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2. CAPÍTULO II – A RESTAURAÇÃO ECOLÓGICA DE LINHAS DE ÁGUA

2.3. A importância dos ecossistemas ribeirinhos

A vegetação ribeirinha funciona, no caso de não haver alteração pelo homem, como um corredor ecológico que permite a existência de um continuum naturale entre os diversos habitats naturais. Um ecossistema ribeirinho pouco intervencionado ou próximo das condições naturais é constituído por um mosaico de formações vegetais com uma elevada diversidade que resulta da combinação de muitos factores, entre eles, os climáticos, geológicos, pedológicos, topográficos e históricos. Estes ecossistemas constituem meios de migração para muitas espécies da fauna e flora e têm um papel importante na vida das comunidades humanas, que utilizam os seus recursos e também neles estabelecem os seus espaços de lazer. No entanto, estes ecossistemas ripícolas em bom estado de conservação são hoje em dia escassos devido às perturbações induzidas pelas actividades humanas (Moreira et al., 2004).

Os ecossistemas ribeirinhos são habitats aquáticos de água doce, cujas águas se encontram em movimento mais ou menos rápido, o que condiciona à partida as comunidades biológicas capazes de colonizar ou habitar estes meios, quer sejam flutuantes ou nadadoras, que submersas fixas aos fundos, quer parcialmente emersas e fixas nas margens (Alves et al., 1995). A aridez, o relevo e a presença de solos deposicionais são os aspectos que mais influenciam a extensão dos lençóis freáticos e dos ecossistemas ripícolas associados (Jonhson e McCormick, 1979).

Perante o conceito de corredor verde, ou corredor de vegetação, o continuum naturale não é mais do que o conjunto formado pela continuidade dos elementos da paisagem natural e com as suas funções próprias de forma a ser atingida uma garantia da qualidade de vida (Valle, 1998). Cabral (1980) define quatro princípios fundamentais deste conceito: a continuidade; a elasticidade (a capacidade de adaptação à diversidade de situações que caracterizam a vida); a meandrização (representa a tendência para o aumento das interfaces dos vários elementos da paisagem e que faz aumentar os fluxos de energia, matéria e organismos); e a intensificação (para atingir a optimização dos seus recursos). Na Figura 2.3 estão representadas as funções desempenhadas pela vegetação ripícola na paisagem.

15 Figura 2.3. Esquematização das funções desempenhadas pela vegetação ripícola na paisagem (Saraiva, 1999).

Os corredores são faixas com vegetação de características específicas (que diferem da matriz do terreno envolvente) que ladeiam os cursos de água (Figura 2.4). O corredor inclui não só o curso de água e as suas margens, como também, se suficientemente largo, o leito ou planície de cheia e as zonas adjacentes, ricas em vida selvagem (Valle, 1998). Devido às suas características os corredores fluviais constituem elementos da paisagem a que tem sido prestada muita atenção pelo que têm associado ao seu conceito, a perspectiva da conservação e valorização da paisagem e dos recursos cénicos bem como de recreio.

16 As características estruturais essenciais dos corredores, extensíveis aos corredores fluviais, são a largura, a conectividade e a qualidade (Forman e Gordon, 1986; Forman, 1997; Saraiva et al., 1996; Morais 1997). A largura determina a parte do corredor exposta a intrusões físicas, biológicas e antrópicas, ou ao efeito de orla. A conectividade representa a existência de interrupções ao longo do corredor, originadas pelos mais diversos factores. A qualidade diz respeito ao elenco florístico e varia com a conectividade e largura. Segundo Forman e Godron (1986), as funções de habitat, condutor, filtro, barreira, fonte e destino dos corredores (Figura 2.5), desempenhadas também pelos corredores fluviais, variam com os parâmetros estruturais de largura e conectividade. Se os corredores apresentarem interrupções de continuidade as funções de filtro e barreira deixam de se exercer e as restantes podem ficar comprometidas.

Figura 2.5. Funções dos corredores na paisagem (adaptado de FISRWG,1998).

Os corredores fluviais correspondem a ecossistemas de elevada produtividade, diversidade, complexidade e qualidade visual, que podem ser utilizados de múltiplas formas pelas sociedades humanas (Valle, 1998). Segundo o mesmo autor, os ecossistemas fluviais funcionam como sistemas abertos, nos quais a variação gradual da fauna e flora, fluxos de energia e matéria e os gradientes físicos dão forma a uma estrutura dinâmica, no tempo e no espaço, desde a nascente até à foz, à qual Vannote et al. (1980 in Bindord e Buchenau, 1992) e Cummins et al. (1984 in Bindord e Buchenau, 1992) chamam de “River Continuum Concept”, vulgarmente chamado continuum fluvial, na literatura actual.

17 A diversidade de usos, incluindo o abastecimento e armazenamento de água, produção de energia, recepção de efluentes, controlo de cheias, produção florestal, extracção de inertes, agricultura e pastagens, recreio e lazer, movimentação de espécies e habitat, entre outros, mostra os conflitos e a competitividade existente entre as várias intervenções. Daí que o planeamento, ordenamento e gestão destes recursos se torne um desafio. De uma forma geral, nas intervenções efectuadas nos sistemas fluviais, os valores prioritariamente considerados são os económicos, sendo os valores ecológicos, culturais e estéticos, minimizados. Os aspectos estéticos e cénicos dos sistemas fluviais, apesar de terem grande significado, são de difícil avaliação, o que faz com que, na maioria das vezes, sejam totalmente ignorados (Valle, 1998).

As características ecológicas dos sistemas fluviais são essenciais ao desempenho das suas funções biofísicas e paisagísticas (Saraiva, 1995), sendo estas:

i) Estrutura linear ou curvilínea, relacionada com as características morfológicas da rede de drenagem;

ii) Elevado grau de conexão com sistemas adjacentes, actuando simultaneamente como elemento de ligação e separação entre eles;

iii) Favorecimento de condições de refúgio e protecção, constituindo habitats para um elevado número de espécies;

iv) Existência de gradientes, isto é, de mudanças graduais na composição e abundância de espécies, o que dá origem a funções condutoras de movimento e circulação de espécies; v) Efeitos de orla, de filtragem e/ou barreira: funcionam como filtros para sedimentos

transportados pela erosão e como reguladores da temperatura da água;

vi) Existência de relações funcionais com as águas subterrâneas, favorecendo o seu fluxo ascendente, assim como com a circulação de águas superficiais, controlando as funções de escoamento e infiltração, a retenção de nutrientes e sedimentos e a protecção contra a erosão;

vii) Grande tolerância e flexibilidade às modificações cíclicas do regime de caudais do rio; viii) Controlo do desenvolvimento de plantas aquáticas por ensombramento;

ix) Riqueza e diversidade paisagística e valorização cénica da paisagem.

O regime hidrológico de inundação é o maior responsável pelas mudanças ocorridas nos ecossistemas ripícolas. As inundações proporcionam inputs de energia e garantem a regeneração destes sistemas, o transporte de sedimentos e a sua deposição, a erosão das margens, a manutenção dos níveis de humidade do solo e a dispersão das sementes (Petts,

18 1990 in Marques, 1995). Para além de serem de extrema importância para a dinâmica destes ecossistemas, o regime e variabilidade das inundações interferem no denominado gradiente transversal (Malason, 1993), sendo este, segundo Valle (1998) o factor mais significativo na determinação da estrutura interna e funcionamento dos ecossistemas ripícolas. O gradiente transversal consiste no fluxo bidireccional de energia, matéria e organismos, perpendicular ao curso da água. Por outro lado, o gradiente longitudinal é também característico dos ecossistemas ripícolas (trata-se de um fluxo de energia, matéria e organismos no sentido do comprimento do curso de água) mas não se verifica tão facilmente devido à possível fragmentação e descontinuidade apresentadas pelos sistemas fluviais.

Assim, a diversidade, a continuidade, a largura e a sinuosidade do corredor ripícola representam características de extrema importância na ocorrência dos gradientes transversal e longitudinal e no desempenho das suas funções (Villa, 1998). A diversidade do sistema ripícola é importante para o desempenho das suas funções enquanto corredor. A continuidade é um atributo dos cursos de água, mas não da vegetação ripícola. A galeria pode apresentar-se em manchas isoladas, ou seja, fragmentada e sem conectividade (Figura 2.6). A largura é importante relativamente ao efeito de orla. A sinuosidade favorece as interacções com a sua envolvente devido à maior área de contacto proporcionada pelas curvas.

Figura 2.6. a) Paisagem com (A) elevado e (B) reduzido grau de conectividade; b) relação de conectividade entre a zona interior e bordadura (adaptado de FISRWG, 1998).

A vegetação ripícola é a ligação entre diferentes habitats e promove a qualidade de outros sistemas terrestres, aquáticos ou costeiros/marinhos (Prada e Arizpe, sem data). A vegetação está especificamente adaptada às condições ambientais através de estratégias morfológicas, fisiológicas e reprodutivas. Em termos gerais, as plantas ripícolas podem ser reconhecidas por serem altamente adaptadas à tolerância de perturbações físicas (Fabião e Fabião, 2006).

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