CAPÍTULO IV Subjetividade e formação cultural
1. A Razão e a “Coisa mesma”
1.3. A individualidade real em-si e para si mesma
Nesse terceiro momento da dialética da razão (a individualidade em-si e para si- mesma), se efetiva a síntese dos momentos precedentes: razão observadora e razão ativa. Agora, a razão faz a experiência de ser, na certeza de si mesma, toda a realidade. Ela passa a ser a categoria consciente de si mesma. Três momentos constituem essa nova situação da razão, são eles: o reino animal do espírito, a impostura e a “coisa mesma”; a razão ditando as leis e a razão examinando as leis. Interessa-nos o primeiro momento, pois nele se explicita a identidade entre a individualidade e a exterioridade do mundo, através da coisa mesma. A relação entre o interior e o exterior leva à produção do espírito livre e autônomo.
O indivíduo, considerado em-si antes do agir, é simplesmente uma natureza determinada. Encontra-se limitado pelas determinações naturais. “A individualidade
33 Cf. L. P. J. LABARRIÈRE. op cit. p. 161. 34 G. W. F. HEGEL. op cit. Vol. I, p. 244.
entra em cena – escreve Hegel -, pois, como natureza originária determinada; como natureza originária, porque é em-si (...). A determinidade originária da natureza é, pois, somente princípio simples – um elemento universal transparente, onde a individualidade não são permanece livre e igual a si mesma, como também aí desenvolve irreprimida as suas diferenças; e na efetivação delas é pura ação recíproca consigo mesma” 35.
Portanto, limitado à sua natureza, o indivíduo é apenas em-si.
O conceito de individualidade que ora se apresenta reúne o em-si e o para-si. Enquanto natureza originária, a individualidade é somente em-si. Enquanto passagem do interior para o exterior, ela é para-si mesma. Tal passagem é o agir do indivíduo. Este somente sabe o que é através da sua ação. Assim, a natureza determinada e originária do indivíduo revela-se por meio da ação que efetiva essa natureza. A ação contém alguns momentos: o fim, o meio e a obra. O fim demanda a passagem do interior (em-si) da individualidade ao seu exterior (para-si). Os meios são os talentos (natureza interior), as circunstâncias dadas e os interesses presentes a essas circunstâncias. A obra é a expressão do que a individualidade era em si mesma. A ação do indivíduo, que inclui todos esses momentos, produz um mundo que não lhe é oposto, pois, sendo uma obra sua, só pode revelar externamente o que ele é interiormente.
A obra é, pelo que foi exposto, a expressão da individualidade real em-si e para- si. A obra efetivada de um indivíduo contém a sua natureza determinada, que é oposta às outras naturezas individuais. Essa obra se torna uma efetividade estranha para os outros indivíduos. A consciência individual compara a sua obra com a das outras individualidades e encontra nessa comparação diferenças quanto aos fins, aos meios e à realização da obra. Neste momento, será denunciada a identificação demasiado simples entre o fim, os meios e a realização concreta. A recusa de todo conflito entre esses termos do obrar ameaça o indivíduo num “círculo” não de plenitude, mas de uma péssima petição de princípio. O indivíduo, certo da sua identidade formal e vulgar, evita toda contestação quanto aos elementos que compõem a sua ação. Quando questiona a pureza dos fins, se refugiará na pobreza dos meios e afirmará que o fim foi realizado.
Quando critica os meios escolhidos, reinvindicará a retidão do seu fim. Quando discute que a realidade produzida é inacessível, mostra que as suas intenções são impecáveis e que escolheu os meios com um cuidado meticuloso 36. Depreende-se disso que um indivíduo racional, que não admite as diferenças e justifica a separação entre o seu ser, o seu agir e a sua obra, é um indivíduo incapaz de efetivar o reconhecimento e o enfrentamento que ele próprio exige.
Sem a realização da sua obra, a consciência individual não sabe quem é e nem existe como tal, mas a obra efetivada é uma obra de todos e não um objeto pertencente ao indivíduo. A obra se afasta do autor e deixar de ser obra sua. “A obra é – diz Hegel -;
para outras individualidades; é como uma efetividade que lhe é alheia (...). Em geral, a obra é assim algo de efêmero, que se extingue pelo contrajogo de outras forças e de outros interesses, e que representa a realidade da individualidade mais como evanescente do que como implementada” 37. A desilusão que a consciência individual experimenta em relação à contingência da sua obra, mostra-lhe que ela não está só.
No entanto, a contigência da obra é suprassumida pela necessidade do agir. O que permanece das vicissitudes das obras particulares é a necessidade do agir, da unidade do ser e do operar. A obra aparece e é negada por outras obras. O que subsiste, nesse processo, e se converte em realidade efetiva é a negação, isto é: “o
movimento infinito que supera cada obra particular integrando-a numa essência
universal” 38.
O agir é necessário para a objetivação do sujeito. O ser objetivo é a obra. Não se trata de uma obra qualquer, mas de uma obra que é uma objetividade espiritual. Obra verdadeira, que Hegel chama de “a coisa mesma” (die Sache selbst). Esta, segundo Hegel; “não é somente uma coisa oposta ao agir em geral e ao agir singular; nem um
agir que se opusesse à subsistência e que fosse o gênero livre de seus momentos – que constituíram as suas espécies. A “coisa mesma” é uma essência cujo ser é o agir do indivíduo singular e de todos os indivíduos e cujo agir é imediatamente para outros, ou uma coisa, e que só é coisa como agir de todos e de cada um. É a essência de
36 Cf. L. P. J. LABARRIÈRE. op cit. p. 164. 37 G. W. F. HEGEL. op cit. Vol. I, p. 252. 38 J. HYPPOLITE . op cit. p. 279.
todas as essências: a essência espiritual”39. A “coisa mesma” é produto da ação do
indivíduo que expressa seu interesse. Contudo, ela é para os outros. Ela é a coisa do indivíduo e a coisa dos outros, ser para-si e ser para os outros. A “coisa mesma” é, portanto, a coisa produzida pelo homem dotada de valor universal.
A obra verdadeira, a “coisa mesma” (die Sache selbst), é a obra de todos e de cada um. “O universal – escreve Hegel -, que só é um ser como este agir de todos e de
cada um; uma efetividade, porque esta consciência a sabe como sua efetividade singular e como efetividade de todos”40. O ser da obra, produzida pelo indivíduo, não expressa somente o fazer do indivíduo singular, mas o de todos os indivíduos. Desse modo, a coisa sendo minha coisa é também a coisa de todos sendo para mim e também para os outros.
A relação entre o indivíduo e o outro, mediada pelo fazer e pela “coisa mesma”, aponta para o “eu que veio a ser um nós, e o nós um eu”; isto porque o indivíduo abandona a certeza de si, a sua natureza determinada, e se elevou ao elemento da universalidade espiritual. J. Hyppolite observa que o espírito surge: “como obra comum
das individualidades, cada uma das quais se supera particularmente e cuja comunidade dá origem a um mundo que é a existência da razão:”o eu que é nós e o nós que é um Eu”41.
Concluímos, do que foi exposto até aqui a respeito da razão, que o mundo é obra da consciência, como tal é obra de todos e de cada um. “A essência espiritual – afirma Hegel -, no seu ser simples é pura consciência e esta consciência-de-si. A natureza
originalmente determinada do indivíduo perdeu seu significado positivo, de ser em-si o elemento e o fim da atividade: é apenas um momento suprassumido, e o indivíduo é um
Si, como Si universal”42.