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A implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente numa

No documento Download/Open (páginas 52-56)

A ampla participação de setores da sociedade civil27 foi de suma impor- tância na mobilização e redação do ECA, que colocou a infância como portado- ra de direitos, já que a legislação anterior (Código de Menores de 1927 e 1979) e as ações assistenciais da Funabem ou Febem eram inadequadas e ineficientes, uma vez que condenavam os adolescentes delinquentes à violência dos interna- tos. (BAZÍLIO e KRAMER, 2011). Nesse sentido, há uma mudança significativa na forma de tratar a criança e o adolescente, sobretudo o adolescente em conflito com a lei, quando se substitui a repressiva doutrina do Código de Menores de 1979 e se implantam novas referências políticas, jurídicas e sociais.

Para Sales, Matos e Leal (2010), o ECA regulamentou conquistas pre- sentes na Constituição, e a sua implantação, mesmo que morosa, dados os en- traves e resistências de setores da sociedade brasileira, vem promovendo uma revolução nas áreas que cercam esse segmento.

Segundo os autores, a primeira revolução está na mudança da con- cepção de infância e adolescência, que anteriormente eram compreendidas como fases da vida destituídas de direitos e que, portanto, precisavam simplesmente de tutela. Assim, com o ECA, crianças e adolescentes passaram a ser vistos como sujeitos de direitos em situação peculiar de desenvolvimento e pessoas portado- ras de direitos.

Em relação às mudanças que imprimem uma abordagem nova do pon- to de vista conceitual do ECA, Bazílio e Kramer (2011, p.25) ponderam:

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A participação da Sociedade Civil em todo o país se deu de várias formas, dentre elas destacam- se: encontros, congressos, seminários e reuniões. A participação era vinculada às organizações que atuavam na área da Criança e do Adolescente.

o Estatuto abandona o paradigma da “infância em situação irregular” e adota o princípio de “proteção integral à infância”. Nesta perspectiva, o texto legal deixa a simples prescrição sobre deveres e responsabilidades do Estado quando o menor por ação (autor de infração penal) ou omis- são(ausência de família ou meios de subsistência) precisa de amparo ou tutela e avança no sentido de compor um texto que coloca sob seu arco todos aqueles brasileiros menores de dezoito anos. Não estamos mais diante de uma lei de exceção, mas incluindo a explicitando direitos de todos.

Nesse sentido, o Estatuto tem caráter universal. Ou seja, contempla to- das as crianças e adolescentes, independente de sua condição socioeconômica, política e cultural. Nesse sentido, a lei representou um marco histórico no reco- nhecimento de direitos humanos para a Criança e o Adolescente e sua proteção.

Em relação ao adolescente em conflito com a lei, o ECA apresenta mu- danças significativas quando comparado ao Código do Menor de 1979, que em- bora preveja em seu texto inúmeras medidas a serem aplicadas, a prática jurídi- co-institucional, que se estabeleceu com a criação da Funabem e da Febem, foi apenas a massificação da internação (BAZÍLIO & KRAMER, 2011). Nessa dire- ção, essa política segregadora foi alvo de muitas críticas e denúncias pelos mo- vimentos sociais nos anos 1980, sobre abusos e violações dos direitos humanos que ocorrem dentro das instituições de internação.

Nessa perspectiva, apesar das mudanças significativas que o Estatuto imprime, Sales, Matos e Leal (2012, p.115), ponderam:

Na verdade, ninguém espera ou crê que a prisão corrija. No caso das escolas-prisões de adolescentes, pelo contrário, muitos julgam e espe- ram que elas devam cumprir sua função oficial de aplicar medidas socio- educativas que possibilitem a reintegração do adolescente à sociedade e que restabeleçam sua cidadania.

Depreende-se que as novas referências no campo político, jurídico e social que o ECA encerra ainda não são suficientes para que os direitos previstos sejam assegurados pelo Estado, o que exige continuidade de discussão desse processo histórico.

O ECA destina muitos artigos a ordenar e regular as ações e respon- sabilidades decorrentes da prática do ato infracional e das garantias processuais, além de detalhar a forma de proceder de cada medida socioeducativa prevista.

O artigo 112 prescreve que, verificada a prática de ato infracional, a au- toridade competente poderá aplicar ao adolescente as seguintes medidas: adver-

tência, obrigação de reparar dano, Prestação de Serviço à Comunidade (PSC), Liberdade Assistida (LA), inserção em regime de semiliberdade, ou internação em estabelecimento educacional.

A medida aplicada ao adolescente levará em conta a sua capacidade de cumpri-la, as circunstâncias e a gravidade da infração, e acrescenta, em hipó- tese alguma e sob pretexto algum, será admitida a prestação de trabalho forçado. Os adolescentes com deficiência receberão tratamento individual e especializado, em local adequado às suas condições (BRASIL, 2013).

Não se descarta a revolução que o ECA imprime à temática da criança e do adolescente, a qual se inscreve na agenda do Direitos Humanos, porém há contradições. Nesse sentido, Bazílio & Kramer (2011, p. 52-53), esclarecem:

Temos uma das mais modernas legislações e uma prática institucional que se mantém repressiva. Vivemos ao longo dos anos 1990 e ainda na virada do milênio, do ponto de vista dessa política setorial, os seguintes impasses: a) uma crise dos mecanismos de financiamento - faltam re- cursos financeiros e humanos que garantam qualidade dos programas; b) o desmonte institucional com a extinção da Funabem/CBIA e a conse- quente retirada do governo federal; c) a ausência de propostas (metodo- logia) de atendimento ou alternativas educacionais para os adolescentes em conflito com a lei.

Para esses autores, as unidades da federação buscam suas próprias alternativas para enfrentar essa questão. Assim, muitos atores responsáveis por essa política que desempenham seu papel nos programas de Liberdade Assistida, semiliberdade e internação em estabelecimento educacional, não compreendem a metodologia de atendimento ou estratégias de ação para esses sujeitos.

Apesar das limitações na sua implementação, o ECA prevê a aplicação das medidas protetivas à criança e ao adolescente, quando seus direitos forem ameaçados ou violados por ação ou omissão da sociedade ou do Estado; por fal- ta, omissão ou abuso dos pais ou responsável e em razão sua própria conduta. Nesse sentido, levam-se em conta as necessidades pedagógicas, preferencial- mente aquelas que fortalecem os vínculos familiares.

Segundo o ECA, a política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente será viabilizada através de um conjunto articulado de ações go- vernamentais e não governamentais, em âmbito estadual, do Distrito Federal, da União e dos municípios, com as seguintes linhas de ação: a) “políticas sociais

básicas; b) políticas e programas de assistência social; serviços especiais de pre- venção e atendimento médico e psicossocial à vítimas de negligência, maus tra- tos, exploração, abuso, crueldade e opressão; c) proteção jurídico-social por enti- dades de defesa da criança e do adolescente”, dentre outras (BRASIL, ECA, 2013,p.50).

Contudo, para que essas ações se concretizem, é necessária uma arti- culação entre elas, conforme preconiza o próprio Estatuto.

Conforme, Rizzini & Pilotti (2009, p. 29), a oferta de serviços direciona- dos às crianças e aos adolescentes está imbricada com as políticas sociais e

[...] deve ser proporcionado no seio da comunidade e em consonância com esta. A formulação de políticas específicas caberá doravante, aos Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do Adolescente, órgãos deliberativos e paritários entre governos e sociedade civil. A primeira ins- tância do atendimento propriamente dito será constituída por Conselhos Tutelares, órgãos permanentes, autônomos e não jurisdicionais, com membros eleitos por cidadãos no plano local, e encarregados de fiscali- zar e implementar o cumprimento dos direitos das crianças e dos ado- lescentes.

O ECA, muito mais do que uma legislação, constitui uma política que acredita numa perspectiva de vida para a criança e o adolescente e na visibilidade como efetivação da liberdade e da cidadania.

No que diz respeito à educação, o Estatuto afirma em seu artigo 53 que, para o pleno desenvolvimento da criança e do adolescente, é preciso uma educação que garanta a efetivação da cidadania e da qualificação para o traba- lho. Para isso, deve ser assegurado às crianças e adolescentes igualdade de condições para acesso e permanência na escola.

O capítulo V do ECA, sobre direito à profissionalização e à proteção no trabalho, apresenta várias inovações. Com relação a crianças e adolescentes até 14 anos de idade, só é permitido trabalho na condição de aprendiz, assegurada a bolsa aprendizagem (SALES; MATOS e&LEAL, 2010).

Após a promulgação do ECA, nos anos que se seguiram, mudanças fo- ram efetivadas com relação aos direitos da criança e adolescente. No entanto, a maioria aconteceu no plano jurídico e político-conceitual, não atingindo efetiva- mente seus destinatários. Quanto aos adolescentes em situação de conflito com a lei, não houve grandes alterações na forma de atendimento. Nesse sentido, a lei

por ser lei, nem sempre garante direitos. Para que a implementação do ECA seja legitimada é preciso dar continuidade ao processo de luta pela sua efetivação.

2.3 Políticas públicas de atendimento à criança e ao adolescente: O Sistema

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