• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 2: O Período Paleolítico: Os Primeiros Sinais de

2.3. A Incipiente Construção dos Significados 35.

Da Coercitividade Instintiva às Hordas / A Necessidade do Sentido Teleológico / O Medium de Comunicabilidade das Pinturas Rupestres / A Aparição dos Símbolos / O Prenúncio da Escrita.

Como aquela coercitividade instintiva dos antigos hominídeos esses elementos relacionais, colocados ali, entre a materialidade das tecnologias e a abstração das apreensões do divino, vão construindo-se pouco a

76

PUECH, H.-C.: Historia de las Religiones - Volume 2 - Las Religiones Antiguas Vol. II, Ciudad del México, Siglo Veintiuno Editores, 1986, pg. 272.

77“Intuitivismo. Filos. Doutrina segundo a qual os conhecimentos humanos se fundam em intuições.” Novo Dicionário da

Língua Portuguesa, op. cit., pg. 779.

78“Abstracionismo. 4. Filos. Tendência a considerar as abstrações, isto é, as representações puramente mentais, como

pouco e desdobrando-se ao bando. Eles são agora capazes de imprimir um senso comum, uma mesma direção e sentido à horda paleolítica. Esses ancestrais agem segundo aquela coercitividade instintiva dos antigos hominídeos que funda o núcleo familiar, sendo agora mais elaborada, ampliada na ainda distante perspectiva dos sujeitos e codificada na articulação da fala. Tornadas linguagem, as relações transbordam ao mundo, inundando-o de significados que se exprimem desde a arcaica verbalização ao conjunto de símbolos, das tecnologias e sua dialética material à construção do abrigo repleto de símbolos atravessados pela disposição abstrata do divino. Proporcionalmente ao silencioso aparecimento e cristalização dessas relações fundamentais o mundo vai sendo organizado segundo um sistema de códigos que antecipa em muito à construção da idéia de ethos.

Esses significados e elementos compartilhados, ainda que inicialmente subliminares, são suficientes e necessários à extensão da coercitividade instintiva. Originalmente restrita à cria, ela se expande ao grupo e, posteriormente ao bando. Indicam desde já a possibilidade de agrupamentos maiores e organizados segundo uma intenção expressa na linguagem, são elementos necessários e suficientes à coerção do grupo. Permitem as ações conjuntas com uma mesma finalidade, propiciam o aparecimento de uma vaga noção de agregação, de bando; criam, por assim dizer, as hordas.

Ao amplificarem o alcance do núcleo familiar transpondo ao grupo um sentido único, ainda que momentaneamente, esses elementos subliminares compartilhados imputam a esses grupos abandados um vago, mas definitivo, senso comum; aquilo que de algum modo antecede a noção de comunidade numa distante perspectiva civilizatória. Nesse sentido, esses antigos bandos precedem os posteriores clãs, as pósteras aldeias de palafitas, as futuras comunidades e as prósperas cidadelas gregas. São as primeiras sociabilidades formadas a partir da fusão e coexistência de vários núcleos familiares.

No sentido da construção de uma Ética, esses elementos subliminares compartilhados prepararam aqueles homens para o que mais tarde se constituirá como o seu sentido de finalismo, ou teleológico,79 sentido esse que somente terá sentido num cenário racional e comunicacional compartilhado por todos os homens de um mesmo ethos. Eles são necessários por constituírem uma mesma amálgama, por significarem uma possibilidade de comunicação de um mesmo padrão de comportamento e por direcionarem os esforços dos vários núcleos familiares num sentido comum.

Mais uma vez não há como comprovar-se o exposto no que tange às regularidades. Tudo não passam de suposições conforme o exposto por LEROI-GOURHAN (1971):

“Não podemos, pois, equivocarmo-nos no que respeita ao valor absoluto dos conhecimentos

históricos que possuímos sobre as técnicas humanas. O nosso capital é constituído por uma massa enorme de documentos muito variados, de que a maioria é muito recente, e que não representa senão a centésima parte daquilo que precisaríamos para reconstituir a nossa história destes cem últimos séculos. No respeitante à segunda metade do século XIX e ao século XX, ainda nos falta muito. Do século XV ao século XIX, as informações são escassas e extraídas de narrativas de viajantes não preparados para uma tarefa científica. Mais para trás, é a arqueologia, feita de versículos da Bíblia, excertos de autores gregos ou latinos, alusões chinesas, escavações que permitem geralmente descobrir um casebre sem mobiliário, um túmulo sem esqueleto, alguns tijolos, bronzes e artefatos de sílex. É com esses materiais ingratos que o etnólogo reconstitui a história.” 80

Contudo, a plausibilidade dos argumentos expostos que articulam essas idéias improváveis não deve ser

79

Inicialmente, o elemento teleo significa: “tele(o)- elem. comp., do gr. téleios „perfeito, acabado‟, que se documenta em alguns compostos introduzidos, a partir do século XIX, na linguagem científica internacional.” CUNHA, A. G. da: Dicionário

Etimológico Nova Fronteira, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1982, pg. 761. Por outro lado: “Teleologia. [Do gr. teleíos, „no fim‟, „final (causa)‟, + -log(o)- + -ia.] S.f. Filos. 1. Estudo da finalidade. 2. Doutrina que considera o mundo como um sistema de relações entre meios e fins. 3. Estudos dos fins humanos.” Novo Dicionário da Língua Portuguesa, op. cit., pg. 1363. E finalmente, complementando a acepção; “O termo „teleologia‟ foi empregado no século XVIII com o fim de exprimir o modo de explicação baseado em causas finais, diferentemente do modo de explicação em causas eficiente. Apelamos para a causa final ou teleológica quando, ante uma entidade ou processo, perguntamos: „Para quê?‟ Apenas o nome é moderno: a própria idéia é antiga e o que é fundamental nela pode encontrar-se já em Platão e Aristóteles. É muito freqüente chamar causalismo ao modo de explicação por causas eficientes e teleologismo (ou finalismo) ao modo de explicação por causas finais.” Dicionário de Filosofia, op. cit., pgs. 387 e 388.

80

descartada uma vez que é grande a proximidade entre o exposto e os hábitos e costumes de tribos de caçadores e coletadores

que atravessaram os séculos e chegaram aos séculos XIX e XX pesquisados por antropólogos.

Conforme será exposto mais à frente essas tribos poderiam estar situadas no tempo em perfeita sintonia com os grupos nômades do período Paleolítico se consideradas as tecnologias sob o seu domínio.

Nessa perspectiva de incipiente

comunicabilidade do período Paleolítico, surgem outros indícios que apontam para a construção desses elementos subliminares compartilhados. Talvez os mais importantes

para além das

tecnologias, pois que

encerram a praxis, ou a ação humana, seja o advento das representações do mundo exterior através das pinturas rupestres. As figuras 09 81, 10 82, 11 83 e 12 84, acima, respectivamente dos Cervos de Lascaux, da Rena de Lortet, as pinturas rupestres da Rodésia e do bisão de Altamira, revelam mais do que simples alegorias referidas ao mundo natural.

São variadas as abordagens sobre as artes rupestres e todas elas varrem um grande espectro de funções quer sejam de ordem simbólica ou práticas. É certo que poucos registros materiais existem de modo que se possa comprovar qualquer que seja. Contudo, um grande número de autores concordam sobre os seus significados sobrenaturais. Essa idéia mais recorrente desse significado é assim apresentada por Mc EVEDY (1979):

“A arte figurativa talvez fosse, originariamente, estimulada pelas idéias da magia simpática; os artistas julgavam que obtinham o domínio sobre o objeto ou a situação figurada.” 85

Por outro lado, se Mc EVEDY as reconhece com místicas,86 BASIN apenas vê o seu realismo e DURANT

81 Legenda da figura 09: “Cervos desenhados sobre pedras. Caverna de Lascaux (Dordonha).” Historia del Arte - De la

Prehistoria a Nuestros Días, op. cit., pg. 09.

82

Legenda da figura 10: “Rena gravada sobre chifre de rena, procedente da caverna de Lortet (Altos Pirineus).” Historia del Arte - De la Prehistoria a Nuestros Días, op. cit., pg. 13.

83

Legenda da figura 11: “Pintura Rupestre da Rodésia.” Historia del Arte - De la Prehistoria a Nuestros Días, op. cit., pg. 15.

84

Legenda da figura 12: “O bisão de Altamira.” Atlas da História do Mundo, op. cit., pg. 35.

85

McEVEDY, C.: Atlas da História Antiga, São Paulo, Verbo/Edusp, 1979, pg. 22.

86

Eis uma complementação do sentido místico das pinturas apresentado por Mc EVEDY: “A pintura policrômica do bisão, no teto da caverna de Altamira, no norte da Espanha, é uma das mais vívidas imagens criadas por artistas da última Idade do Gelo na Europa Ocidental. Muitas das pinturas em Altamira e em outros sítios da Idade do Gelo encontram-se em cavernas profundas de difícil acesso. As imagens eram pintadas sob a fraca luz das bruxuleantes lamparinas de óleo usadas pelos artistas das cavernas - desenhos misteriosos, representações em tamanho natural de espécies importantes, como o bisão, o cavalo, o mamute e a rena que percorriam a região há 20 mil anos. Embora reais, essas pinturas jamais formam cenas, mesmo quando agrupadas nas paredes das cavernas. Em muitos casos, quer pintadas, quer esculpidas, elas se sobrepõem umas às outras, sugerindo que a

Figura 10

Figura 09

Figura 11 Figura 12

procura nelas algo de humano e antecipadamente civilizatório.87 Contudo é o próprio DURANT (1966) quem apresenta a chave para o seu entendimento ao delinear uma hipótese de sucessões na cadeia evolutiva das artes a partir de sua sofisticação conceptiva e sintética:

“A pintura é uma arte requintada, que presume muitos

séculos de desenvolvimento mental e técnico. Se aceitarmos a teoria corrente, a pintura provém da estatuária, pela passagem do alto-relevo e deste ao mero lineamento e ao adjunto da cor; a pintura é a mesma escultura em menor

extensão.” 88

Assim, se existe um indicativo de anterioridade no sentido da conquista civilizatória esses registros são essas pinturas. Para

além do significado místico que lhes é atribuído, o de colocar os animais representados sob o domínio de seus antigos caçadores, esses elementos gráficos evidentemente sinalizam os primeiros passos em direção à outra construção abstrata que se representa graficamente: a escrita.

Partindo da afirmação de VIEIRA (1981), de que a escrita é inicialmente figurativa entre os sumerianos,89 e, somando-se a essa informação as figurações contidas na reprodução do Disco de Festo, mostrado acima, na figura 13 90, torna-se clara a hipótese de que a escrita procede dessas primeiras representações gráficas estilizadas desses homens, animais e objetos. Segue-se à figuração simples a sua estilização de modo que a forma figurativa, composta por um número maior de linhas e detalhes vai sendo vagarosamente substituída por traços mais simplificados. Esses traços menos complexos sob o ponto de vista formal evoluem para a sua representação mais simplificada ou mais esquemática.

Contudo, paralelamente à sua simplificação gráfica, ocorre a sua sofisticação sob o ponto de vista dos seus significados. Quanto mais os traços vão sendo simplificados e vão tomando as feições da futura escrita, mais eles acumulam significados variados.

Assim, esses traços simplificados tornam-se uma forma expressiva altamente sofisticada e de grande poder sintético. Eles indicam então a aparição dos símbolos,91 ou como quer KATZENSTEIN (1986),

própria ação de pintar, e não a imagem resultante, era importante para as comunidades da Idade do Gelo.” Atlas da História do

Mundo, op. cit., pg. 35.

87 Eis como DURANT as considera uma antecipação da civilização por sua sofisticação: “À parte essa significação [mística], [as

pinturas] eram pura arte, realizadas com a alegria da criação estética; para os simples efeitos de mágica, uma representação mais grosseira bastava; essas pinturas, entretanto, mostravam-se às vezes tão delicadas que nos entristecem - revelam que certas artes não se adiantaram muito no longo curso da história humana. Há nelas vida, ação, nobreza, e tudo realizado com grande economia de traços; uma simples linha acentua o caráter do animal - pode ser que somente essa linha subsistisse dentre

as muitas outras que o artista traçasse.” A História da Civilização - Tomo I - Nossa Herança Oriental, op. cit., pg. 68. Essa idéia

de humanidade dessas pinturas é fundamental no contexto dessa dissertação. Mais adiante, já nos domínios da ilha de Creta, esse conteúdos humanizantes denotarão civilidade.

88

A História da Civilização - Tomo I - Nossa Herança Oriental, op. cit., pg. 68.

89

Eis como VIEIRA (1981) a origem da escrita entre os sumerianos: “Na Ásia Menor, particularmente na Mesopotâmia, onde florescia outra grande civilização, berço de uma literatura muito rica (os sumerianos são apontados como os criadores da escrita cuneiforme, escrita originalmente figurativa que se transforma em escrita fonética), surge o livro assírio-babilônico, em

lâminas de barro.” VIEIRA, R. A. A.: O Futuro da Comunicação - Da Galáxia de Gutemberg à Aldeia Global de McLuhan, Rio

de Janeiro, Editora Achiamé, 1981, pg. 32.

90

Figura 13 recolhida de: I Palazzi di Creta, op. cit., pg. 64. O Disco de Festo, foi descoberto em 1908 no palácio de Cnossos e foi datado no período que vai de 1.700 a 1.600 a.C.. Curiosamente ele não guarda nenhuma semelhança com os hieróglifos cretenses datados no período de 2.000 a 1.650. O conteúdo desse Disco ainda não foi decifrado e nem mesmo sua língua identificada com clareza. Contudo supõem-se tratar de um sistema de escrita de silabário aberto. Conforme McEVEDY: “Os silabários abertos possuem apenas sinais para sílabas de consoantes e vogais, racionalização que reduz o número de sinais de centenas a cerca de oitenta. Os hititas, os eteo-cipriotas e os minóicos criaram os seus próprios silabários abertos.” Atlas da História Antiga, op. cit., pg. 40. Especialistas atribuem a escrita do Disco de Festo ora aos cretenses ora aos hititas.

91

Eis a definição simples para o termo símbolo. Segundo KATZENSTEIN (1986): “Basicamente, os símbolos são fórmulas sucintas, compactas, representando, significando e garantindo a presença de um contexto mais amplo. Transformam uma idéia abstrata em algo gráfico e material; esta é a função da escrita e consequentemente dos livros. ... Os objetos simbólicos - pinturas, sinais, palavras, gestos - são codificações que representam conceitos mentais complexos. Estes símbolos se

complementam mutuamente; um só é compreensível associado a outro.” KATZENSTEIN, U. E.: A Origem do Livro - Da Idade

“conceitos mentais complexos”, que se articulam segundo um todo significativo e amplo.

Os símbolos são uma das primeiras formas do homem relacionar-se com a natureza. Segundo JAFFÉ (s/d), os símbolos se colocam como uma mediação entre o mundo exterior e o homem e representam uma necessidade inconsciente de identificar-se com o que é externo:

“A explicação psicológica subjacente é uma forte identificação entre o ser vivo e sua imagem, que é considerada a alma daquele ser.” 92

Essa identificação permite outros níveis de relação com o meio ambiente. JUNG (s/d) quando trata da

“perda da alma” entre os povos primitivos escreve:

“Entre esses povos, para quem a consciência tem um nível de desenvolvimento diverso do nosso, a „alma‟ (ou psique) não é compreendida como uma unidade. Muitos deles supõem que o homem tenha uma „alma do mato‟ (bush soul) além da sua própria, alma que se encarna num animal selvagem ou

numa árvore com os quais o indivíduo possua alguma identidade psíquica. ... Esta identidade entre a gente primitiva toma várias formas. Se a alma do mato é a de um animal, o animal passa a ser considerado uma espécie de irmão do homem. Supõe-se, por exemplo, que um homem que tenha como irmão um crocodilo, possa nadar a salvo num rio infestado por esses animais. Se a alma do mato for uma árvore, presume-se que a árvore tenha um espécie de autoridade paterna sobre aquele determinado indivíduo.” 93

Contudo, essa forma de relacionar-se com o que lhes é externo não se restringe apenas ao seu caráter pragmático que é o da sua proteção. Essa relação desdobra-se em outras formas de interpretação e no relacionar-se com o mundo natural. Conforme ainda JAFFÉ (s/d), emergem simultaneamente à essa necessidade de identificação com o que lhe é externo, duas outras formas de representação. A primeira diz respeito às representações de ordem mítica e a segunda diz respeito às artes visuais. Assim constata-se que desde os tempos mais remotos essas duas esferas de representação encontram-se indissociavelmente interligadas de modo que ao referir-se a uma das esferas necessariamente a outra se encontra nela implicada.

É em relação a esse todo articulado e sintetizado nas representações pictóricas que JAFFÉ (s/d) se posiciona da seguinte forma:

“Com sua propensão para criar símbolos, o homem transforma inconscientemente objetos ou formas

em símbolos (conferindo-lhes assim enorme importância psicológica) e lhes dá expressão, tanto na religião quanto nas artes visuais. A interligada história da religião e da arte, que remonta aos tempos pré-históricos, é o registro deixado por nossos antepassados dos símbolos que tiveram especial significação para eles e que, de alguma forma, os emocionaram. Mesmo hoje em dia, como mostra a

pintura e a escultura moderna, continua a existir viva integração entre religião e arte.” 94

Assim, a aparição desses rudimentares e inconscientes elementos abstratos transcritos numa ordem gráfica que é a pintura, busca a representação do que é externo à esfera humana, revelam o desenvolvimento de uma capacidade mental até então inexistente ou não verificada entre os hominídeos precedentes.

Essa capacidade mental, que surge agora no período Paleolítico, de identificar-se com o que é externo e que se expressa pela linguagem do mito representada pelas pinturas rupestres, além de prenunciar o registro das formas míticas primitivas, vão se desdobrarem primeiramente nas cosmogonias 95 e posteriormente nas religiões, constituindo-se em parte fundamental das primitivas hierofanias.96

da Pedra ao Advento da Impressão Tipográfica no Ocidente, São Paulo, Editora Hucitec, 1986, pg. 10.

92

JUNG, C. G. (vários autores): O Homem e Seus Símbolos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 3a edição, cap. 4, s/d. pg. 235.

93

O Homem e Seus Símbolos, op. cit., pg. 24.

94

O Homem e Seus Símbolos, op. cit., pg. 232.

95“Cosmogonia. [Do gr. kosmogonía.]. S. f. Astr. Ciência afim da astronomia, e que trata da origem e evolução do Universo.”

Novo Dicionário da Língua Portuguesa, op. cit., pg. 393.

96

Hierofania: “Qualquer coisa que torna manifesto tudo o que é sagrado.” Conceito extraído de: Tratado de História das Religiões, op. cit., pg. 02.

Muitos séculos mais tarde a mitologia grega estará repleta de símbolos divinos atribuídos cada qual à representação de uma divindade de seu panteão.97 São esculturas, pinturas, jóias, vasilhames sagrados, altos-relevos e até mesmo a forma acabada dos templos gregos. Esses símbolos encontram-se na mesma linha evolutiva que se esboça das esculturas às pinturas e que vão sendo incessantemente trabalhados por gerações inteiras de homens a cada século. É, no fundo, a mesma forma de relacionar-se com o mundo exterior que vai se adensando, que vai sendo crivada de novos significados cada vez mais complexos e interligados.

Essas representações encerram também um mesmo medium de comunicabilidade semelhante às tecnologias e, de certo modo, são os primeiros registros do comunicar-se e prenunciam os primeiros esforços do que mais tarde irá constituir-se como as linguagens escritas. Eis, segundo KATZENSTEIN (1986), como a noção de medium de comunicabilidade se expressa através da adoção de signos na virada do período Paleolítico ao período Mesolítico:

“Muito antes de o homem ser capaz de falar e escrever, ele comunicava suas experiências interiores,

pensamentos e sentimentos por meio de um grande número de elementos não-verbais, de um complexo de gestos - movimentos de todo o corpo ou suas partes - ,por meio do olhar, do silêncio. Ainda hoje usa essa forma para se comunicar; quase tudo que faz, consciente ou inconscientemente, expressa pensamentos e sentimentos; podemos chamá-la de „linguagem‟ e substitui e comunica tão bem ou até melhor do que as palavras. Nela se inclui a linguagem articulada pelo próprio homem e compreendida por todos os seus sentidos, desde tempos imemoriais, e que é a linguagem simbólica. Cada membro de um grupo entendia o significado dos gestos, palavras, ruídos e odores de sacrifícios, o perfume do incenso que acompanhava seus rituais. Os símbolos foram os meios através dos quais o homem conseguiu sair do estado animal de inconsciência, para a primeira fase de consciência.” 98

É somente a partir da evolução desses primeiros gestos, desses tímidos rituais ou da identificação própria no mundo exterior e na perspectiva dos elementos subliminares compartilhados, que se poderá dizer de uma associação humana eficiente ou dotada de um sentido teleológico. Contudo, o cenário de dispersão e de impossibilidade de fixação numa mesma região geográfica contribui para que essas hordas de caçadores e coletadores encontrem formas mais sofisticadas de ser e estar.

Mas se a história do homem e as suas formas associativas ainda têm muito a percorrer, os primeiros passos encontram-se devidamente fundados: as pinturas rupestres. Elas cumprem inequivocamente o seu papel de primeiros e rudimentares elementos gráficos de comunicação que, mais tarde, simplificados,