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Capítulo 7: O Território Grego e suas Implicações nos Hábitos e

8.3. A Phrónesis e a Arquitetura Templária Grega 170.

Arquitetura Templária Grega.

8.3. O Núcleo Conceptual da Phrónesis / Do Bem Fazer Técnico ao Bem Fazer Ético / Do Bem Fazer Ético

ao Bem Fazer das Cidades.

Tão logo a razão alcança o seu estatuto regulador do “mundo grego” ela se desdobra como a razão da razão,

ou a lógica. Nesse sentido, a razão passa a ser como que o termo e a medida de si mesma e os conhecimentos de ordem empírica, notadamente aqueles que dizem respeito à ordem e à vida nas cidades passam a ser reorientados pelo logos apodeiktikós, ou o discurso demonstrativo. Eis então um dos paralelismos que pode se traçar entre o surgimento da razão, a ordenação das cidades-estado gregas e sua arquitetura templária. Contudo a exemplaridade construtiva dessa arquitetura dificilmente seria explicada apenas segundo a aparição e organização desse logos apodeiktikós.

Entre os núcleos conceptuais presentes entre os gregos a phrónesis, ou a “sabedoria prática”, talvez seja aquele que melhor defina a centralidade do humano que a Grécia insistiu em cultivar. Do mesmo modo, esse mesmo núcleo conceptual talvez seja o que melhor explique o interesse grego pelo esmero e perfeição da construção de sua arquitetura templária.

516“Encáustica. Processo de pintura, de origem grega, muito usado pelos antigos e que consiste em dissolver as cores em cera

líquida mantida quente durante a execução do trabalho. Ainda hoje é usado na pintura de murais, superando, às vezes, ao afresco pela duração e solidez.” Dicionário de Belas Artes - Termos Técnicos e Afins, op. cit., pg. 197.

Conforme o exposto anteriormente, o conceito de phrónesis havia sido explorado segundo apenas a sua acepção do bem-fazer técnico. Entretanto, apesar de seu primeiro sentido residir nas ações do bem-fazer técnico e consequentemente no bem-fazer do próprio objeto, enfim, na construção do bom objeto como tal, o seu sentido distende-se para além da ação de fazer o objeto, poiein,517 para aportar no bem-fazer Ético. Como quer VAZ (1988):

“Através dessa analogia [analogia entre praxis e téchne na qual Sócrates se inspira para refletir sobre a

areté] com a téchne, a theoría guardou um enraizamento antropológico e social que lhe permitiu transpor para o pensamento da praxis a perspectiva teleológica que rege, na téchne, o processo de fabricação do objeto. Mas enquanto o finalismo da téchne é orientado para a perfeição do objeto fabricado, o finalismo da praxis, regido pela theoria, é orientado para a perfeição do próprio agir, para a sua areté. A verdade da theoria flui da necessidade inteligível do Bem. A luz dessa verdade ilumina para a praxis seu horizonte último que não pode ser senão o próprio Bem absoluto.” 518

Assim o sentido da phrónesis distende-se para muito além do que é a boa realização do objeto, para encontrar, na centralidade constitutiva da praxis Ética, a sua forma conceptiva e original como a “teoria da

praxis”. Remontando rapidamente o desenvolvimento do conceito de modo a apreender com mais precisão

os seus conteúdos semânticos, inicialmente, e conforme PETERS (1983), o conceito de phrónesis, como tantos outros termos gregos, experimentou diversas acepções ao longo de sua história:

“1. Acreditou-se sempre que havia uma certa espécie de domínio intelectual na virtude, testemunha-o o

comentário do cínico Antístenes e de Platão onde provavelmente se referem os cínicos identificando o bem com a phronesis. Para Sócrates esta intuição intelectual dos valores éticos transcendentes torna-se sinônimo da virtude (arete), ... 2. Com as preocupações mais metafísicas de Platão a phronesis começa a perder o seu colorido prático e ético até significar a contemplação intelectual dos eide, e no Filebo é vulgarmente usada como sinônimo de nous como o tipo mais elevado de conhecimento, uso bastante comum entre os pré-socráticos nas suas discussões das semelhanças e diferenças entre o conhecimento sensível e o pensamento. Inicialmente no Protrepticus Aristóteles ainda sustenta a posição platônica, mas na Ética a Nicômaco a phronesis é mais uma vez restringida à esfera moral, enquanto a face da theoria da phronesis platônica é tratada como (teorética) sabedoria (sophia).” 519

Segundo o autor supracitado, percebe-se que o sentido do termo phrónesis afasta-se, com o passar dos tempos, do bem-fazer técnico propriamente dito para alcançar as esferas mais abstratas e menos

materializáveis como as esferas da “moral” e da “sabedoria”. Contudo, sua significação como a “teoria da

praxis” ou do bem fazer Ético foi sempre reiterada no decorrer dos tempos. É segundo esse ponto de vista,

uma abordagem bem mais abstrata a partir do conceito inicial, que VAZ (1988) adverte sobre as peculiaridades que envolvem os conteúdos semânticos do termo:

“A reflexão ética no Ocidente inaugurou-se com um prodigioso esforço de pensamento - em Platão e

Aristóteles - para captar conceptualmente esse núcleo original inteligível da praxis ou para construir, abrangendo toda a complexidade do seu objeto, uma lógica da praxis ou o que modernamente se denominou uma teoria da ação e que freqüentemente, sobretudo na sua versão analítica, não atinge a inteligibilidade mais profunda da própria ação. Tanto a concepção platônica quanto a aristotélica pressupõem as peculiaridades semânticas do termo praxis, cuja significação primordial diz respeito de um lado ao ato do sujeito, ao seu realizar-se na ação e pela ação e, de outro, à perfeição ou excelência que o ato tem em si mesmo. No caso da praxis, com efeito, a perfeição (perfectum, o que é realizado) refere-se primeiramente ao ato e não a um produto do ato como no caso do fazer (poiein): a manifestação do ato no efeito que dele resulta é como a efusão da sua satisfação de uma carência. É necessário ter presente esse substrato semântico para se compreender plenamente as concepções platônica e aristotélica da praxis.” 520

517 “Poiein: atuar, ação.” Termos Filosóficos Gregos - Um Léxico Histórico, op. cit., pg. 193. 518

Escritos de Filosofia II - Ética e Cultura, op. cit., pg. 89.

519

Termos Filosóficos Gregos - Um Léxico Histórico, op. cit., pgs. 188 e 189.

520

Assim, a idéia de phrónesis emerge inicialmente da analogia entre praxis e téchne de modo que o bem-fazer do objeto e sua exemplaridade estendam-se sobre a praxis Ética conforme a mesma exemplaridade. Corroborando esse mesmo raciocínio e mais uma vez conforme ainda VAZ (1988), no contexto pré- socrático, e posteriormente em Aristóteles e Platão, o sentido de phrónesis encontra-se estreitamente relacionado com as virtudes, ou seja, um sentido abstrato e caro aos gregos:

“A tradução latina clássica de „prudentia‟, consagrada por Sto. Tomás e pelos moralistas medievais e

vulgarizada nas línguas modernas não exprime, como observa R. A. Gauthier, os matizes próprios de

phrónesis. A tradução mais aproximada é, pois, „sabedoria prática‟ ou, simplesmente, „sabedoria‟, desde que contradistinta de „sapiência‟ (sabedoria teórica, em italiano, sagezza-sapienza, correspondendo a phrónesis-sophía). O melhor alvitre, opina Guthrie é reter o termo grego phrónesis, explicando-o

devidamente. Em português pode-se usar sabedoria-sapiência.” 521

Ora, pode-se supor que apesar das sucessivas modificações de seu sentido original, a phrónesis, posteriormente sintetizada como uma teoria da praxis não retira da ação construtiva propriamente dita o seu sentido de excelência original. Contrariamente a preenche de um novo sentido igualmente Ético.

O que de fato se verifica, examinando a arquitetura templária grega e a sua evolução, não só segundo a sua lógica conceptiva como também técnica, é que houve um gigantesco salto qualitativo no que se refere especificamente à execução de seus templos. Há inegavelmente um salto conceptivo e tecnológico, ambos qualitativos. Dos antigos templos em madeira, de certo modo mais fáceis de serem executados, os povos gregos, notadamente os dóricos, desenvolvem tecnologias de modo a transpor o seu sistema simbólico às pedras conforme o exposto anteriormente. Como se pode supor, trabalhar com a matéria-prima pedra demanda operações técnicas mais complicadas, e que, certamente, demandam não só a ideação de novos modos de operar como também de desenvolver-se um sem-número de ferramentas e técnicas para o trabalho com o novo material.

Conforme o exposto na seção anterior pode-se sintetizar a evolução dos templos do seguinte modo: originalmente os templos eram ambientes construídos pouco definidos. Eram ambientes descobertos onde prevalecia apenas a idéia de lugar apenas sugerido pelo simples tratamento dos pisos, e eventualmente a existência um altar onde provavelmente haveria uma pequena escultura retratando o deus. Conforme também foi visto, a sua evolução posterior assenta-se em duas formas tradicionais de ambiente construídos, quais sejam, os mégarons e as casas elípticas dos antigos povos gregos. A essa altura, quer seja pelas influências de outros povos quer seja por um movimento autóctone, os templos alongam-se e são cobertos: tratam-se dos templos em forma de “grampo de cabelo”. Cede à simples idéia de lugar outra que pressupõe o lugar construído, e assim, mais definido frente ao mundo natural. Posteriormente esses ambientes construídos sofisticam-se e principiam por apresentar elementos que os qualificam como templos “pré-dóricos”. Tempos mais tarde, já sob a égide expansionista grega e o movimento denominado synoikismos, os templos são submetidos a regras precisas de composição e são construídos segundo a idéia da existência de um todo articulado.

Ora, considerando-se a lenta construção da idéia de templo a partir dos ambientes construídos tradicionais por um lado, e por outro, observando-se o seu compassado desenvolvimento tecnológico, pode-se supor certa naturalidade evolutiva no desenvolvimento da arquitetura templária grega.

Contudo, esse olhar que considera a inexorabilidade evolutiva das coisas é sem dúvida ingênua. É inegável o constante esforço e determinação empreendidos por aquele povo na construção da forma acabada do templo dórico. E esse esforço somente pode ser apreendido na dimensão que lhe é peculiar: o bem-fazer técnico e Ético. Ambos, indissociavelmente concebidos, indicam mais uma inovação grega.

Se o fazer, poiein, encontra a sua perfeita ordenação na téchne, ou técnica, não se pode supor que esse termos tenham sido esvaziados de seu sentido Ético quando da sua transposição à construção da teoria da praxis quando da invenção e aparição do templo dórico. Pode-se supor que ambas as ações encontravam-se estreitamente relacionadas ainda que dispostas em perspectivas diferentes.

521

O que se percebe é o surgimento, não inato, mas conquistado, de artifícios tecnológicos de modo que o novo simbolismo dessa nova ordenação da polis encontrasse a sua perfeita tradução nos ambientes construtivos. Tudo isso pode parecer por demais banais aos olhos contemporâneos, entretanto trata-se de uma conquista tão inestimável que gerações e gerações se dobraram ante à capacidade construtiva grega e à sua potência simbólica.

É assim que o sentido de phrónesis ou do bem-fazer Ético pode ser apreendido pela arquitetura templária grega: pela potenciação do bem-fazer, ou pela exponenciação do bem-construir. Nessa perspectiva, do bem- fazer do objeto, ou do constructo, coloca-se homologamente a construção da idéia do fazer Ético e de sua exemplaridade que pervaga todas as dimensões do ato, poiein. Ambas as forma do fazer são proporcionalmente concebidas e indistintamente realizadas à luz desse núcleo conceptivo que é a phrónesis. Não há como separá-las, apartá-las, isolá-las, mas apenas especificá-las à luz de suas diferentes formas de expressão. Mais uma vez tudo se coloca segundo um todo indistinto ou, naquela instância nomotética. Assim corresponde à praxis Ética, concebida como uma teoria da praxis, que especifica o sujeito empírico na forma da sua universalidade concreta, um outro momento, homólogo e proporcional que visa a sua própria expressão e liberdade nos ambientes construídos segundo a mesma idéia do bem-fazer que tem como núcleo conceptual a phrónesis.

Também conforme o exposto, os gregos encontravam-se diante da necessidade de ordenação das cidades- estados segundo a normatividade do nómos, que agora, face à teoria da praxis encontra o seu lugar assegurado pela ação ética virtuosa e o seu lugar de liberdade. Assim, a ação Ética, ou a praxis, estaria orientada pela normatividade e universalidade do novo nómos, ou lei, no horizonte da pólis. Conforme ainda VAZ (1988):

“A passagem do costume à lei [que] assinala justamente a emergência definitiva da forma de

universalidade e, portanto, da necessidade imanente, que será a forma por excelência do ethos, capaz de abrigar a praxis humana como ação efetivamente livre. O ethos como lei é, verdadeiramente, a casa ou morada da liberdade. Essa experiência decisiva que está na origem da criação ocidental da sociedade

política como espaço ético da soberania da lei.”522

É assim na esteira desse núcleo conceptual da phrónesis como a “praxis humana efetivamente livre”, que essa aproximação entre a arquitetura templária grega e aquele ethos grego pode ser novamente traçado. Se anteriormente o sentido de phrónesis como o bem fazer encontra-se estreitamente relacionado com as virtudes da téchne, agora, num contexto da aparição da idéia de lei concebida na amplitude do nómos, é que o apuro técnico grego ganha realmente sentido.

As figuras 107 523 e 108 524

ao lado mostram

respectivamente um detalhe do Parthenon e uma reconstituição de um capitel do templo de Vesta, em Tívoli. O preciosismo grego na execução dessas verdadeiras peças escultóricas jamais poderia ser compreendido sem que se mencionasse a idéia que subjaz ao termo phrónesis. Conforme se viu, a questão

do bem fazer não se restringe ao objeto do fazer em questão, mas coloca-se segundo um todo articulado e orgânico segundo o qual a centralidade do bem comum é suprassumido no fazer Ético e cujo resultado é a

522

Escritos de Filosofia II - Ética e Cultura, op. cit., pg. 16.

523

Legenda da figura 107: “O Parthenon, Atenas.” Autobiografia Científica, op. cit., pg., 65.

524

Legenda da figura 108: “Capitel do „Templo de Vesta‟, Tívoli.” Arquitetura Grega e Romana, op. cit., Lâmina IX-(a).

própria exemplaridade dessa natureza de segunda ordem que é a pólis.

Não se trata então do apuro técnico como se concebe contemporaneamente, mas sim de um sentido visceral, profundamente arraigado nos hábitos e costumes transpostos na idéia de lei ou nómos. Eis então o mais profundo sentido de harmonia, que se distende pela vida comunitária e que impõe ao fazer técnico o mesmo apuro solicitado à razão: ordenar, não no vazio que consiste a ordem pela ordem, mas no sentido do bem comum, orgulho e glória de um povo que se define por e pela civilidade.

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8.4. A Expressão do Logos na