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SOBRE A SÉRIE

No documento São Paulo (páginas 51-55)

O corpus de análise referente à série de TV House of Cards, em sua versão americana,

produzida para a Netflix por Beau Willimon, será apenas o de sua materialidade textual, as

falas e os movimentos dramáticos; nisso se incluem as equivalências a uma pantomima

inferida pelo texto, àquilo que, mesmo potencializado na encenação, pode ser analisado como

parte integrante da condução das falas; exemplo mais imediato é o valor performático da

quebra da quarta parede, que serve ao texto como função significante, alterando o peso e a

direção da fala.

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Para efeito de compreensão do método pelo qual a trama e o protagonista Frank

Underwood poderão ser analisados, com recortes de suas falas, é importante destacar primeiro

que a série apresenta um formato distinto do que é comum às séries de TV tradicionais.

Os episódios são escritos antes que qualquer um vá ao ar, e partem do princípio de que

poderão ser vistos, se for do interesse do espectador, sem intervalos. Pois, contrariando o

formato de folhetim das séries semanais, a Netflix disponibiliza toda uma temporada de uma

só vez, isto é, 13 episódios são publicados ao mesmo tempo. O ponto alto desse movimento é

que a narrativa, antes das filmagens, é pensada por inteiro, com atenção a uma ordem interna,

à unidade de sentido que melhor comunique a narrativa. Tem-se, então, uma série que não é

produzida exatamente para a TV, com o serviço de transmissão convencional em mente, mas

para os televisores conectados à internet e ao serviço da Netflix. Nesse caso, não há um

alcance casual de espectadores diferentes a cada semana, não há uma incerteza de audiência

que obriga os roteiristas a produzirem ecos que recapitulem a trama e retomem explicitamente

o processo de construção de personagens. Tampouco se faz necessária a rítmica e forçosa

estrutura que programa a evolução de um episódio por meio dos chamados beats, ou cortes,

que antecedem comerciais e visam uma conclusão cujo apelo a cliffhangers (atrativos ao fim

do episódio) determina o valor de permanência da série no ar. Em obras abertas como essas

convencionais, a garantia de retorno noutra semana, ou no dia seguinte, está diretamente

ligada à divisão ininterrupta de problemas sucessíveis, sempre suspendidos em algum ponto

anterior a uma falsa resolução. Essa estrutura, evidentemente, não se aplica às “séries

episódicas” que por natureza buscam rompê-la, como é o caso das que tratam de tramas

circunstanciais, como Law and Order, cujos problemas encontram fim a cada episódio, e cuja

temática não depende de uma forte ligação entre capítulos. Em suma, o que a Netflix

propiciou aos roteiristas de House of Cards é que cada temporada, tal qual um romance ou

uma minissérie, fosse pensada como uma unidade em que os motivos, os conflitos e as

resoluções fluem harmoniosamente.

Dito isso, vale destacar que aqui não serão trabalhados episódios ou as temporadas em

sua totalidade. Será possível fazer uma síntese da trama geral, especificamente do arco de

ascensão e queda das cinco temporadas em que o protagonista Frank Underwood tem

participação, destacando apenas os pontos centrais do movimento dramático, os entrechoques

que avançam as realizações e os problemas, colocando à prova a natureza da personagem. O

casal Underwood, em crescente atrito por suas ambições conflitantes, deflagram um problema

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3 INTERLÚDIO

Seja no teatro, no romance ou na tela do cinema e da TV, o problema ético das ações de

um anti-herói, um antagonista ou um “vilão”, do mais caricato ao mais complexo, só pode ser

construído de acordo com razões e justificativas que o aproximem do código moral normativo

com que nos acostumamos a aplicar aos heróis – e, idealmente, à retidão de nossas próprias

ações. No caso do protagonismo de um anti-herói, tal código pode servir como um obstáculo

à personagem, algo capaz de desafiá-la, colocá-la em provação e num caminho de

justificação, que pode servir ao entendimento da posição em que se encontra. Em outras

palavras, não é preciso ser capaz das traições do Duque Ricardo para se acostumar a ele, e é

natural tentarmos compreendê-lo se desejamos passar da primeira cena sem abandonar a peça.

Dependendo de certas decisões de encenação, é possível despertar até mesmo o riso com as

peripécias e hábeis dissimulações, como a da célebre – porque inconcebível – conquista de

Lady Anne. Was ever woman in this humor wooed? Was ever woman in this humor won?14

Essas palavras ecoam também o lugar do espectador, que é seduzido a continuar assistindo, a

continuar olhando nos olhos de Ricardo a cada confissão e maldade, conquistado que está em

saber até onde aquele homem pode vencer na adversidade, até onde ele é capaz de contornar o

incontornável e prevalecer quando tudo se mostra seguir na direção de sua derrota. E se não

for possível vencer, como se encarar a derrota e a verdade dos erros? A dissimulação pode

sempre bastar?

Ricardo se satisfaz com o malabarismo com as palavras, na ocultação da verdade e na

vitória sobre os indivíduos que a ele dão ouvidos. Vitória essa que toma a forma de se

conquistar a moral alheia; vence-se pela dissimulação da maneira mais vil quando o outro é

derrotado pelo que lhe é mais íntimo: por seus valores éticos, e por seu corpo; e nisso se vê

caber aqui as palavras de Jan Kott, ao falar das confissões de Ricardo à Lady Anne e sua

subsequente entrega:

Enquanto mentia, enquanto enganava e negava o crime, ele reconhecia a

existência da ordem ética. Agora, reduziu-a a pó. […] A partir desse

momento, Lady Anne está perdida. Ricardo retirou-lhe o chão de debaixo

dos pés. […] quando tudo está perdido só resta a lembrança, que é preciso

igualmente matar dentro de si. É preciso matar-se ou matar dentro de si o

último vestígio de pudor. (KOTT, 2003,p.57-59, grifo nosso)

14 Será que alguma vez mulher nesse estado de espírito foi cortejada? Será que alguma vez mulher nesse estado

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Quanto às lembranças a serem eliminadas dentro do indivíduo, Macbeth é exemplo a

que podemos recorrer, exemplo de ressonância com o público apesar de sua imoralidade. Mas

seus atos sanguinários estão na superfície de um indivíduo que, para nós, secretamente,

revela-se confuso e desestabilizado, mais complexo do que Ricardo, justamente porque está

em conflito contínuo sobre suas ações. É esse caráter psicológico, aliado ao ritmo vertiginoso

de sua tragédia, que tanto o diferencia do Duque Ricardo. Mais especificamente, o conflito

ideológico com sua esposa, a estase diante da imaginação e a dualidade moral de cada

decisão, são três elementos que definem uma ascensão e queda que não estão presentes em

Ricardo III. Em Macbeth, o mundo é pesado demais, a profecia de uma glória acarreta apenas

fracassos e nada mais há na existência senão paralisias e arbítrios inúteis em sua falsa

liberdade. Em vez da ética, é a própria verdade do mundo reduzida a pó, e nenhuma

hierarquia pode resistir à destruição do destino:

Em Shakespeare, todos os valores humanos são friáveis e o mundo é mais

forte que o homem. O implacável rolo compressor da história esmaga tudo e

todos. O homem é definido pela situação na qual se encontra, pelo degrau

que alcança na escadaria. E esse degrau determina toda a sua liberdade de

escolha. (KOTT, 2003, p.60)

A razão da queda do general é interior e se dá muito antes do ato final, enquanto a do

Duque é exterior, suas crueldades se acumulam e a justiça de terceiros o derruba apenas ao

fim. Mesmo assim, porém, também em Ricardo podemos traçar alguma ideia de causalidade

que humanize sua natureza animalesca, que a torna, se não compreensível, ao menos

reconhecível. Há um ponto de maior evidência, pouco antes de sua derrocada, no último

instante em que poderia haver algum conflito que o destronasse; é quando torna-se visível um

conflito interno: é no despertar de um pesadelo, quando visitado pelos fantasmas de suas

vítimas, e no retorno amargo à realidade de sua solidão. Daí a possibilidade de se rever as

contradições ocultas da retórica de Ricardo. Anterior à batalha final, seu percurso é de

ocasionais conflitos, visíveis, a princípio, como estéticos, mas que guardam um valor

existencial profundo: sua capacidade de persuasão aparentemente infindável e sua impiedade

dizem respeito a um ego elevadíssimo, orgulhoso em se exaltar, mas que se esconde em

secreta oposição de si mesmo, em negação à sua condição física grotesca e, por consequência,

à sua ideia de valor humano. Ricardo sabe levar Lady Anne a matar-se por dentro porque já o

fez consigo mesmo.

No lugar de Macbeth, em que o tormento da culpa é capaz de devastá-lo muito antes do

duelo final com Macduff, não é possível imaginar outro que não ele próprio; Ricardo III, ou

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Iago, ou Goneril não sofreriam do “leite da bondade humana”, como diz Lady Macbeth ao

criticá-lo. Macbeth é mais frágil e cônscio, o que garante às suas decisões e dores maior

destaque entre as tragédias de Shakespeare. Ricardo III, porém, por não conhecer a si mesmo,

evidencia o dano silencioso da sombra.

No documento São Paulo (páginas 51-55)