3 A COMPETÊNCIA DOS ESTADOS MEMBROS E DO DISTRITO
3.2 A inexistência de lei complementar disciplinando o IPVA
De se rememorar que o IPVA foi criado sob a égide da Constituição da República de 1967, quando já existia a exigência de Lei Complementar para dispor sobre normas gerais de direito tributário168.
168 Embora existam diferentes correntes doutrinárias sobre o alcance das normas gerais de direito tributário, conforme explicado nos tópicos 2.10.3 e 2.10.4.
Cabe ressaltar, contudo, que o Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172/1966), recepcionado pela Constituição de 1988 como Lei Complementar ratione materiae169, não disciplina o IPVA, já que sua edição é anterior à criação do referido imposto, quando ainda era vigente a Taxa Rodoviária Única (TRU).
Não obstante a promulgação da Constituição Federal de 1988 e a nova exigência, em seu art. 146, III, “a”170, de lei complementar para tratar das regras gerais
em matéria de legislação tributária, até hoje não foi publicada tal lei em relação ao IPVA, permanecendo a existência, unicamente, das leis estaduais e distritais que definem, a critério do legislador estadual, todos os elementos do imposto que incidirá dentro do âmbito de competência de cada Estado-membro.
Além disso, também estatui o art. 146 da Carta Maior que é de competência da Lei Complementar dispor sobre conflitos de competência em matéria tributária, e, como se verá adiante, o IPVA vem dando ensejo a diversos conflitos dessa natureza, em especial com relação ao seu critério espacial e sujeito ativo.
Muito já se discutiu a respeito da validade da cobrança do IPVA pelos Estados e Distrito Federal sem a existência de uma Lei Complementar definidora de seus critérios essenciais, após o advento da Constituição de 1988. Tal discussão mereceu a atenção do Supremo Tribunal Federal, que decidiu pela constitucionalidade da cobrança, em razão do disposto no art. 24, § 3º, da Carta Magna, que trata da competência legislativa plena dos Estados e Distrito Federal, na hipótese de inexistência de normas gerais editadas pela União e, ainda, em decorrência do art. 34 do ADCT, que autorizou a edição, pelos Estados, das leis necessárias à aplicação do sistema tributário nacional. Como exemplo, cita-se:
169 Apesar de ser formalmente lei ordinária, o Código Tributário Nacional versa sobre matérias reservadas pela CF/88 à Lei Complementar, razão pela qual entende-se que foi recepcionado pela atual Carta Magna com o status de Lei Complementar Ratione Materiae.
170 “Art. 146. Cabe à lei complementar:
III - estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre:
a) definição de tributos e de suas espécies, bem como, em relação aos impostos discriminados nesta Constituição, a dos respectivos fatos geradores, bases de cálculo e contribuintes; […]” (BRASIL. Presidência da República. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
IMPOSTO SOBRE PROPRIEDADE DE VEÍCULOS AUTOMOTORES - DISCIPLINA. Mostra-se constitucional a disciplina do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores mediante norma local. Deixando a União de editar normas gerais, exerce a unidade da federação a competência legislativa plena - § 3º do artigo 24, do corpo permanente da Carta de 1988 -, sendo que, com a entrada em vigor do sistema tributário nacional, abriu-se à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, a via da edição de leis necessárias à respectiva aplicação - § 3º do artigo 34 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Carta de 1988.171
Dessa forma, o entendimento da Corte Suprema, no caso do IPVA, foi no sentido de que a inação do legislador nacional não impede os Estados-membros de exercerem sua competência tributária. De fato, poderia se considerar um atentado ao princípio federativo impedir que os Estados-membros instituíssem um imposto que foi a eles conferido na repartição das competências tributárias feita pelas Constituições brasileiras de 1967 (após Emenda nº 27/85) e 1988, em decorrência única e exclusiva da inércia do poder legislativo nacional por quase trinta anos.
Não se pode negar, todavia, que o crescimento, nos dias atuais, das discrepâncias dos ordenamentos estaduais (e do Distrito Federal) e a existência de conflitos de competência entre os próprios Estados demonstram a carência de uma Lei Complementar Nacional, no sistema tributário brasileiro, a balizar a relativa e limitada discricionariedade dos legisladores estaduais na instituição e cobrança do IPVA.
A par disso, há de se lembrar que exercer a “competência legislativa plena”, conforme autorizado pelo STF, é exercer a competência nos moldes como outorgado pela Constituição e dentro dos seus limites. O fato de ter sido reconhecida a
171 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 167.777-SP. Relator: Ministro Marco Aurélio. Julgamento: 04 mar. 1997. Órgão Julgador. Segunda Turma. Publicação: DJ, 09 maio 1997. Acórdão na esteira de outros julgados que retratam o entendimento já pacífico do STF sobre o assunto: BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Agravo Regimental no Recurso
Extraordinário nº 191.703-SP. Relatora: Ministra Néri da Silveira. Julgamento: 19 mar. 2001.
Órgão Julgador: Segunda Turma. Publicação: DJ, 12 abr. 2002; BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 279.645-MG. Relator: Ministro Moreira Alves. Julgamento: 05 dez. 2000. Órgão Julgador: Primeira Turma. Publicação: DJ, 02 mar. 2001.
competência dos Estados e do Distrito Federal para instituir e cobrar o imposto sobre a propriedade de veículos automotores, mesmo diante da inexistência da Lei Complementar, significa maiores esforços do intérprete. Os parâmetros para instituição e cobrança do IPVA estão postos no sistema, sendo necessária a interpretação do conjunto de regras que compõem o ordenamento jurídico, realizando-se as devidas relações de coordenação e subordinação.
Por essa razão, passaremos a analisar cada um dos aspectos da norma geral e abstrata relativa ao IPVA, conforme balizas constitucionais, a fim de identificar qual é essa “competência legislativa plena” conferida às unidades federadas.