4.3 Área 3 Desenvolvimento Profissional
4.3.1 A importância de ser uma professora reflexiva
Lalanda e Abrantes (1996, p. 45), advogam que “Nenhum ser humano se pode eximir à actividade de pensar. Pensar é algo que acontece naturalmente e de pouco vale tentar ensinar a outro como fazê-lo exactamente”.
Como qualquer pessoa, cresci e aprendi, em vários ambientes, com pessoas diferentes e com formas de pensar distintas. Acredito que construí o meu próprio conjunto de definições, conceitos e modos de estar. No entanto, como pessoa recetiva, sei que pouca coisa é irrefutável e, portanto, aceito que há sempre algo mais a retirar de todas as circunstâncias. Desta forma, enfrentei o estágio com as minhas conceções pré-definidas, mas como sempre estive suscetível a aprender, rapidamente percebi que as minhas conceções ainda estavam por definir.
Segundo Teixeira et al. (2018, p. 15), “(…) o que está na base da discussão e da partilha de ideias é aquilo em que cada um acredita e as conceções que perfilham para si, que por sua vez, refletem o modo como pensam e desenvolvem as suas práticas”. Já para Alarcão (1996, p. 14), “Para construir o problema, é necessário dar nomes às coisas, identificá-las, estruturá-las e relacioná-las, vê-las com outros olhos, sob outros prismas, ser capaz de considerar importantes aspectos aparentemente irrelevantes e ignorar eventualmente aspectos que inicialmente pareciam ter uma importância capital”. O EP foi o palco perfeito para melhorar e aprofundar as minhas capacidades de reflexão. Desde os primeiros tempos de contacto com a escola e com a turma, passando pelos momentos de discórdia com o PC, até a realização deste
relatório, percebi não só a importância de ser uma professora reflexiva, mas também um ser em constante reflexão. Segundo Alarcão (1996, p. 28), “Mas seja qual for o nível a que a reflexão se realize, há que saber desenvolver a capacidade de reflectir, o que não é de todo tarefa fácil, nomeadamente em Portugal onde o ensino, a todos os níveis, se tem preocupado pouco por desenvolver esta capacidade. E se, por um lado, é difícil desenvolvê-la nos alunos, mesmo que estes já sejam estagiários, é fácil para os profissionais, os professores neste caso, deixá-la adormecer, embalada pela automatização das rotinas que se seguem às descobertas que um dia fizeram para resolver um determinado problema”. E ainda, para o mesmo autor, “Os dados e as ideias são as duas pedras basilares do processo reflexivo, porque da interacção entre eles há-de surgir uma conclusão”, ” Os dados são fornecidos pela observação, directa ou indirecta, ou mesmo pela memória; as ideias nascem da inferência; a inferência, embora parta do que é real e observável, situa-se ao nível do possível, do previsível, da conjectura, ou mesmo da imaginação, daí que toda a inferência exija uma dupla verificação” (2005, p. 47).
Se por um lado é fácil perceber a necessidade de refletir aquando de uma situação de confronto ou discórdia, algo diverso é interrogar algo que se dá como certo. No EP, pelo facto de estar a ensinar conteúdos com vista à aprendizagem de determinada modalidade, senti a importância de questionar acerca da pertinência de certos exercícios, da sua importância, ou, pelo contrário, da sua não adequação a determinada situação. Neste processo de autoconsciência e autoaprendizagem, considerei valiosos os momentos que se seguiam à lecionação, pois eram os imprevistos os principais impulsionadores da minha reflexão. Questionar-me da razão de ser destes momentos inesperados, de como evitá-los ou mesmo de como fazê-los voltar a acontecer, contribuiu para o meu crescimento pessoal e profissional de aula para aula.
(Na minha opinião, gostei muito de ter uma professora estagiária, foi a primeira vez e considero que há diferenças entre estagiários e professores. Senti que não éramos só nós a aprender e que a professora estagiária, que estava sempre atenta a tudo, puxava por nós nas aulas. Enquanto um professor que já tenha uma grande experiência, na minha opinião já tem o seu método, o que torna a aula mais
cansativa, enquanto os estagiários tentam sempre dar aulas diferentes, conseguindo seguir sempre o regulamento. Foi uma das disciplinas que mais uniu a turma, acho que a professora deu sempre o seu melhor e conseguiu fazer com que as aulas de Educação Física não fossem repetitivas. Em cada modalidade nova mostrou-nos boas técnicas e, como já tinha referido, mostrou-se sempre preparada para tudo.
Aluna A) Com o desenvolvimento do EP, tive de conciliar as atividades de aprender, de ensinar e de aprender a ensinar. De facto, a aprendizagem pessoal foi imensa a todos os níveis e partiu, também, de um grande trabalho de reflexão própria, pois o conhecimento mais afinado surge da conjugação da teoria com a prática e a reflexão sobre esta mesma prática. Aprendi a questionar aquilo que aprendo, aquilo que faço e aquilo que executo e sinto que o resultado final foi extremamente positivo. Amaral et al. (1996, p. 97), referem que “A reflexão na acção ocorre quando o professor reflecte no decorrer da própria acção e a vai reformulando, ajustando-a assim a situações novas que vão surgindo”. De acordo com Teixeira et al. (2018, p. 8), “Aquilo que o professor faz é influenciado pelo conhecimento que constrói e reconstrói em interação, através da autorreflexão e da reflexão partilhada com os seus pares, o que promove a reconstrução do conhecimento prático”.
(“Sem um trabalho de reflexão suficientemente aprofundado não é possível a avaliação dos alunos e da actividade pedagógica do professor. E sem controlo permanente da qualidade do ensino nenhum professor consegue garantir a eficácia e a melhoria da sua prática profissional” (Bento, 2003, p.175). Com o fim das aulas do 1º período, altura em que terei de avaliar os meus alunos pela primeira vez, senti a necessidade de refletir, pois quero ter em conta todas as variáveis, para não cair no erro de cometer injustiças, algo que não gostava quando estava do lado dos alunos.
Diário de bordo 15, 15 de dezembro 2017)
Ao longo dos últimos anos, enquanto estudante de desporto, considero ter adquirido variadas bases e conhecimentos fundamentais para a minha prática profissional. Contudo, a prática não se baseia apenas em construtos teóricos,
mas sim em aprendizagens diárias, que não são absolutas, sendo reformuladas e ajustadas.
Portanto, se, em teoria, existe uma meta, na minha opinião, esta meta é passível de reajustamentos, uma vez que considero que o ciclo de reflexão (conforme Figura 9) e aprendizagem não tem fim e pode sempre ser melhorado. Desta forma, tenciono criar as “minhas” metas, que espero atingir gradualmente, sem nunca atingir a última meta, uma vez que um ciclo não tem fim, assim como o conhecimento.
Figura 9- Modelo prático-reflexivo de desenvolvimento/formação profissional (Wallace, 1991)
Segundo Alarcão (1996, p. 28), “As respostas, nestes casos, vêm de caminhos enviesados, cruzados e escondidos por curvas encobertas. Para as descobrir, é preciso compreender bem o problema e reorganizar os saberes relevantes. A resposta surge então e nessa descoberta produz-se um novo saber que a reflexão ajuda a solidificar”. A mesma autora refere que, “(…) essa reflexão só se dá se o sujeito tiver uma base de conhecimentos sobre os quais possa reflectir” (2005, p. 29).
Durante este ano, tive a oportunidade de ver gravada uma das aulas que lecionei. Foi neste momento, que tomei total consciência das minhas palavras, das minhas ações e reações. Percebi que dou mais Feedback do que pensava e confirmei a importância do mesmo, uma vez que contribuiu para melhorar a
performance dos alunos. Segundo Lalanda e Abrantes (1996, p. 49), “Quando nos encontramos numa situação problemática, o nosso desejo é vê-la resolvida o mais depressa possível; no entanto, esta acção imediata é retardada pelo aparecimento de várias sugestões que nos vêm à mente e inibem de alguma forma uma actuação precipitada”. E ainda, as mesmas autoras referem que, “O raciocínio, inimigo da precipitação, examina o problema de todos os ângulos, favorece o elo de ligação entre os elementos desconexos, rejeita o que parece impróprio, ajudando finalmente a ampliar o conhecimento que irá ser posto à prova” (2005, p. 49).