6. GRUPO FOCAL E A IDENTIFICAÇÃO DE TENDÊNCIAS:
6.2. Análise dos resultados do grupo focal com professores
6.2.1 O papel social da imprensa e o poder nas representações
Começamos o debate com o tema “importância da comunicação para a sociedade”. As falas nos permitem compreender algumas percepções sobre papéis da mídia e da imprensa, especificamente. Observamos que os professores, talvez, por já saberem que se tratava de uma pesquisa do jornalismo, situaram logo de início o debate sobre comunicação no campo da imprensa. Dois deveres do jornalismo foram bastante discutidos nessa primeira parte de grupo focal: publicar a verdade e contribuir com a melhoria da sociedade.
Importante mencionar que ao fazerem indicações sobre como a imprensa deveria ser e se comportar, os professores fazem menção a muitos valores tradicionais do jornalismo, apontados por eles como “qualidades” da imprensa. Verificamos ao longo das falas debates sobre publicar a “realidade”, a “verdade”, o “ouvir todos os lados”, e ser “o quarto poder” (fiscalizador). Ao mesmo tempo, a partir de um debate provocado pelo professor D, cobraram o cumprimento de um papel social.
D: Acho que a importância da comunicação na sociedade é esclarecer o que está acontecendo, trazer a informação verdadeira sobre os fatos, com o objetivo de tentar melhorar a sociedade, né? Porque só trazer informação e permanecer tudo do mesmo jeito não tem sentido.
(...)
D: Se a imprensa desse a oportunidade, igual o “E” falou, dos dois lados colocarem sua opinião, ela chamava mais atenção até para a pessoa animar a comprar o jornal ou ver aquela notícia.
E: O que é o papel comunicativo. De debater, não é só informar.
D: Não é só copiar a notícia. Parece que a imprensa de Juiz de Fora, ela copia uma notícia. Só. Mas e o papel social?
Todos mencionaram que a mídia não demonstra a tão falada “objetividade”, inclusive comentaram, criticamente, sobre o vínculo da imprensa a interesses políticos e grupos de elite. A
partir de um comentário do professor E, o grupo debateu o fato da imprensa esconder essa característica nas políticas editoriais divulgadas aos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. O assunto da ideologia promovida pela grande imprensa foi recorrente nas falas. Outra crítica dos participantes é o fato da mídia não representar a realidade e colocar a população contra alguns segmentos da sociedade, como é o caso dos professores. E quando se colocam enquanto personagens dessa realidade criada pela mídia percebem que as notícias muitas vezes não condizem ao cotidiano vivido nas escolas.
B: Então acho que essa fraqueza [da imprensa] que ele falou vai muito disso: por trás de interesses políticos que não deixam a imprensa se expressar da forma como deveria, né. D: Então eles não dão a informação de qualidade, entendeu? Eles têm repórteres formados, com curso superior, treinados, até às vezes participam de congresso internacional, mas eles não dão informação de qualidade porque eles se submetem aos interesses dos donos das empresas. E às vezes uma pessoa que nunca estudou jornalismo nem nada passa mais informação de qualidade pela Internet porque ela fala a verdade. C: (...) a pessoa que não tem essa prisão com essas redes, ela põe a informação real. Isso que é informação de qualidade pra mim.
E: Entendo essa ideia ficcional de que ela [grande imprensa] falaria a verdade. Não, ela conta uma versão do fato. O que é problemático, acho na maioria dos jornais e revistas ou televisão, é ela ser clara quanto a posição política dela (...).Porque você compra aquilo como se fosse verdade. A gente cria essa ilusão de que aquilo é verdade, enquanto aquilo não é verdade, enquanto aquilo é uma linha editorial que está sendo seguida ali. A: Ela está querendo esclarecer, ela está querendo colocar goela abaixo da gente (...). Nós que estamos lá há mais tempo a gente percebe claramente que está tudo maquiado.
O professor D retoma o debate sobre o papel social da imprensa, quando o grupo debateu sobre a propriedade dos meios de informação e o atendimento de interesses políticos. O professor E situa o debate no contexto da busca pela democratização dos meios de comunicação.
D: Porque ela [imprensa] vive por causa da sociedade, mas não tem um retorno. Qual o papel social dela? Parece que ela só está com um grupo que é a elite. E o papel social eu não vejo.
E: No Brasil a gente tem um problema maior do que a reforma política ou reforma fiscal, que é a reforma dos meios de comunicação. Ok, jornal é capital privado. Então se eu tenho dinheiro eu abro um jornal. Mas televisão e rádio são concessões públicas. Mas aí talvez levasse a pensar se o jornal não deveria ir para esse lado (...).
Em um momento do debate, o professor B cita um exemplo de como as representações feitas pela mídia acabam configurando opiniões “erradas” sobre os professores. Ele cita o
exemplo da forçadas propagandas do Governo de Minas Gerais, que trazem atores da televisão falando sobre a educação no estado:
B: O ídolo dela [de uma pessoa qualquer] está falando que está bom, como ela não vai acreditar naquilo? Então faz daquilo a verdade dela e vai achar que professores são um bando de vagabundos. Porque pedem mais dinheiro sem razão alguma.
Outras falas também demonstraram as insatisfações dos professores com um noticiário que os representa com base em estereótipos, sobretudo por cobrarem melhorias na educação através da política engajada.
E: Tem um estereótipo, que você [remetendo a B] falou, né, e aí vai. O professor é sempre tratado como um chato...
B: Um hippie, chato...
E: Chato, que está ali, não sabe nada, e esquece que nós ficamos o dia inteiro com o filho dele ali dentro da escola. E a gente tem que fazer milagre de vez em quando.
C: Na verdade a educação é o alicerce. Para tudo dar certo na vida de todo mundo tem que passar por dentro da educação mesmo, educação até em escola.