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4 IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: HÁ UM LIMITE ENTRE

4.2 Análise de implementação de políticas públicas

4.2.1 A implementação sob a ótica do modelo Top-down

O enfoque Top-down, modelo de cima para baixo, parte do pressuposto que a

implementação é uma fase subsequente e desvinculada da formulação, havendo

uma “separação clara entre o momento de tomada de decisão e o de

implementação, em fases consecutivas” (SABATIER, 1986 apud SECCHI, 2012, p.

46). Essa nítida separação seria justificada pelo fato de que a formulação e a

implementação são realizadas por grupos distintos: “esse modelo é baseado na

distinção wilsoniana entre “Política e Administração” (Wilson, 1987), no qual os

tomadores de decisão (políticos) são separados dos implementadores

(administradores)” (idem).

Segundo Winter (2002, p. 213), esse modelo tem seu foco em uma decisão

política específica, normalmente uma lei, ou seja, tem especial interesse em

tomadores de decisão de alto nível. Pode-se constatar, então, que o modelo

Top-down é direcionado aos altos níveis de decisão e defende que o processo decisório

está claramente separado da implementação, ou seja, aos políticos cabe apenas a

decisão enquanto que a implementação fica a cargo dos administradores. Vale frisar

que em muitos casos a execução da política pública pode ser feita por agentes que

não pertencem ao estado, como, por exemplo, as políticas que são executadas pelo

Terceiro Setor, caso da política em exame, o Projeto Transformar. Sendo assim, as

decisões fluem de cima (políticos) para serem executadas pela parte de baixo (os

administradores, burocratas, Terceiro Setor).

Essa divisão de atividades entre decisores e administradores no processo de

implementação, segundo Rua e Romanini (2003), decorre parte das afinidades do

modelo Top-down com o pensamento racionalista e parte do modelo weberiano de

organização burocrática:

Da vertente racionalista origina-se a concepção de que a implementação consiste em um conjunto ordenado de atividades-meio para alcançar objetivos previamente estabelecidos. E do modelo weberiano de burocracia advém a perspectiva da implementação como um sistema de comandos centralizados e hierárquicos associados a uma estrita separação entre política e administração (RUA; ROMANINI, 2003, p. 94).

Dessa forma, conforme as autoras, a implementação de políticas públicas

numa visão Top-down, parte de uma decisão política do governo central, o qual

assegura que os objetivos da política pública e os meios a serem mobilizados pelos

diferentes níveis da burocracia a fim de produzir os resultados pretendidos (RUA;

ROMANINI, 2003). Sendo assim, os implementadores são a burocracia responsável

por executar as políticas, cabendo a eles apenas executar os comandos definidos

pelos políticos, ou seja, sua margem de decisão é restrita a aspectos operacionais

que, por sinal, devem ser os mais fidedignos possíveis aos objetivos originais da

política. Isso significa que “a implementação não representa uma preocupação das

lideranças políticas, que, tomando- a como dada, se ocupariam apenas da

formulação da política pública” (RUA; ROMANINI, 2003, p. 93).

Acrescenta Winter (2002), que os estudiosos da corrente Top-down acreditam

que a implementação deve ser estruturada pelos decisores com a finalidade de ser

executada de forma mais próxima possível da legislação e com o mínimo de

possibilidade de ter algum ponto questionado:

[...] assumem uma perspectiva de controle sobre a implementação, tentando dar bons conselhos sobre como estruturar o processo de implementação a partir de cima, a fim de alcançar o propósito da legislação e minimizar o número de pontos de decisão que poderiam ser vetados (WINTER, 2002, p. 213, tradução nossa).

Isto é, além da perspectiva de que os objetivos estabelecidos pelo nível

decisório são claros e coerentes, eles também são construídos dentro dos

parâmetros legais, portanto, excluindo a possibilidade de serem questionados.

Frente ao exposto, entende-se que o modelo de análise Top-down baseia-se em

uma clara divisão entre as duas fases do processo político, formulação e

implantação, e entre os responsáveis por elas, autoridades políticas dotados de

poder decisório e implementadores, considerados os burocratas. Assim, a

formulação, momento no qual são definidos os objetivos, é papel dos políticos e a

implementação, momento de executar exatamente o que foi definido, seria papel

exclusivo dos administradores, eximindo a classe política das responsabilidades

sobre a implantação das políticas públicas. Outro ponto observado nesse modelo, é

que a implementação é vista como algo fechado, não suscetível a reformulações e

novas decisões, pressupondo-se que tudo já foi previsto e decido de forma ideal no

momento da formulação pelos altos níveis de escalão.

O modelo Top-down, conforme Secchi (2012), acaba sendo usado como uma

estratégia pelos políticos para se absterem dos possíveis problemas de

implementação, pois uma vez que as políticas, os programas e as leis estão bem

planejados, com objetivos claros e coerentes, uma má implementação é decorrente

de falhas da administração, ou seja, dos agentes executores, sendo esse processo

de transferência de culpa conhecido na literatura política como blame shifting .

Segundo Winter (2002) o modelo Top-down mais conhecido foi o elaborado

por Mazmanian e Sabatier (1986), o qual contém dezessete variáveis colocadas em

três grupos principais no que diz respeito à facilidade de tratamento dos problemas

abordados pela legislação, o contexto social e político e a capacidade da legislação

para estruturar o processo de implementação. Essa estrutura criada por Mazmanian

e Sabatier foi alvo de dois tipos de críticas. A primeira corrente julgou o modelo

ingênuo e irrealista na medida em que subestimava a capacidade dos proponentes

da política de estruturar a implementação, assim ignorando os opositores políticos

de interferir nesse processo de estruturação, sendo que eles têm a capacidade de

tornar os objetivos da política menos claros (MOE, 1989 apud WINTER, 2002, p.

213). Como afirma Winter (2002, p. 213, tradução nossa) “conceitualmente, o

modelo ignorou a política de formulação de políticas e desenho de políticas”.

A outra corrente opositora, segundo Winter (2002), foi a dos pesquisadores do

modelo Bottom-up que tinham interesse no pano de fundo da implementação, ou

seja, no lugar onde o setor público se encontra com os cidadãos ou organizações.

Também foram unânimes em enfatizar a influência dos funcionários da linha de

frente ou dos trabalhadores de campo têm na entrega de políticas.

Sendo assim, entre as críticas apontadas ao modelo Top-Down está a

ingenuidade em perceber a formulação e a implementação como duas fases

claramente divididas, acreditando ser a primeira fase uma atribuição dos políticos

imbuídos de poder decisório e a segunda uma atribuição dos agentes burocráticos e

administradores. O que pode ser usado como um artifício pela classe política para se

eximir das possíveis falhas na implementação de uma política pública. Outra crítica

está relacionada ao Modelo não considerar os possíveis embates dos atores

políticos durante a implementação, ao ponderar que os objetivos formulados são

perfeitamente executáveis não havendo dissensos, escassez de recursos e

desconsiderando a atuação dos agentes burocráticos. Desse modo, a visão

Top-down apresenta uma visão clássica da implementação, a qual, segundo Silva e Melo

(2000, p. 5), a considera um processo linear, na qual as políticas fluem de cima para

baixo, não havendo uma retroalimentação da formulação a partir dos resultados

obtidos na implementação.

Silva e Melo (2000) defendem que a implementação, como parte do policy

cicle, sob o ponto de vista dos modelos clássicos e como processo linear, sofre de

sérios problemas relacionados aos seus pressupostos: “a adoção da perspectiva

onde o policy cicle é visto como um processo simples e linear consagra uma visão

top-down da formulação e desenho dos programas, onde os problemas de

implementação são necessariamente entendidos como “desvios de rota”’(SILVA;

MELO, 2000, p. 8).

Nota-se que nessa visão clássica, os problemas da implementação são

considerados normais, portanto não demandando novas decisões ou a reformulação

daquelas já tomadas, retroalimentando a formulação. Segundo os autores, essa

visão de implementação constitui-se numa perspectiva ingênua e não real da

administração pública, na medida em que se apresenta “como um mecanismo

operativo perfeito”, pelo qual a implementação seria um retrato fiel do que foi

planejado na formulação (SILVA; MELO, 2000).