2 E DUCAÇÃO SUPERIOR : ASPECTOS HISTÓRICOS E PANORAMA ATUAL
2.3 A inclusão no ensino superior: Desafios e perspectivas
Ao traçar o panorama da educação superior inclusiva, é importante destacar os dados sobre deficiências na população brasileira. Segundo o Censo (SNPD, 2013), 23,9% da população do Brasil, cerca de 45.600.000 pessoas, têm algum tipo de deficiência (visual, auditiva, motora ou intelectual). Desse total, 25.800.000 (26,5%) são mulheres e 19.800.000 (21,2%) são homens. Quando se comparam os dados sobre nível de instrução das pessoas com e das pessoas sem deficiência, temos o seguinte gráfico:
Gráfico 1 — Distribuição da população por nível de escolarização
Nota-se que há grande desvantagem para as pessoas com deficiência quando se analisam as três primeiras categorias. Em relação ao ensino superior, os contrastes não são tão marcantes, uma evidência de que, nesse nível, há outros fatores socioeconômicos e políticos que constituem barreiras ao acesso da população em geral. O cenário da escolarização das pessoas com deficiência reflete, conforme já afirmado, um histórico de condições adversas de desenvolvimento, falta de oportunidades e condições inadequadas de aproveitamento escolar.
Chegar à universidade e permanecer até a conclusão do ensino superior é um desafio para todos os estudantes (Coulon, 2008; Figueiredo et al., 2011; Ressurreição, 2013), em especial para os que têm deficiência (Marcondes & Caiado, 2013). A experiência universitária é um importante marcador de trajetória de desenvolvimento pessoal e social, tanto pelas oportunidades de formação acadêmica quanto pelas relações sociais estabelecidas, que se espera sejam pautadas em posturas éticas e humanizadas (Marinho-Araújo, 2009, 2011). Recai sobre as universidades a expectativa social de que se diminuam as diferenças impostas pelos padrões potencialmente desiguais estabelecidos, historicamente, na sociedade brasileira.
O ensino superior tem como característica ser um tempo e espaço de interações e transições na vida dos estudantes, demarcado por regras, valores e crenças próprias. O sucesso nesse tempo exige do estudante o desenvolvimento de habilidades pessoais e sociais (Del Prette & Del Prette, 1998). Acessar o ensino superior abre possibilidades para que o estudante se aproprie do espaço simbólico da universidade; reconheça seu ofício em meio a ele (Coulon, 2008); e se sinta incluído no sistema de valores que perpassam esse nível de ensino. Da mesma forma, a experiência universitária tem um papel importante no desenvolvimento pessoal, ao conferir novas visões de realidade, que possibilitem (re)posicionamentos identitários e recolocações espaçotemporais, transformações essas que ocorrem de forma dinâmica e negociada (Ressurreição, 2013). O ensino superior também se destaca no
desenvolvimento profissional dos sujeitos como oportunidade para a inserção no mundo do trabalho. Considerando as atuais relações mercantis, em que a competição e as exigências são cada vez maiores, a formação universitária pode representar um diferencial na colocação no mercado de trabalho.
Além de promotor de desenvolvimento, o ensino superior representa um período importante na trajetória de vida dos indivíduos — segundo Coulon (2008), a transição do estatuto de aluno ao de estudante. A experiência pode favorecer o desenvolvimento do senso crítico e levar à participação social ativa dos estudantes. Entretanto, por sua característica de um ensino voltado a adultos e historicamente comprometido com a profissionalização, várias rupturas simultâneas ocorrem e exigem do indivíduo adequação e afiliação ao novo contexto, o que pode constituir um processo mais complexo quando se consideram os estudantes com necessidades especiais.
No Brasil, há ações afirmativas voltadas à inclusão de minorias nos espaços de ensino superior, a exemplo do sistema de cotas. A Lei n.º 12.711/2012 reserva vagas para estudantes provenientes de escolas públicas, considerando quesitos de raça e cor. Também há a iniciativa de universidades que reservam cotas para estudantes com deficiência e indígenas, bem como programas voltados à ampliação do acesso ao ensino superior. Exemplos de universidades que instituíram o sistema de cotas antes que esta se tornasse uma política nacional são a Universidade de Brasília e a Universidade Federal da Bahia. Outras ações com forte impacto na redução das desigualdades no acesso ao ensino superior são o Reuni, o ProUni e, no contexto da deficiência, o Programa Viver sem Limites e o Programa Incluir.5
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Deve-se destacar, ainda, iniciativas provenientes de movimentos sociais, como a Carta do Rio: Celebrar, Consolidar e Ampliar as Políticas de Ação Afirmativa. A carta foi elaborada por iniciativa de pesquisadores, gestores e ativistas, e assinada em seminário comemorativo dos dez anos de ações afirmativas daquele estado, em 2012. Nela é salientada a importância das políticas afirmativas que ampliam o acesso e a permanência de jovens de menor renda, negros e indígenas na educação superior.
As dificuldades e barreiras à permanência de grupos menos favorecidos são comuns no espaço universitário, e por isso justificam-se as iniciativas do Estado e dos movimentos sociais. De um lado, merece destaque a importância de ações já consolidadas no propósito inclusivo, mas, de outro, não se deve desconsiderar a complexidade e as demandas próprias desse contexto. A implementação de ações inclusivas para fomentar a inserção de jovens com deficiência no ensino superior é necessária, a fim de melhorar as condições de permanência e aproveitamento da experiência acadêmica.
Ainda que algumas ações afirmativas no ensino superior tenham avançado, a exemplo das iniciativas aqui referidas, ainda não se mostram capazes de responder à questão dos estudantes com deficiência. Essa é uma parcela de estudantes que ainda sofre invisibilidade, o que dificulta a superação de situações de estigmatização (Goffman, 1988), como a discriminação, a ausência de perspectivas e as barreiras que vão se interpondo ao desenvolvimento de habilidades e funcionamento ativo do indivíduo (Dias, 2004, 2014; Mantoan, 2008). Essa constitui uma preocupação de fundo desta tese, conforme indicarão seus objetivos e desenho metodológico, apresentados adiante.