OBJETIVOS Objetivo Geral
4.6 Procedimentos de análise
Por sua natureza dialógica e relacional, a análise de narrativas se apresenta como relevante alternativa metodológica em pesquisas qualitativas. Embora haja variadas técnicas para a análise de narrativas, é reconhecido o seu potencial para compreender as experiências e significações dos sujeitos em contextos culturais (Amado, 2013; Brunner, 1990).
Uma possibilidade considera que a análise de narrativas pessoais tem foco na ação e nos significados individuais e coletivos, bem como nos processos sociais pelos quais a vida social e as relações humanas são feitas e alteradas. A análise de narrativas pessoais refere-se a três perspectivas: toda a história de vida, uma série de materiais autobiográficos; as histórias breves, organizadas em torno de personagens, cenário e enredo, em que se recapitulam eventos específicos, com narração do testemunhado ou experimentado; as grandes seções de conversa em situação de entrevista que contam períodos da vida. Assim, as narrativas podem ser analisadas textualmente, em tom de conversa, cultural, política, histórica e performaticamente. Trata-se de um evento de reciprocidade entre um contador e sua audiência (Riessman, 2000).
Numa outra proposição, formulada por Bamberg (2008), a análise das narrativas se converte no trabalho com pequenas histórias (small stories), opção que se situa entre uma microanálise, a explicação, e uma macroanálise, a descrição. A história é narrada em função do engajamento interacional, abrindo perspectivas sobre as construções identitárias, diante de condições adversas e mudanças constantes. Interessa conhecer, nessa perspectiva, como as pessoas usam pequenas histórias em seus compromissos interativos para construir um senso de quem são, enquanto as grandes histórias analisam suas representações de mundo e identidade.
Lopes de Oliveira (2006, 2012, 2014) concebe como modelo de análise de narrativa o processo que tem por objetivo compreender a organização subjetiva e investigar o
desenvolvimento humano. Considera o modo como o sujeito posiciona a si próprio e aos interlocutores, no processo de falar de si e da realidade, destacando os significados comunicados e os processos metacomunicativos. Com isso, o pesquisador pode compreender, por meio das práticas narrativas construídas em situação de pesquisa, a formação e transformação da subjetividade.
Coerente com as proposições dos autores aqui evocados, buscamos inserir nossa proposta no campo das análises de narrativas. Acreditamos que essa estratégia teórico- metodológica se coaduna com o objetivo de analisar os significados que perpassam pelos processos de desenvolvimento de estudantes com deficiência, de forma a lançar luz sobre a construção das identidades e as imagens que os indivíduos têm de si mesmos e de suas trajetórias.
De antemão destacamos que temos consciência de que nosso trabalho tem um alcance limitado, por abordar temática, contexto, tempo e enredos específicos. Por isso, não tem a intenção de compor um modelo explicativo amplo para a compreensão do fenômeno da inclusão no ensino superior. Apresenta, tomando como ponto de partida as narrativas decorrentes de entrevistas, como a trajetória estudantil do indivíduo é suscitada por sua subjetividade, em meio ao sistema de significados e ao contexto em que está inserido. E acrescenta que, mediante as narrativas, é possível compreender as manifestações singulares e os processos de desenvolvimento experienciados pelos estudantes.
O estudo buscou considerar ainda outras possibilidades de manifestação da linguagem que se fizeram presentes na construção das informações e que excederam a realização das entrevistas. No processo de construção das informações, buscamos atentar para as interações informais anteriores e posteriores às entrevistas: o ambiente estabelecido, a forma como os sujeitos se apresentaram para a atividade, o interesse demonstrado, as expressões não verbais.
Igualmente atentamos às manifestações metacomunicativas da narrativa, como ênfases, desânimos, repetições, silêncios, risos, olhares e gestos que, a nosso ver, compuseram também o corpus de informações a analisar.
Os temas abordados foram distribuídos em três eixos: discursos e práticas institucionais das universidades; vozes dos estudantes e desafios perante a inclusão; narrativas provenientes das entrevistas individuais e das cartas.
Nossa pretensão foi adotar procedimentos de análise coerentes com a perspectiva qualitativa de interpretação dos fenômenos. Procuramos identificar as questões da subjetividade dos participantes e os contextos sociais, utilizar a análise como mecanismo de compreensão do processo, manter os cuidados com a transcrição, exercer os atos de transcrever, reviver e analisar, e, ainda, recorrer à categorização como mecanismo de construção de saberes críticos, criativos e significativos (Creswell, 2014; Zanella, 2013).
Com a análise dos dados, buscamos ordenar o conhecimento resultante da pesquisa e redigi-lo como texto capaz de representar o processo, nos significados negociados entre pesquisadora e participantes. Podemos afirmar que, numa perspectiva dialógica, foi um processo de coconstrução, em que tanto a pesquisadora quanto o participante significaram e ressignificaram seus saberes e suas compreensões de mundo.
O estudo propiciou, de modo particular, condições para aprofundar o conhecimento sobre trajetórias de desenvolvimento de indivíduos com deficiência ao longo do curso de graduação, num esforço detalhado e sistêmico. O intuito foi estabelecer possibilidades significativas de análise: significados em tensão, eventos de ruptura e transição, aspectos facilitadores e dificultadores da experiência acadêmica, configuração de trajetórias-figura e trajetórias-fundo.
Acreditamos que o desenho metodológico do estudo permitiu a aproximação necessária à nossa abordagem, bem como ampliou as possibilidades de análise e reflexão sobre o fenômeno da inclusão no ensino superior. A metodologia qualitativa, de caráter idiográfico, mostrou-se relevante à nossa proposição de compreender as dinâmicas de significação e as trajetórias de desenvolvimento dos jovens com deficiência no ensino superior.
RESULTADOS
5
A
TUAÇÃO E CONTRIBUTOS DOS SISTEMAS DE APOIO À INCLUSÃO NO ENSINOSUPERIOR910
9 Alguns temas em exposição neste capítulo compuseram o manuscrito inédito Modelos de atuação e contributos
dos sistemas de apoio à inclusão no ensino superior português, de autoria de Ana Claudia Rodrigues Fernandes,
Maria Cláudia Santos Lopes de Oliveira e Leandro da Silva Almeida (2014).
10
Nuvem de palavras elaborada com o uso do software NVivo 10, em que considerando as narrativas de entrevista, foram selecionadas as cinquenta palavras com maior ocorrência. Ao centro e em maior tamanho as palavras mais frequentes.
As universidades têm recorrido a diferentes iniciativas para responder às demandas por serviços que apoiem o acesso de estudantes com deficiência e, ainda, oferecer adequadas condições de permanência (Abreu & Antunes, 2013; Antunes & Faria, 2013; Fernandes & Almeida, 2007; Santos, 2013). Interessa-nos, neste capítulo, conhecer como estão organizadas as iniciativas institucionais de inclusão no ensino superior, tomando como objeto os serviços de apoio criados por uma universidade brasileira e três universidades portuguesas.
Como instrumento para a recolha das informações, foi conduzida entrevista semiestruturada com profissionais que atuam nos referidos serviços. Averiguou-se seu conhecimento, suas experiências, suas práticas e percepções em relação ao tema em investigação (Amado, 2013; Creswell, 2014; Flick, 2009). As entrevistas, do tipo diagnóstico- caracterização (Amado, 2013), abordaram: a história da criação dos serviços de apoio na universidade; os tipos de serviço ofertados; a adesão dos estudantes aos serviços; e os desafios enfrentados diante das demandas dos estudantes.