Conforme os feitos de Ricardo III se tornam fatos que falam mais alto do que sua
retórica, podemos notar uma alteração em seu método de manipulação da verdade. Ele precisa
recorrer primeiro ao papel do escrivão, o qual recebe uma cena inteiramente para si – a sexta
do terceiro ato –, quando toma o protagonismo e, como um guia moral, lamenta por ter de
lavrar o indiciamento inverídico de Lorde Hastings, uma das vítimas de Ricardo. Para o
escrivão, mau é o mundo em que determinados atos são acobertados e vistos apenas pelo
pensamento; teríamos, assim, a máxima de que o pensamento não deve guardar sozinho a
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verdade não falada: “Bad is the world, and all will come to naught When such ill dealing must
be seen in thought” (SHAKESPEARE, 2000, p.91).
Destacamos duas traduções para essa passagem, com diferentes ênfases na transposição
das unidades de significação de bad, come to naught e ill; a primeira, de Beatriz
Viegas-Faria: “Porcaria de mundo, e tudo vai dar em nada, já que uma falcatrua dessas somos
forçados a reconhecer apenas em pensamento” (SHAKESPEARE, 2007, p.118, grifo nosso);
e a segunda, de Paulo Neves: “Mau é o mundo e tudo vai muito mal, quando tão más ações
devem ser vistas pelo pensamento” (KOTT, 2003, p.46, grifo nosso). Vale notar que, apesar
da perda da assonância do original, e apesar da variação de intensidade da repulsa expressada
entre a primeira e a segunda tradução, em ambas é possível recompor no português um senso
de revolta e um pensamento crítico que é singular em toda a peça. Coube à figura do escrivão
– sujeito à margem de todos os principais acontecimentos – a análise mais direta e objetiva da
causa dos males entre os indivíduos: aquilo que é falado, assim como o que é lavrado e sulca
as páginas com a tinta, não deve servir de sombra ao pensamento. A não-correspondência da
verdade à fala leva à nulidade, naught, o nada da insignificância e da sequela da ruína, cujo
sentido é intensificado com a assonância em thought, o lugar de clausura a ser evitado.
Duas perguntas são levantadas pelo escrivão. A primeira delas menciona a palavra
device, cuja tradução livre pode nos dar a ideia de “artifício” e “dispositivo”, ou mesmo
“mecanismo”, que, de certa maneira, se coincide à leitura de Kott (2003) sobre o retrato
shakespeariano de um Grand Mechanism longe das vistas e do controle dos seres, mecanismo
a partir do qual os indivíduos se servem e são servidos aos outros. Aprofundaremos a leitura
do Grande Mecanismo no último tópico deste capítulo, mas cabe aqui notar o papel do
escrivão como aquele que entrevê a História e acusa problemas em suas engrenagens: “Here’s
a good world the while! Who is so gross That cannot see this palpable device? Yet who so
bold but says he sees it not?” (SHAKESPEARE, 2000, p.91, grifo nosso).
Em bold reconhecemos a significação da coragem necessária para se dizer a verdade. E
aqui mais uma vez destacamos as duas traduções de Viegas-Faria e Neves, respectivamente:
“Belo mundo, este em que vivemos! Quem pode ser tão obtuso a ponto de não ver artimanha
assim palpável? Mas, por outro lado, quem seria peitudo a ponto de dizer que está vendo?”
(SHAKESPEARE, 2007, p.118, grifo nosso); “Em que belo mundo vivemos! Quem será tão
estúpido que não veja este palpável artifício? Mas quem também seria bastante ousado para
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portanto, assombrado por uma deficiência do ato de fala: quem poderia ser corajoso o
suficiente para dizer o que vê? E como dizê-lo? Como saber dizê-lo?
Ricardo recorre também ao Duque de Buckingham, para que este convença o prefeito de
Londres e o povo de que as traições que ele, Ricardo, sofrera, somadas à suposta ilegitimidade
dos príncipes ao trono, garantem-lhe o direito da coroação. A cena que antecede a tomada do
trono é a do diálogo com o prefeito, quando Ricardo não encontra resistência alguma do
prefeito que, pelo contrário, insiste que aceite o trono. Na figura do prefeito, entrevemos,
assim como o faz o escrivão em relação ao mundo, a natureza omissa e conivente daqueles
que, dotados de poder, necessitam apenas de sua manutenção. A ideia de uma contemplação
da verdade e da fala como ferramenta de construção pessoal é algo impensável, ingênuo e
contraproducente ao funcionamento irrefreável do mecanismo.
Diante do prefeito, Ricardo experimenta outro recurso retórico ao expor verdades
íntimas sobre seu caráter. Essas verdades, no entanto, comunicam às avessas uma espécie de
humildade e honrosa autocrítica; por essa razão, seu conteúdo verdadeiro é ignorado e o efeito
da exposição é apenas aquele da persuasão já tão conhecida do leitor. Ao prefeito e aos
“demais homens de sabedoria lapidar”, Ricardo diz que sua “pobreza de espírito é tanta, tão
fortes e tantos são os meus defeitos que prefiro esconder-me de minha grandeza”
(SHAKESPEARE, 2007, p.124):
RICHARD
Yet so much is my poverty of spirit,
So mighty and so many my defects,
That I would rather hide me from my greatness…
(ACT III.7, 2000, p.98)
A obviedade em sua fala, ignorada pelo prefeito, é de que aquilo que finge não desejar
é, na verdade, o que intimamente almeja mais do que tudo. Dentre suas persuasões, esta é a
que lhe requer menos esforço. Ainda que, como nas demais manipulações, aqui entregue aos
outros novamente a impressão de que eles é que decidem por dar-lhe o poder, esta persuasão
diferencia-se por não encontrar no prefeito resistência alguma. O mecanismo político
simbolizado pela prefeitura é algo em essência não-ideológico, um sistema de artimanhas
disponível para servir a qualquer força que lhe transfira poder e permanência. Em eco a este
expediente amoral, Ricardo tenta se despir de qualquer impressão de suas intenções pessoais e
termina por dizer que teria sido “forçado a esta decisão”, pois “Deus é testemunha, e os
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senhores podem em parte ver: o quão distante estou de querer tal coisa” (SHAKESPEARE,
2007, p.127). Assim segue a passagem:
RICHARD
Cousin of Buckingham, and sage grave men,
Since you will buckle fortune on my back,
To bear her burden, whe’er I will or no,
I must have patience to endure the load.
But if black scandal or foul-faced reproach
Attend the sequel of your imposition,
Your mere enforcement shall acquittance me
From all the impure blots and stains thereof,
For God doth know, and you may partly see,
How far I am from the desire of this.
MAYOR
God bless your grace! We see it and will say it.
(ACT III.7, 2000, p.100)38
Sua ilusão pessoal é a de que, não transparecidas suas ambições, torne-se mais difícil
que toda a verdade de seus recentes atos o afaste de uma irrefutável conquista do trono. “O
simples fato de os senhores me terem forçado a esta decisão será o bastante para redimir-me
de todas as manchas e impurezas”, ele assim busca se precaver. E dá ênfase, ainda, ao desejo
de que, quando o prefeito e os demais desejarem falar sobre as circunstâncias que levaram a
coroa à sua cabeça, que seja dito por eles estritamente aquilo que ele, Ricardo, lhes
comunicou como sendo a verdade:
RICHARD
In saying so you shall but say the truth.
(ACT III.7, 2000, p.101)39
Depois de ser coroado, Ricardo cogita a necessidade de se casar com a filha de seu
irmão, Elizabeth de York, para que seu reinado não “se sustente em gelo fino”. Nisso, avalia a
incerteza do método e dita o ciclo vicioso de seus pecados: “[Aside] Murder her brothers, and
38 RICARDO – Meu primo de Buckingham, e demais homens de sabedoria lapidar: uma vez que os senhores
desejam atrelar às minhas costas a sorte, para que eu lhe carregue o fardo (querendo ou não), devo ter paciência
para suportar a carga. Mas, se a escuridão de uma desgraça ou a imundície de uma vergonha acompanharem as
consequências de sua imposição, o simples fato de os senhores me terem forçado a esta decisão será o bastante
para redimir-me de todas as manchas e impurezas, pois Deus é testemunha, e os senhores podem em parte ver: o
quão distante estou de querer tal coisa.
PREFEITO – Que Deus abençoe Sua Graça. Sim, nós podemos ver, e disso falaremos a todos. (ATO III.7, 2007,
p.127)
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then marry her – uncertain way of gain! But I am in So far in blood that sin will pluck on sin.
Tear-falling pity dwells not in this eye.” (ACT IV.2, 2000, p.108-109)40
Conforme a verdade de seus atos se tornam de conhecimento dos outros e sua fala não
vale mais como ocultação da realidade, Ricardo se vê obrigado a incorporar à sua retórica a
verdade de seus atos, e servi-la aos seus interlocutores entre outras meias-verdades e mentiras.
Diante da Rainha Elizabeth, obstinado em convencê-la de que é uma decisão boa e sensata
que sua filha se case com ele, Ricardo tem de admitir o assassinato de seus dois sobrinhos,
filhos de Elizabeth e de seu irmão Eduardo IV, também morto em função de suas ordens. As
sucessivas execuções e o sangue não podem ser mais ignorados e a retórica de Ricardo, se
comparada ao desafio prévio de se convencer Lady Anne, corre um risco maior de insucesso;
ele busca validar a dor de Elizabeth, mas a todo instante tem de atrelar suas promessas senão à
aparência de remorso, então ao reconhecimento de uma espécie de dívida sua para com a
rainha. No entanto, sua apatia e declínio moral não o permitem evitar confundir o significado
da dor da perda de um filho; ele busca relacionar a morte dos filhos à perda do trono, que é
tudo que ele conhece como passível de obtenção ou perda; ele diz a Elizabeth: “The loss you
have is but a son being a king, And by that loss your daughter is made queen” (ACT IV.4,
2000, p.127)41. Desta fala, segue o contexto da retórica:
KING RICHARD
Look what is done cannot be now amended.
Men shall deal unadvisedly sometimes,
Which after-hours gives leisure to repent.
If I did take the kingdom from your sons,
To make amends I’ll give it to your daughter.
If I have killed the issue of your womb,
To quicken your increase I will beget
Mine issue of your blood upon your daughter.
A grandam’s name is little less in love
Than is the doting title of a mother.
[…] Your children were vexation to your youth,
But mine shall be a comfort to your age.
The loss you have is but a son being a king,
And by that loss your daughter is made queen.
(ACT IV.4, 2000, p.126-127)42
40 [À parte] Mato-lhe os irmãos e então me caso com ela. “Modo incerto de obter um ganho! Mas agora já fui tão
fundo em sangue que um pecado suscita outro. Não há compaixão lacrimosa que habite os meus olhos.” (ATO
IV.2, 2007, p.136)
41 A perda que você lamenta é a de um filho que seria Rei; por essa perda, sua filha será Rainha. (ATO IV.4,
2007, p.154-155)
42 REI RICARDO – O que está feito não pode agora ser remediado. Os homens às vezes agem impensadamente,
coisa que, mais tarde, traz oportunidade de arrependimento. Se tomei o reino de seus filhos, para remediar, quero
dá-lo à sua filha. Se matei os frutos de seu ventre, para aumentar sua prole encarrego-me de gerar uma prole do
seu sangue, com sua filha. “Avó é nome também carregado de amor e não fica muito atrás do adorado título de
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Parte de sua tentativa de persuasão é forjar uma promessa, um juramento à Elizabeth.
Diz-lhe que se não for de sua intenção prosperar e se arrepender de seus atos passados, que
ele próprio destrua a si mesmo:
KING RICHARD
As I intend to prosper and repent,
So thrive I in my dangerous affairs
Of hostile arms. Myself myself confound,
Heaven and fortune bar me happy hours.
(ACT IV.4, 2000, p.130)43
Elizabeth, no entanto, ao contrário de Lady Anne, não apresenta as mesmas aberturas.
Sua dor de esposa soma-se à dor de mãe, são três os corpos que ela tem de enterrar, e não há
palavras que possam incutir-lhe outras verdades que não estejam de acordo com a sua própria
verdade e alterar nela o que já tão decididamente sente por Ricardo. Ela responde com
palavras que, aqui familiares, ecoam o que vimos Sócrates dizer frente ao júri – “por pouco
não me esqueci de mim, tão convincentemente falavam!” (PLATÃO, 2016, p.65). Elizabeth
teria de se esquecer de si mesma para que outras verdades a coagissem:
QUEEN ELIZABETH
Shall I be tempted of the devil thus?
KING RICHARD
Ay, if the devil tempt you to do good.
QUEEN ELIZABETH
Shall I forget myself to be myself?
KING RICHARD
Ay, if yourself’s remembrance wrong yourself.
QUEEN ELIZABETH
Yet thou didst kill my children.
“mãe”. […] Os seus filhos foram tormento em sua juventude, mas os meus serão conforto em sua velhice. A
perda que você lamenta é a de um filho que seria Rei; por essa perda, sua filha será Rainha. (ATO IV.4, 2007,
p.154-155)
43 REI RICARDO – Se não for minha intenção prosperar e arrepender-me, que eu saia derrotado nestas minhas
arriscadas campanhas contra o exército inimigo! Que eu próprio me destrua a mim mesmo! Que Deus e o destino
me proíbam horas felizes! (ATO IV.4, 2007, p.159)
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KING RICHARD
But in your daughter’s womb I bury them,
Where, in that nest of spicery, they will breed
Selves of themselves, to your recomforture.
(ACT IV.4, 2000, p.131)44
“Devo me esquecer de ser eu mesma?”, ao que Ricardo responde com as palavras que nos
servem para compreender a fundo a natureza dele próprio: o caso de a lembrança de si mesmo
fazer mal a si próprio. Esse é o ponto chave de sua incapacidade maior: saber agir, mas não
saber esquecer. Ele não é o perfeito amoral idealizado por Maquiavel. Uma ideia de
imoralidade marca a consciência que ele tanto insiste em desprezar. A impetuosidade de seus
atos lhe confere sucessos, mas a natureza trágica de sua mente está no fato de que não lhe é
possível desfazer-se inteiramente da consciência – muito menos das consequências que a
mente e o mundo apresentam juntos. E é ela, a consciência, a personagem que ocupa o centro
do palco no quinto ato, quando revela medos e culpas que o próprio Ricardo desconhece. À
sombra de si mesmo é guardado todo o não-visto, o qual é, ao mesmo tempo, um conjunto
não-esquecido – daí uma ideia de não-esquecimento que, como vimos no capítulo 2, nos leva
direto à raiz de significação da palavra alétheia. Aquilo que não pode ser esquecido é a única
verdade que Ricardo tem para servir de si para si mesmo. E é ela quem ele se vê obrigado a
enfrentar, sozinho, na noite anterior à derrota.
No documento
São Paulo
(páginas 74-80)