• Nenhum resultado encontrado

A INFLUÊNCIA DA TELEVISÃO PODER E CONTROLE SOCIAL

No documento kellyscoralick (páginas 81-85)

O espelho da sociedade. Esta é a ideia defendida por Dominique Wolton sobre a TV. Através dela, a sociedade se vê. Local onde ocorre o oferecimento de uma representação de si mesma. A televisão utiliza da imagem veiculada por ela para criar sua identidade, promovendo a identificação das pessoas com o que é transmitido. Os telespectadores assistem TV e adquirem informação e ou conhecimento a partir do que foi veiculado.

Também a interpretação que fazemos da realidade é sempre mediada pela cultura e pelos meios de comunicação. E entre eles, o de maior alcance na sociedade é a televisão.

A TV marca a passagem do "mundo dos invisíveis", das pessoas comuns, normais, insignificantes, ao "mundo dos visíveis", daqueles que realmente existem. E, de fato, o "outro lado do espelho" é o espaço do conhecimento, do reconhecimento social, da fama, da glória (MARCONDES FILHO, 2000, p.91).

Com grande popularidade, ela detém um instrumento de poder pelo próprio ato de comunicar, pelo poder da fala e da linguagem e pelo modo que age na construção e (re) significação das identidades.

“Essas identidades adquirem sentido por meio da linguagem e dos sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas. A representação atua simbolicamente para classificar o mundo e nossas relações no seu interior” (HALL apud WOODWARD, 2005, p. 08).

Utilizamos da língua não somente para nos comunicar, como também atribuímos sentidos à vida e ao mundo por meio do seu universo simbólico. “A linguagem não é unicamente um meio de exposição. Falar equivale a construir o mundo e o uso da linguagem sempre deve ser visto como uma forma de ação (GUARESCHI, 2006, P. 83)”.

A linguagem, portanto, tem papel de destaque na constituição de identidades nos sistemas de significação que as compõem. “Nós vivemos nossa subjetividade em um contexto social no qual a linguagem e a cultura dão significado à experiência que temos de nós mesmos e no qual nós adotamos uma identidade” (WOODWARD, 2005, p.55).

Aquilo que é anunciado através da linguagem, de um determinado discurso pode ser capaz de reproduzir ou transformar nossos pensamentos e ações.

Ao delimitar comportamentos, modos de ser e agir, os discursos estabelecem normas, padrões e, ao mesmo tempo, afirmam e constituem aquilo que é diferente a esta identidade, que não é apenas o seu oposto, mas é tudo aquilo que não está incluído nesta referência. Esta dinâmica de significação e demarcação de diferenças, central para as teorias pós-estruturalistas, será fundamental no processo de construção e constituição de identidades” (GUARESCHI, 2006, p. 84).

Acrescentamos que as práticas jornalísticas são atravessadas pelos discursos sociais. É importante lembrar que os indivíduos, por sua vez, se identificam a certas posições de sujeito: discurso que tomam para si e que os posicionam em relação a várias coisas. Contudo, os discursos produzidos pela mídia participam da constituição das identidades.

Por assim dizer, somos espectadores das representações pelas quais a mídia produz, com certeza, determinados tipos de identidades.

Afirmar que as identidades são elaboradas discursivamente significa sustentar que elas são construídas através de práticas realizadas em determinados contextos pelos atores sociais que marcam sua experiência no mundo através da palavra e investem de sentido a realidade social (SIMÕES apud SANTOS, 2009, p. 07).

A mídia nos diz como devemos ocupar uma posição-de-sujeito. Lembrando que todo discurso tem efeito social. E, portanto, consequência social.

O discurso jornalístico é reconhecido a partir da sua estrutura textual característica, e seu contexto social de espaço público mediador de significados sociais e culturais em circulação. Como prática social, a linguagem jornalística é um modo de ação. [...] A linguagem é constitutiva, ainda, de identidades sociais, relações sociais e sistemas de conhecimento e crença. Qualquer texto, e o jornalístico especialmente,

dá a sua contribuição destes aspectos culturais como, de forma criativa, ajuda a transformá-los (MOTA, 2006, p. 131).

Reforçamos que os discursos articulam poderes e saberes. Toda vez que fazemos uma narrativa, optamos por uma ou outra fala. Isso porque todos os discursos operam por apagamento e silenciamento de outros. Falar de uma coisa é não falar de outras. Assim também como dar nome a algo ou alguém é uma forma de poder do discurso. Lembrando ainda que todo discurso é apropriação de outro discurso.

As palavras têm o poder de definir, de classificar objetos e também pessoas. Essas classificações, consequentemente, passam a ser naturalizadas no meio social e produzem, evidenciam modos de ser dos indivíduos. A partir dessa naturalização das coisas, é estabelecido um referencial de ser, provocando processos de desigualdade social e exclusão de outros modos de ser. A sociedade passa, então, a discriminar, segregar e descartar tudo aquilo que se apresente diferente do comum.

Em Videologias (2004), Maria Rita Kehl traz algumas idéias de Hannah Arendt. Entre elas, a de que no pensamento não procuramos o conhecimento, procuramos produzir significação. E caracteriza que o pensamento só existe na linguagem: na linguagem da palavra. Nomeia três características da palavra como lugar de instabilidade da verdade, entre elas:

A palavra é capaz de produzir metáforas, ela é capaz de produzir novos signos, de produzir alguma coisa que não existia no real. Um pensamento é capaz de dar início a um movimento, a uma formação social, a uma representação que ainda não existia no real. É para isso que a gente pensa, diz Hannah Arendt. Isso é a característica humana que mais dignifica a nossa condição – é ser capaz de começar alguma coisa que não existia antes (KEHL, 2004, p. 103).

Mas há que se pensar que somos sujeitos diferentes, múltiplos por si só e não podemos estar definidos em categorizações. Daí o cuidado ainda maior quando a fala se refere às pessoas consideradas diferentes, sob a visão da maioria.

A palavra só tem sentido se nos ajuda a ver o mundo melhor. Temos a convicção de que a inclusão dos sujeitos não é um modismo, mas fruto de grandes movimentos e lutas sociais, que se situam no legado dos direitos da pessoa humana e em valores de justiça social, respeito ao outro, cooperação e equiparação de oportunidade para todos (SANTOS, 2010, p. 81).

Avaliamos que a prática produtiva do jornalismo televisivo desempenha papel relevante no exercício da cidadania. O jornalista, por sua vez, tem o poder de influenciar a opinião pública e pode dar sua contribuição à Sociedade para Todos, se assumir sua responsabilidade social. Concordamos com as palavras do jornalista Ricardo Kotscho (2000, p. 08): “O jornalismo é a arte de informar para transformar”.

Quando abordamos a televisão, a informação não está somente sujeita às palavras ditas. A TV funciona a partir da relação texto/imagem. O veículo torna a informação contemporânea e universal ao apresentar o acontecimento através da imagem no momento em que ele ocorre, propondo levar a própria realidade para dentro de nossas casas. É com ela que a televisão exerce fascínio e prende a atenção das pessoas.

Bucci (2004, p. 242) comenta sobre essa influência imagética da televisão: “A TV dá a primeira e a última palavra e, mais que isso, a primeira e a última imagem sobre todos os assuntos”.

Rezende disserta sobre a combinação dos três códigos que formam a linguagem televisiva: icônico, linguístico e sonoro. O primeiro deles refere-se à percepção visual. O código linguístico está diretamente relacionado à língua que se fala e se escreve. E, por último, o sonoro é relativo à música e aos efeitos sonoros. Segundo Rezende, na mensagem visual os signos se manifestam isolados ou como parte de uma montagem. “A mensagem visual – televisiva ou cinematográfica – é “multidimensional” quanto à forma e ‘multissensorial” em relação aos sentidos, distinguindo-se da mensagem impressa e radiofônica” (REZENDE, 2000, p. 39).

O trabalho com imagens tem uma relação direta com a história de nossa civilização. Os primatas já deixavam suas impressões em forma de sinais para as gerações posteriores. Portanto, desde a Antiguidade, os indivíduos procuram diminuir as distâncias existentes entre si, sendo criados, aos poucos, veículos capazes de agilizar o processo de transmissão e recepção de mensagens. Entre eles, temos a fotografia, o cinema, a TV. Hoje, são estes veículos os responsáveis por dar consistência ao processo informativo imagético da sociedade. As imagens da televisão, especificamente, fortalecem a proximidade e imediatismo das notícias com os telespectadores.

Assim temos a questão essencial do debate sobre o poder que a televisão exerce quando reproduz na fala e na representação imagética os modos de ser de uma sociedade, quando apresenta a identidade e diferença dos indivíduos.

No Brasil, a televisão emerge como forma de centralização simbólica e integração nacional, além de ampliar o consumo da indústria cultural. O país iniciava um importante período de mudanças na estrutura econômica, social e política. A proporcionar novas alternativas ao capital como quando funciona como veículo de valorização TV era, assim, responsável por favorecer “aos objetivos capitalistas de produção, tanto quanto dos bens de consumo produzidos, através das publicidades transmitidas” (MATTOS, 2002, p. 58).

Segue um pouco dessa história da televisão brasileira.

No documento kellyscoralick (páginas 81-85)