode viver no mundo das imagens que compartilhamos hoje. Ela pode até viver nesse mundo, mas dificilmente participa dele inteiramente. Se sua imagem não é apresentada – ao invés de representada – ao mundo, ela não é reconhecida ou entendida por ele.
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Uma das razões que levou o cinema a um sucesso imediato com o público, ao contrário da literatura, que precisava que as pessoas fossem alfabetizadas para compreender o havia sido escrito. “Cinema se tornou popular porque era acessível inicialmente à uma maioria da população iletrada para qual a revolução de Gutemberg nunca chegou a se tornar realidade” WILLIAMS, Raymond. Cinema and socialism in: WILLIAMS, Raymond; PINKNEY, Tony. The politics of modernism : against the new conformists. London: Verso, 2007.