CAPÍTULO 3: A composição orgânica e composição de diversos capitais
3.3. A influência dos elementos orgânicos do capital
O último ponto consiste na composição orgânica do capital, onde seus vários elementos conjugam-se no valor global de dado capital. Na análise destes fatores, Marx avalia várias possibilidades de combinações quanto à constância e variação dos seus elementos. O que importa para nós é, aqui, o fato de Marx estar trabalhando com abstração da mais-valia, isto é, a taxa de mais-valia aqui é constante. Isso é uma abstração metodológica que objetiva avaliar justamente como os elementos orgânicos do capital influem na taxa de lucro, em que “não haja nenhuma variação na taxa de mais-valia. Este pressuposto é necessário para podermos examinar o caso em sua forma pura” (Ibid., p.81). Deste modo, purificando-se dos elementos perturbadores, pode-se esclarecer com maior precisão a influência da composição orgânica do capital sobre a taxa de lucro, sem que a teoria se desvie por efeito das variações que a taxa de mais-valia opera na taxa de lucro. Disso resulta duas vias gerais: ou a grandeza do capital empregado provém da variação de valor de um de seus componentes, ou o inverso, a grandeza do capital leva a uma variação na distribuição de sua composição orgânica. Em ambos os
casos, o que está em jogo é como se distribui relativamente e absolutamente a composição orgânica do capital.
“(...) a mudança de grandeza do capital empregado é consequência de uma mudança precedente de valor de um de seus componentes e, por isso (...), de uma mudança na grandeza relativa de seus componentes; ou essa mudança da grandeza (…) é a causa de uma mudança na grandeza relativa de ambos os seus componentes orgânicos” (Ibid., p.106-107).
O fator determinante na análise das variações na taxa de lucro situa-se, por isso, em como o capital se compõe organicamente. Se a taxa de lucro é a razão entre o valor excedente e o capital global empregado, “a mudança de grandeza do capital empregado tem de ser acompanhada, portanto, por uma mudança simultânea na taxa de lucro” (Ibid., p. 107). É claro que a taxa de lucro varia de acordo, também, com a taxa de mais-valia. Este ponto do problema, porém, já foi analisado no Livro I da obra, e compete às leis internas do sistema em si mesmas. Neste momento, o objetivo de Marx é outro: trata- se de avaliar como estas leis internas se efetivam concretamente nas relações da superfície social. Daí abstrair de qualquer variação na taxa de mais-valia. Só assim se pode analisar com precisão como a composição orgânica do capital influi na taxa de lucro. Por isso que
“suposta constante a taxa de mais-valia, a taxa de lucro (…) pode subir ou cair consequência de circunstâncias que aumentam ou diminuem o valor desta ou daquela parte do capital constante, e assim afetam a relação entre os componentes constantes e variáveis do capital” (Ibid., p.112).
Entretanto, Marx nesta passagem de O Capital indica que a 'relação entre os componentes constantes e variáveis do capital' é afetada, pelo menos principalmente, pelo aumento ou diminuição 'desta ou daquela parte do capital constante'. Marx, por isso, parece dar muito valor à composição constante do capital na análise das variações da taxa de lucro. De fato, há pelo menos dois motivos para isso: por um lado, Marx já prepara o terreno para o que virá posteriormente na análise da Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro, onde um dos fatores mais importantes situa-se no aumento da composição orgânica do capital devido ao desenvolvimento da indústria e da maquinaria.
Por outro lado, porém, o foco principal na análise do capital constante na composição orgânica do capital se pauta justamente nas leis internas do sistema, onde a gana do capital de acumular valor e, por isso, em explorar a força de trabalho, passa a ser efetuada principalmente através da produção de mais-valia relativa. Ou seja, trata-se de gerar valor excedente não através do aumento da jornada de
trabalho, através da extensividade do trabalho, mas, ao contrário, como Marx já insistia desde o Manifesto do Partido Comunista, “A burguesia não pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de produção”. Assim, o principal fator de extração de mais-valia no sistema capitalista consiste na inovação dos meios de produção “e, por conseguinte, as relações de produção, portanto todo o conjunto das relações sociais” (M., p. 69). Este caráter da extração de mais-valia relativa organiza-se, entretanto, através de um dispêndio maior na grandeza relativa do capital constante diante do variável, mudando, por isso, a grandeza absoluta e relativa dos fatores que conjugam-se da composição orgânica do capital.
Ambos os pontos, a preparação para a análise da Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro e o foco da acumulação na produção de mais-valia relativa, convertem-se mutuamente no desenvolvimento da lógica interna do sistema até suas formas de manifestação. Como dissemos anteriormente, trata-se, por isso, de um retorno ao fundamento, já que Marx revisita alguns elementos do Livro I para melhor explicitar como a composição orgânica do capital influencia na taxa de lucro.
O fator principal para o cálculo da taxa de lucro consiste na economia dos meios de produção. Essa economia “se origina da concentração de meios de produção e de sua utilização em massa” (C. III, vol. IV, p.62). Isso é determinante para o problema, pois a economia de meios de produção, que se define pela concentração de capital constante, “se origina essencialmente do fato de que essas condições funcionam como condições de trabalho social”, onde, portanto, “São consumidas em comum no processo de produção, pelo trabalhador coletivo, ao invés de forma fragmentada” (Ibid., ibidem). Esta economia nos meios de produção, entretanto, deve ser avaliada em sua forma absoluta e relativa. Pois, por um lado, o valor absoluto dos meios de produção aumenta, mas, de acordo com as leis do capital, somente na medida em que seu valor relativo diminui:
“O barateamento relativo dos meios de produção não exclui, naturalmente, que sua soma absoluta de valor cresça, pois o volume absoluto em que são empregados aumenta extraordinariamente com o desenvolvimento da força produtiva do trabalho e da crescente escala de produção que o acompanha” (Ibid., p.66).
Entretanto, o barateamento dos meios de produção não é produto de um capital isolado, mas “essa economia aparece como produto do caráter social do trabalho diretamente produtivo” (Ibid., ibidem). Portanto, de modo regressivo, podemos afirmar que um aumento na taxa de lucro implica uma economia nos meios de produção, este que, por sua vez, pressupõe o caráter social da produção. De
fato, vemos aqui Marx retomar alguns pontos já desenvolvidos no Livro I para denotar sua efetivação na superfície social.
A concentração dos meios de produção, em primeiro lugar, só se dá quando o trabalho deixa de ser fragmentário para operar conforme a cooperação. Esta passagem do trabalho individual para o trabalho em cooperação é um dos passos históricos e lógicos essenciais do sistema capitalista. Basta, neste momento, sublinhar que a cooperação gera uma economia nos meios de produção pelo fato de que
“utilizados em comum cedem parte menor de seu valor ao produto individual (…) Essa economia no emprego dos meios de produção decorre apenas de seu consumo coletivo no processo de trabalho de muitos” (C. I, vol. I, p.246).
A cooperação, por sua vez – que já constitui uma força de trabalho diferenciada, não se reduzindo meramente à soma de várias forças individuais de trabalho -, gera as condições para uma manufatura baseada numa divisão do trabalho mais desenvolvida que a artesanal, pois “De um lado, ela parte da combinação de ofícios autônomos de diferentes espécies”, e “De outro lado, ela parte da cooperação de artífices da mesma espécie” (Ibid., p.255). Ambos aspectos da manufatura e divisão do trabalho são um resultado da nova força de trabalho surgida com a cooperação, pois esta põe as condições de possibilidade para a 'combinação de ofícios autônomos' e a 'cooperação de artífices' diversos. A manufatura, por sua vez, “fornece ao sistema de máquinas (…) o fundamento naturalmente desenvolvido da divisão e portanto da organização do processo de produção” (C. I, vol. II, p.11). Mas o desenvolvimento da maquinaria rompe os limites da manufatura, pois se nesta há articulação de vários trabalhadores diferentes, dado pela cooperação e divisão do trabalho, ao mesmo tempo sofre de interrupções que “a matéria-prima passa de sua primeira à sua última fase” (Ibid., ibidem), característica que a maquinaria elimina definitivamente:
“Se na manufatura o isolamento dos processo particulares é um princípio dado pela própria divisão de trabalho, na fábrica desenvolvida domina, pelo contrário, a continuidade dos processos particulares” (Ibid., ibidem).
Entretanto, esse desenvolvimento, ao mesmo tempo lógico e histórico, que organiza as tarefas particulares cada vez mais segundo uma ordem contínua e agregada, mostra-se, na maquinaria, somente no interior de uma fábrica. Na fábrica, os trabalhadores atuam de forma cooperada, segundo uma divisão do trabalho que deu origem à manufatura, para logo em seguida dar lugar à maquinaria,
aperfeiçoando-se através da continuidade do processo produtivo. O caráter social, porém, ainda não atingiu a escala completa que a grande indústria atinge. Com a maquinaria dando as condições para a formação da grande indústria, se desenvolveu a escala social da produção para além dos limites da fábrica, atingindo, portanto, a produção social em toda sua amplitude:
“A grande indústria teve, portanto, de apoderar-se de seu meio característico de produção, a própria máquina, e produzir máquinas por meio de máquinas. Só assim ela criou sua base técnica adequada e se firmou sobre seus próprio pés” (Ibid., p.14).
A economia de meios de produção atinge um patamar diferenciado. De fato, em todos os níveis de desenvolvimento anteriores à grande indústria – cooperação, divisão do trabalho, manufatura e maquinaria – ocorre uma economia crescente quanto aos meios de produção. Este barateamento consistia na produção coletiva das mercadorias. Entretanto, a grande indústria proporciona uma economia de grande significado, já que os capitais particulares não somente desfrutam do caráter coletivo no interior da fábrica, mas de toda amplitude social da produção capitalista, uma vez que gozam do barateamento da maquinaria produzida por outro ramo industrial.
“O característico dessa espécie de economia do capital constante, que resulta do desenvolvimento progressivo da indústria, é aqui a elevação da taxa de lucro em
um ramo industrial se dever ao desenvolvimento da força produtiva do trabalho
em outro. O que aqui beneficia o capitalista é novamente um ganho, o produto do trabalho social, ainda que não o produto do trabalho explorado diretamente por ele” (C. III, vol. IV, p.64).
Os capitais interagem de modo a proporcionar um barateamento relativo que seria impossível se a produção não tivesse atingido a totalidade da organização social.
“Aquele desenvolvimento da força produtiva remonta, em última instância, sempre de novo ao caráter social do trabalho posto em ação; à divisão do trabalho dentro da sociedade (…). O que o capitalista usa aqui são as vantagens do sistema global da divisão social do trabalho” (Ibid., ibidem).
Dois fatores devem ser aqui ressaltados: primeiro, que há um desenvolvimento do caráter social que influi na taxa de lucro, desde a coletividade dentro de uma fábrica até a totalidade social da produção onde interagem diversos capitais para a economia dos meios de produção; segundo, Marx aqui já elabora, de modo geral, a interação entre diversos capitais como fator que influencia de modo
determinante a variação na taxa de lucro. Este último ponto é essencial para nós, já que põe, em abstrato, ou como potência interna, aquilo que aparecerá efetivado na taxa média de lucro, a saber, a importância da interação entre os diversos capitais na concorrência para os resultados teóricos.
A composição orgânica do capital, explorado em seus fatores determinantes, se mostra como momento necessário para analisar a formação lógica da pluralidade de capitais. Neste ínterim, passamos por alto de um dos fatores que influem na taxa de lucro: a variação dos preços. Neste ponto, que aparece desenvolvido no capítulo VI do Livro III, Marx afirma que “Nas análises que seguem limitar-nos-emos a oscilações de preço da matéria-prima” (C. III, vol. IV, p.82). Não adentraremos nesta problemática, uma vez que buscamos acima de tudo analisar a passagem para a concorrência, o que não aparece, ao menos de modo fundamental, nestas considerações sobre os preços das matérias- primas. Por isso, prosseguiremos com a diferenciação na composição orgânica de diversos capitais.
Na análise da composição orgânica entre diversos capitais e suas diferenças quanto à taxa de lucro, Marx faz uso de outra abstração, na medida em que coloca os diversos capitais como sendo compostos pela mesma grandeza. Tal como serviu a Marx abstrair das variações da taxa de mais-valia para a análise precisa das variações na taxa de lucro, aqui também trata-se de investigar precisamente aquilo que entra como fator determinante nas diversas composições orgânicas dos capitais em jogo. Trata-se novamente, por isso, de encontrar a lei econômica em sua versão purificada, buscando ali as potências lógicas que jogam para os desenvolvimentos posteriores.
Marx trata, por isso, a composição orgânica segundo a percentagem de seus elementos. É neste sentido que se busca investigar como “capitais de igual grandeza, em diferentes esferas da produção, produzem lucros desiguais”. Assim, uma vez que “os lucros em diferentes esferas da produção não são proporcionais às grandezas dos capitais respectivos” (Ibid., p.116), o segredo a ser descoberto aqui consiste nos elementos internos à composição orgânica que influem para a formação de diferentes taxas de lucro.
Vale relembrar aqui o fator da rotatividade do capital. Apesar de já termos apontado não haver grandes novidades em relação ao que já foi desenvolvido no Livro II, cabe aqui apontar, ao menos de passagem, que um dos fatores que influem na diversidade de taxas de lucro em capitais de igual grandeza consiste justamente na diferença de seus períodos de rotação.
Do mesmo modo, permanecem aqui as apreciações quanto às grandezas relativas entre capital constante e variável, já que, uma vez que nos diversos capitais
“se dividem de maneira desigual em elementos constantes e variáveis, põem quantidade desigual de trabalho vivo em movimento e portanto produzem quantidade desigual de mais-valia, e por conseguinte de lucro” (Ibid., ibidem).
Nas análises anteriores, onde Marx buscou elaborar diversas possibilidades de agrupamento dos elementos orgânicos do capital, tratava-se, sobretudo, de diversos momentos de um único capital, diversas mudanças na sua composição orgânica. O que agora se elabora é diferente, pois investigam-se aquelas diferenças não mais como momentos diversos de um mesmo capital, mas como composições de capitais diferentes e simultâneos:
“O que antes considerávamos como mudanças ocorridas sucessivamente no tempo com o mesmo capital, passamos a considerar agora como diferenças simultâneas entre investimentos de capital existentes paralelamente em diversas esferas da produção” (Ibid., p.112).
Novamente vemos o sentido específico que diferencia o sentido da abstração em Marx de outros autores da economia: a purificação de elementos perturbadores não serve para meramente facilitar o acesso à realidade, mas antes tem a tarefa de encontrar ali as determinações que põem as condições lógicas de possibilidade dos desenvolvimentos posteriores.
Do mesmo modo, trata-se aqui de analisar as diferenças internas à composição orgânica dos diversos capitais. Se antes tratamos deste fator em sua generalidade, partimos agora para alguns pontos específicos dentro das margens já traçadas. Surge, neste sentido, duas composições internas à composição orgânica propriamente dita: a composição de valor e a composição técnica.
A composição de valor, como já vimos, consiste na “proporção de valor entre capital variável e constante”, onde, por exemplo, suas matérias-primas diferenciam-se quanto ao valor, “e com isso também a composição de valor de ambos os capitais globais” (Ibid., p. 113). Assim, como avaliamos em primeira mão neste item, com x quantia de valor pode-se ter z ou y quantias de meios de produção. A percentagem na grandeza de valor global diferencia diferentes taxas de lucro.
Quanto à composição técnica, trata-se da proporção entre força de trabalho e meios de produção, mas em escala diferente daquela avaliada segundo o quantidade de valor. Trata-se, aqui, de que “Determinada massa de força de trabalho, representada por determinado número de trabalhadores, é exigida para produzir (…) determinada massa de produto”, assim como com a finalidade de “pôr em movimento, consumir produtivamente determinada massa de meios de produção” (Ibid., ibidem).
Vê-se como os elementos da composição orgânica do capital foi somente desenvolvido em suas especificidades, de modo que a diversidade na composição orgânica de diferentes capitais consiste na diversidade de suas composições técnica e de valor. De fato, Marx afirma ser a composição técnica “a verdadeira base de sua composição orgânica” (Ibid., ibidem), mas não deixa de lado a composição de valor:
“A diferença entre a composição técnica e a composição de valor se revela em cada ramo industrial pelo fato de que, com composição técnica constante, pode variar a proporção de valor entre as duas partes do capital, e com composição técnica alterada a proporção de valor pode permanecer a mesma” (Ibid., ibidem).
Vê-se que os vários fatores, em conjunto, ao servirem para explanar as leis internas do capital, aparecem agora retomadas, mas em outro nível, tanto no que tange à composição orgânica quanto à composição técnica e de valor, pois trata-se agora de analisar como estes fatores dão origem à diferenciação na pluralidade de capitais. Aquelas relações que compunham as leis internas do capital, agora são trazidas de volta, não intocadas, mas desenvolvidas segundo sua própria lógica, dando origem às formas manifestas da economia capitalista. Trata-se, por isso, de uma efetivação daquelas leis internas, uma vez que, como indica Hegel, “essência deve aparecer” (E. I, p.250). Esta retomada de elementos presentes no Livro I convertem-se na possibilidade lógica de desenvolvimento das diferenciações na composição orgânica entre os diversos capitais.