Como já foi referido anteriormente, as pessoas são seres sociais, que despendem grande parte do seu tempo em contato com os outros. Como tal, nesta relação as competências sociais assumem uma colossal importância.
As competências sociais dizem respeito a um conjunto de comportamentos que cada ser humano emite em contexto interpessoal, expressos através de sentimentos, atitudes, desejos, opiniões e direitos em consonância com o outro, respeitando a conduta do próximo. São estas competências sociais que permitem a resolução de problemas imediatos, minimizando a probabilidade de ocorrência de problemas futuros (Caballo, 1987, cit. por Camargo, Angarita, Ortega & Ospino, 2009). Neste contexto, e tendo em conta a especificidade desta investigação, passamos a descrever uma das competências sociais relevantes em contexto educativo e de relacionamento interpessoal, a assertividade.
Vários estudos fazem referência ao facto de as competências sociais serem fatores críticos no comportamento de cada pessoa na sua organização. Estas competências, permitem ao individuo uma melhor inserção no seu meio, bem como o alargamento das suas capacidades para lidar da melhor forma com a possibilidade de conflito. A assertividade é um constructo multidimensional, que engloba vários aspetos da personalidade, os quais são importantes para o desenrolar do comportamento social. Ser assertivo significa ser capaz de expressar as suas opiniões e sentimentos com respeito pelo outro, é fazer valer os seus direitos sem infringir os direitos do outro (Hammed, 1999, cit. por Bankole & Dauda, 2009).
De acordo com Elizondo (2005), a assertividade é a habilidade de expressar os pensamentos, sentimentos e perceções e de manifestar os próprios direitos quando assim se justifica. Uma pessoa assertiva detém inúmeras caraterísticas, entre as quais destaco a expressão das suas opiniões e sentimentos, a expressão de desacordo sempre com respeito pelo outro. O sujeito assertivo comunica facilmente com os outros, reconhece, aceita e respeita os seus direitos básicos e os direitos dos que o rodeiam, tem uma grande autoconfiança para tomar decisões, sabe elogiar e reconhecer o trabalho dos outros, entre outras competências.
Quer isto dizer que a assertividade, tal como a negociação, é uma habilidade de comunicação, que permite às pessoas a criação de comportamentos adequados para lidar com situações de relacionamento interpessoal (Bankole & Dauda, 2009).
É importante frisar que há dissemelhança entre ser assertivo e ser agressivo. A primeira reconhece que cada pessoa tem direitos e esses direitos incluem o direito à individualidade, de ter e expressar preferências pessoais, sentimentos e opiniões, fazendo concessões sobre questões de interesse divergentes. Neste sentido, este tipo de comportamento assertivo promove a comunicação e a resolução de conflitos, focando-se na sua solução e não no conflito em si. Já as pessoas que adotam o estilo agressivo não respeitam o outro, exercendo a manipulação e abuso sobre o mesmo. Os sujeitos agressivos pensam em termos de retaliação e não na solução do problema. Ao contrário da pessoa assertiva, a pessoa agressiva pensa somente no seu ponto de vista, cria conflitos desnecessários, acredita que os seus sentimentos e ideias prevalecem sobre tudo e todos. Trata-se de um comportamento desadaptativo que interfere ao nível de qualquer relacionamento interpessoal (Bankole & Dauda, 2009). Em situações de conflito a pessoa
agressiva procura obter o que pretende, mas negando à outra parte o controlo sobre o resultado.
Segundo Detry e Castro (1990), existem na literatura duas conceções divergentes acerca da assertividade, a que identifica indivíduos não assertivos e indivíduos assertivos. A primeira identifica os sujeitos enquanto pessoas passivas e ansiosas nos seus encontros interpessoais. Estes sujeitos são seres inibidos e desajustados que não dispõem de espontaneidade, sendo compelidos a nível emocional.
A pessoa passiva tem dificuldade em defender os seus interesses, em expressar os seus sentimentos e em demonstrar desacordo com os outros (Rego, 2007). Assim, é expetável que em situações de conflito, os sujeitos passivos tenham um comportamento de fuga, próprio do estilo evitamento e, como indica Rego (2007), encorajam os outros sujeitos a adquirirem vantagem sobre si.
Os sujeitos assertivos, por sua vez, são indivíduos que expressam adequadamente os seus sentimentos, reforçam e recebem reforço dos outros, são pessoas ajustadas ao seu meio. Rakus (1991, cit. por Vagos, 2010) menciona que diversos trabalhos têm comprovado que indivíduos com altos níveis de assertividade transmitem mais afirmações positivas e facilitadoras da prática assertiva, confiando na sua capacidade de resposta eficaz e aguardando, consequentemente, mais resultados positivos deste desempenho assertivo, sobretudo, respeito, compreensão e justiça.
Cunha (2001) afirma que um sujeito assertivo encontra-se em melhores condições para gerir a complexidade inerente às situações de conflito, dado que a procura dos interesses próprios será influenciada pela tendência do sujeito em permanecer nas interações interpessoais no decurso da negociação.
A assertividade é ainda considerada uma competência fundamental no desempenho
da prática da mediação. Segundo Vallejo e Guillén (2006), a assertividade de ummediador
é revelada em quatro aspetos básicos, a saber: na autonomia do mediador para expressar e manifestar o que considera do processo; na capacidade para comunicar com as partes de forma sincera e aberta; numa atitude proativa; numa atuação assente na compreensão e aceitação das suas limitações.
Por sua vez, Rego (2007) afirma que um sujeito assertivo terá maiores possibilidades de obter soluções ganha-ganha numa situação potencialmente ou
efetivamente conflitual. Tal possibilidade resulta do indivíduo assertivo procurar compreender o ponto de vista e interesse do oponente, adotando uma postura empática, porque o reconhece como igualmente válido. Neste caso, o indivíduo é capaz de considerar os interesses e ponto de vista do outro, sem pôr em causa a própria posição.
A este propósito, Vagos (2010) menciona que os sujeitos com altos níveis de assertividade apresentam maior complexidade cognitiva, descrita pela capacidade de gestão de diferentes pontos de vista sobre uma mesma situação social e de gestão de frustração ligada a acontecimentos sociais. Assim, mais facilmente concebem opções na resolução de problemas ou conflitos sociais, designadamente assertivas, elegendo uma opção de resposta socialmente eficaz.
Greenhalgh et al., (1985, cit. por Monteiro, 2010) estudaram a relação entre assertividade e as condutas negociadoras e averiguaram que os sujeitos mais assertivos agem de um modo mais competitivo. Ao contrário, os sujeitos menos assertivos desenvolvem condutas mais cooperativas.
De acordo com o estudo levado a cabo por Moreira (2005) existe uma relação entre estilos de gestão de conflito e a assertividade. Neste sentido, o autor verificou que os níveis de assertividade são menores quando se utilizam os estilos Integração e Compromisso. Estes níveis aumentam na utilização dos estilos Servilismo e Evitamento, assumindo valores mais elevados quando se utiliza o estilo Dominação. Nesse mesmo estudo, Moreira (2005) constatou que a assertividade é associada aos estilos que lhe estão mais distantes a nível de comportamentos, o que o autor explica que dever-se-á, possivelmente, à imagem errada que as pessoas têm acerca do termo assertividade, associando-a, provavelmente, a traços agressivos.
A Assertividade e os Estilos de Gestão de Conflito na Escola
Parte II