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4. O PRINCÍPIO DA HOMOGENEIDADE

4.1 A importância dos princípios no Processo Penal

No processo penal, o norteamento dado pelos princípios é fundamental para a preservação do Estado democrático de Direito. Essas orientações não apenas refletem os interesses de uma sociedade igualitária e justa, mas também põem limite ao ius puniendi estatal, evitando que a tendência do retribucionismo a qualquer atropele as garantias processuais.

A atuação punitiva do Estado deve ser utilizada em última instância, por ser drástica e intensa, especialmente ao acusado, mas também à sociedade, que deve arcar com os custos do aparelho prisional. É por esta razão que o poder de punir não deve ser ilimitado – e os princípios, muitos deles constitucionalmente expressos, tem importância fundamental em traçar a linha desses limites. E importante falar que aqui se refere a limites em todos os momentos do ius puniendi: elaboração, aplicação e execução da norma (Gomes, 2007).

Para além da sua importância, essencial entender o significado etimológico da palavra “princípio”. Coutinho (1998) define como sendo o “motivo conceitual sobre o(s) qual(ais) funda-se a teoria geral do processo penal, podendo estar positivado (na lei) ou não.” (p. 165).

Nesse sentido, os princípios que conduzem o direito processual penal são o ponto de partida da sua construção jurídica, sempre em conciliação com os princípios gerais, que valem para todas as linhas do direito, sendo a resposta para muitas questões conflituosas entre normas que surgem no iter do processo criminal (Rangel, 2015).

As normas, isto é, as regras, cuidam de uma situação concreta, a partir de uma conduta específica. Já os princípios, por sua vez, não regulam uma circunstância fática específica e as suas consequências, mas, sim, expressam os critérios de decisão, as diretrizes de um ordenamento jurídico, tendo um objeto de amplitude muito maior que o das regras (Gomes, 2007).

Quando duas regras colidem, fala-se em “conflito de regras”; ao caso concreto uma só será aplicável (uma afasta a aplicação da outra). (...) princípios, por seu turno, são as diretrizes gerais de um ordenamento jurídico (ou de parte dele). Seu espectro de incidência é muito mais amplo que o das regras. Entre eles pode haver “colisão”, não conflito. Quando colidem, não se excluem. (GOMES, 2007, n.p.)

Os princípios, por tanto, dão fundamento e validade às normas jurídicas, bem como auxiliam na sua interpretação e ainda tem função supletiva, ou seja, de preencher eventuais

lacunas do sistema judicial vigente. Os constitucionais gozam de supremacia, o que não impede, no entanto, que existam princípios infraconstitucionais e ainda os decorrentes de regras internacionais (Gomes, 2007).

O processo penal garantista é ancorado, essencialmente, por dez axiomas, que buscam desenvolver as condições para que esteja em vigência um sistema penal coerente, tanto com os princípios normativos internos, como no que tange à validação externa de um Estado. Em síntese, são eles: princípio da retributividade (se há delito, a pena é a consequência); princípio da legalidade (em sentido lato ou estrito); princípio da necessidade (economia do direito penal); princípio da lesividade (ofensividade do evento); princípio da materialidade (exterioridade da ação); princípio da culpabilidade (responsabilidade pessoal); princípio da jurisdicionariedade (em sentido estrito ou lato); princípio acusatório (separação entre juiz e acusação, garantindo a imparcialidade); princípio do ônus da prova e, por fim, princípio do contraditório (da defesa) (Ferrajoli, 2006).

Em resumo, nas palavras de Lopes Jr. (2010), no modelo garantista, não se admite que seja imposta uma pena ao indivíduo: sem que seja cometido um delito devidamente tipificado por lei; sem que exista a absoluta necessidade de sua proibição e consequente punição; sem que a conduta seja efetivamente lesiva a terceiros; sem que a conduta seja exteriorizada; sem que seja apontado um autor culpável, verificado através de uma prova empírica; sem que haja imparcialidade do julgador através de um processo público, com contraditório, amplitude de defesa e um procedimento estabelecido previamente em lei.

Com isso, se retoma a ideia inicial de limitação do poder punitivo do Estado e aproximação do garantismo com o modelo de direito penal mínimo. Este último limita o poder punitivo estatal ao máximo, tutelando a liberdade dos indivíduos acima de qualquer arbítrio através a ideia de que, para que seja aplicada uma pena através da intervenção estatal, é necessário um processo extremamente racional e, principalmente, um juízo de certeza. O objetivo, aqui, é resguardar o indivíduo dos abusos do poder punitivo estatal (LOPES JR., 2010).

Ao mesmo passo, de acordo com Ferrajoli (2006), os axiomas garantistas, foram elaborados sob uma visão jusnaturalista, e concebidos como uma limitação ao poder punitivo absoluto. Tanto é assim que o autor cita o princípio da legalidade estrita como aquele que mais caracteriza o sistema cognitivo garantista, não se limitando a exigir que a pena e o crime

estejam previstos em lei, mas também que haja o cumprimento de todas as garantias para que haja legalidade penal.

Uma vez que seus princípios não se limitam a estabelecer as condições de uso da noção semântica de verdade processuais, mas valem também para garantir a imunidade dos cidadãos acerca das intervenções punitivas infundadas ou arbitrárias, este modelo de responsabilidade penal não é apenas um modelo epistemológico de racionalidade do juízo, senão ainda um modelo regulador de justiça formal. (FERRAJOLI, 2006, p. 94/95)

Em um contexto mais atualizado do tema, a efetivação desses princípios gerais garantistas no processo penal tem uma importância singular nos países da América Latina. Isto por que, durante as décadas de 1960 e 1970, diversos países, inclusive o Brasil, passaram a ser liderados pelos regimes autoritários comandados pelas forças armadas, período que se caracterizou pela intensa violência e desrespeito às garantias processuais penais em nome de uma suposta “segurança e desenvolvimento nacional”. As pessoas tinham sua liberdade tolhida a troco de coisa alguma, pelos fundamentos mais esdrúxulos possíveis. Durante longos anos, por tanto, o indivíduo era completamente indefeso frente ao poder punitivo estatal (Dotti, 1993).

Conclui-se, por tanto, que os princípios de um processo penal garantista não só são reflexo daquilo que a sociedade mais preza e considera essencial para convivência harmônica de seus cidadãos. São também nortes, orientações que visam proteger o indivíduo de um Estado com todos os recursos e força suficiente para impor uma punição privativa de liberdade. Afinal de contas, o agente transgressor se encontra sozinho quando do cometimento do delito. Como já vimos, existe ao seu redor toda uma sociedade que o julga previamente, amparada por um aparelho midiático que o expõe, quando este é posto frente um judiciário estruturado para lhe diminuir.

O mais grave é que a pena pública e infamante do Direito Penal pré-moderno foi ressuscitada e adaptada à modernidade, mediante a exibição pública do mero suspeito nas primeiras páginas dos jornais ou nos telejornais. Essa execração ocorre não como conseqüência da condenação, mas da simples acusação (inclusive quando esta ainda não foi formalizada pela denúncia), quando todavia o indivíduo ainda deveria estar sob o manto protetor da presunção de inocência. (LOPES JR., 2010, p. 10)

Perante essa realidade, de nada adianta ter um sistema penal garantista em sua forma, mas autoritário em sua efetivação. Não bastam as boas intenções e previsões legais para que os direitos fundamentais sejam respeitados e não sofram arbitrariedades do poder estatal (Lopes Jr., 2010). É por essa razão que onde a aplicação ou interpretação da lei for falha, seja pelo seja pelo magistrado do caso concreto, seja por um tribunal de juízes, os princípios de um processo garantista deverão sempre orientar o iter processual para o caminho de proteção

ao indivíduo e de preservação do direito de liberdade, que se não é efetivamente, deveria ser a regra – ainda mais quando se fala de medidas cautelares, de encarceramento sem julgamento prévio.