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A imprensa como organizadora do cotidiano

No documento moniqueferreiracampos (páginas 49-54)

3. O JORNALISMO ENQUANTO SISTEMA DE IDEIAS E

3.1. A imprensa como organizadora do cotidiano

Expectativas e papéis sociais foram atribuídos à imprensa no contexto da massificação e produção de conhecimento sobre a realidade. Podemos considerar como principais o testemunho e a tradução de acontecimentos, além da fiscalização dos poderes instituídos, fatores que se tornaram preocupações centrais do jornalismo. Para trabalhar com as práticas de observação, registro, avaliação, contextualização e descrição de fatos, foi necessário atribuir sentidos para o “interesse público” e internalizar os “valores-notícia” que norteiam as narrativas do cotidiano (muitas vezes baseadas em dicotomias como certo-errado, bom-ruim, justo-injusto, etc.). Estes aspectos foram assumidos pela imprensa como fundamentais e se tornaram base da profissionalização do jornalista.

O trabalho jornalístico, ao apresentar o novo e o atual, rege-se por padrões estáveis e previsíveis de determinação dos acontecimentos passíveis de serem noticiados (critérios de noticiabilidade ou valores-notícia). Sob esse ponto de vista, qualifica acontecimentos e seleciona aspectos para imprimirem corpo à notícia. Tais critérios jornalísticos demonstram o reconhecimento, por parte dos jornalistas, do que cabe receber a visibilidade midiática, ao mesmo tempo em que expõem valores hegemônicos. Os valores-notícia promovem uma diferenciação entre comportamentos aceitos e desviantes, entre outras distinções, e acabam por conferir aos jornalistas o papel de juízes de valores (MENDES, 2009, p. 55).

Foi no desenvolvimento de uma linguagem própria, de uma ética e uma cultura profissional, que o jornalismo se legitimou, enquanto um promotor de acesso ao conhecimento. Este acesso está norteado pela novidade e o tempo presente, por isso a imprensa marcou de forma tão incisiva os ideais de informação cotidiana e compreensão da realidade. Conforme Robert Park (2008), a novidade e o tempo presente foram determinantes da lógica do jornalismo, ligando intimamente a atividade às necessidades do mundo moderno, do conhecimento como hábito. Não

se trata nesse caso do conhecimento científico, mas aquele do senso comum, dos problemas e soluções do dia-a-dia. O “aqui e agora” valorizado pelos jornais produz a qualidade transitória e efêmera da notícia, duas características essenciais do jornalismo.

Outro fundamento importante descrito por Park (2008) é o interesse pelo inesperado ou incomum. Porque o acesso ao conhecimento através da notícia se dá pela geração de interesse, pelo que, depois de passado o acontecimento, permanece na opinião pública e ganha valorização coletiva. “Não é a importância intrínseca de um evento que faz a notícia. E sim o fato de que o evento é tão incomum que se for publicado irá surpreender, entreter, ou emocionar o leitor de modo que será lembrado ou repetido” (PARK, 2008, p. 62).

Segundo o conceito apresentado por Genro Filho, o conhecimento contido na notícia é acessado, a partir de uma singularidade (características específicas de um fato) e caminha em direção a uma particularidade (características que identificam o fato com um grupo determinado). “É daí que decorre a grandeza e a força do jornalismo, o fato de ele reproduzir coisas distantes, pelo ângulo do fenômeno, ou seja, pelo ângulo da sua singularidade” (2007, p. 94). Conforme Genro Filho, o jornalismo é uma forma de conhecer o mundo que não tem base na universalidade. Portanto, a visão particular e universal do mundo vai estar subjacente à singularidade do fenômeno. O autor comenta ainda que não existe uma só singularidade, existem várias, a depender da universalidade contruída no corpo dessa singularidade (Idem, p. 99).

No exercício filosófico proposto pelo autor, a pirâmide jornalística (fórmula de iniciar uma notícia respondendo as perguntas elementares sobre um acontecimento para depois apresentar os aspectos ditos secundários) está efetivamente invertida se analisarmos o jornalismo, enquanto produtor de conhecimento. Se a pirâmide for pensada de pé (ângulo normal), chega-se à essência da atividade jornalística: as notícias partem dos aspectos próprios do fenômeno, e então se direcionam para sua localização num determinado terreno particular. Além do registro, do que é tanto novo quanto incomum, a contextualização é algo inerente à notícia, já que nomes, lugares e datas autenticam o trabalho do repórter e tecem as narrativas. O universal não vai estar contido na notícia; já que é formado pelos pressupostos mais gerais, estará subjacente às apreensões que são feitas.

Nesse sentido, o jornalismo deixa evidente seu atrelamento à socialização, ao colocar para os consumidores das notícias características e contornos de realidade, que vão interagir com os repertórios e culturas pessoais e coletivas. O cotidiano é subdivido e classificado em grupos (o

que pertence à política, economia, à rotina da cidade, ao esporte, lazer, o que é assunto educacional, de polícia, da elite, etc.). A narrativa própria também se dá nas condutas do jornalismo em repartir um todo em unidades temáticas, agrupando acontecimentos conforme a distribuição político-editorial do veículo de comunicação.

Na concepção da socióloga norte-americana Gaye Tuchman, o órgão de informação relata acontecimentos “significativos e importantes” por meio de uma ordem informativa, com fundamental consequência no mundo social. A imprensa lança uma rede para capturar os acontecimentos, utilizando as estratégias da territorialidade geográfica, especialização organizacional (produções do repórter especializado na cobertura de acontecimentos de uma organização) e especialização temática (seções específicas dentro dos jornais e cadernos complementares). Classificação, segmentação e organização do conhecimento estão associadas ao desenvolvimento da ciência e à dinâmica de representação do real. Mas é evidente que tais práticas foram amplamente incorporadas à imprensa (no caso brasileiro no final do século XX) (Nora, 2008).

Outra forma que demonstra o exercício da imprensa na ordenação dos acontecimentos é a construção textual, envolvendo tamanho das matérias, abordagens e entrevistas, estrutura narrativa e forma de apresentação (diagramação). Os gêneros jornalísticos, que, sutilmente ou não, vão delineando os traços da notícia, estão relacionados às formas de expressão dos textos na imprensa. Demonstram, portanto, as categorias da informação (notícia, nota, reportagem, serviço e enquete), da interpretação (fragmentos de textos e complementos que visam explicações, desdobramentos e interpretações; boxes, biografias, descrições geográficas e suportes visuais) e da opinião (crônica, entrevista, editorial, crítica, cartas dos leitores) (Marques de Melo, 2006).

Assim, evidencia-se que um acontecimento nunca pode ser acessado em sua completude de significados por uma informação veiculada na imprensa, mas como uma experiência social possibilitada pela notícia. Nesse sentido foram desenvolvidos os conceitos de enquadramento enquanto rotina da atividade da imprensa. Porque os acontecimentos são transmitidos enquanto concepções de ser, contendo significados específicos definidos, a partir de enquadramentos que demonstram atribuições, conceituações, homogeneizações e busca de consensos. “A mídia vai enquadrar os acontecimentos e assim ela expressará a valorização do fato” (ALSINA, 2009, p. 135).

O enquadramento de mídia é um conceito descrito por Erving Goffman, ao considerar que as definições de uma situação são construídas de acordo com os princípios de organização que governam os eventos e nosso envolvimento subjetivo neles (Sanglard, 2012). Segundo Goffman, enquadrar se refere a como somos capazes de identificar. Outro autor que conceituou os enquadramentos de mídia foi Todd Gitlin, que destacou os padrões através dos quais os detentores de símbolos organizam de forma rotineira o discurso, seja verbal ou visual. São os aspectos de cognição, interpretação e apresentação, além da seleção, ênfase e exclusão (Ibidem).

Já Robert Entman relacionou o conceito de enquadramento à prática do jornalismo, enquanto seleção de algumas facetas da realidade para serem transformadas em aspectos de destaque na informação jornalística. Desse modo, o enquadramento segue o que ficou estipulado como objetividade, uma construção da notícia que permite definir um quadro como dominante, sem possibilitar outras interpretações para os fatos. A necessidade de fazer escolhas temáticas, editoriais e de abordagem marca uma prática quase inevitável no jornalismo, conforme Gitlin. Para Nelson Traquina, os conceitos de enquadramento desconstroem o papel dado ao jornalismo de espelho da realidade, uma vez que os profissionais da notícia trabalham apenas alguns aspectos dos acontecimentos, silenciando outros (Idem, p. 25).

Em uma revisão bibliográfica sobre o assunto, Soares (2009) considera que o conceito de enquadramento vem sendo empregado para analisar como informações pontualmente corretas e verificáveis podem ser selecionadas, valorizadas, destacadas, omitidas ou atenuadas, relacionadas a outras, em reportagens complexas, de modo a produzirem representações diferentes de uma mesma situação dentro do limiar de verossimilhança.

Os enquadramentos atendem às padronizações clássicas legitimadas no campo do jornalismo, que embasaram todo um discurso sobre a objetividade. Representam ainda formatos para a organização noticiosa a partir de informações julgadas como “de maior importância” ou ainda “as respostas essenciais”. Entre os aspectos teóricos do enquadramento, Soares explicita a questão da distribuição de conteúdos e interações entre as representações ali presentes:

Segundo Entman (1991), ao fornecerem, repetirem, e, portanto, reforçarem palavras e imagens que referenciam algumas ideias mas não outras, os enquadramentos tornam algumas ideias mais salientes no texto, outras menos e outras inteiramente invisíveis. As orientações do enquadramento são difíceis de detectar, porque muitos artifícios podem parecer “naturais”, simples escolhas de palavras e imagens. A comparação com outros textos, no entanto, mostra que essas escolhas não são inevitáveis ou não-problemáticas, sendo, pelo contrário, modos de definir e interpretar os eventos. Para o autor, por meio da repetição, focalização e associações reforçadoras, palavras e imagens, o

enquadramento torna uma interpretação básica mais rapidamente discernível e memorável do que outras. Os fatores essenciais do enquadramento são a seleção dos aspectos de uma realidade percebida e a saliência dada a eles, promovendo, assim, uma definição da situação, uma interpretação causal, uma avaliação moral (SOARES, 2009, p. 22).

Considerando estas observações, verificamos que representações identitárias são feitas cotidianamente pelas ações empreendidas por repórteres e empresas jornalísticas, a partir de todo um sistema de produção de notícias, que envolvem processos de objetivação e repetições. A ideia de representações possibilitadas pelo jornalismo foi analisada no contexto da cultura de massa, mas se desenvolveu ainda mais com base no cenário da midiatização. Isso porque os estudos sobre esse tema conceituam as possibilidades ampliadas de experiências dos fatos por meios virtuais, logo, tentativas de reprodução do real. Uma onipresença dos meios de comunicação na contemporaneidade evidencia as representações dos elementos do dia-a-dia.

A representação envolve não só a notícia de um fato como também a sua avaliação e classificação, principalmente a eleição de traços individuais para colocar acontecimentos e personagens em conformidade com os discursos sobre a realidade. Nesse sentido, a representação identitária se dá não só à própria imagem como também para outro significante: liga-se à imagem do outro, que lhe dá garantia e promove identificação. Esta é a questão central na escolha da figuração, de um ideal de existência que funciona como modelo nesse processo.

Nesse momento, definimos uma representação social como espaços criados nas estratificações, espaços onde coisas e pessoas se encaixam de modo a se formarem de acordo com uma figuração que os representará. Este é o caso dos papéis sociais assumidos e das expectativas em torno deles: a mãe, o pai, o estudante, o professor, o torcedor de tal ou tal time, o filiado a tal ou tal partido... De cada um deles esperam-se atitudes prefiguradas, a cada um valoriza-se em conformidade com estas figurações, para cada um se tece um padrão de vida (GOMES, 2008, p. 96).

Nesse ponto de vista, as representações instauram e naturalizam certos vieses, sugerindo modos de ser na sociedade e podendo até servir para fixar estereótipos étnicos, sociais, de gênero e profissionais. Mas no caso do jornalismo, em especial, a aceitação da ideia de que a notícia contenha representações construídas e tendenciais é mais de difícil do que um programa de entretenimento ou, por exemplo, uma peça publicitária (SOARES, 2009, p. 20). Isso porque se supõe um compromisso ético e profissional, legitimado em torno do valor da objetividade, em estabelecer uma relação referencial com a realidade.

Dessa maneira, abre-se o debate a respeito de questões relativas às representações possibilitadas pela atividade jornalística com base, principalmente, no argumento do enquadramento jornalístico. A crença na objetividade, presente na tradição da imprensa, confronta-se como o argumento de que a notícia é uma narrativa construída sobre um aspecto do mundo selecionado e classificado.

Logo, analisaremos o debate entre as concepções da notícia objetiva e da notícia construída, esta última na defesa de três questões centrais a respeito dos posicionamentos sociais difundidos pelo jornalismo. A primeira, de que a imprensa tem orientação ideológica e este é um instrumento de seu poder de disseminação de ideias. A segunda, de que a imprensa é uma organização mercadológica e precisa atender a alguns preceitos econômicos para a sobrevivência. E, em terceiro lugar, de que a imprensa se comporta como um partido político.

3.2 A objetividade e a construção: paradoxos da produção da notícia no contexto das

No documento moniqueferreiracampos (páginas 49-54)