2.3 A institucionalização da loucura
2.3.2 A institucionalização da loucura no Brasil
A cadeira de psiquiatria só foi incluída nos cursos de medicina do Brasil a partir do ano de 1881. Tanto as propostas de Pinel, como as relações entre a civilização e a loucura elaboradas por Esquirol32, no século XIX, foram seguidas pelos médicos brasileiros que já desenvolviam estudos acadêmicos referentes à alienação mental desde o início daquele século (ORNELLAS, 1997).
Na verdade, não existem registros antigos que demonstrem a situação dos alienados mentais no Brasil em tempos remotos, parecendo que esta permanecera silenciosa durante um longo período. A figura do doente mental aparece nas cidades brasileiras caracterizadas pelo sistema econômico rural pré-capitalista, onde a discriminação da população diante dos loucos ainda é pouco difundida. Já nesta época, é perceptível a diferenciação no tratamento entre os loucos pobres e aqueles de família com maior poder econômico. Estes, geralmente, eram mantidos em suas próprias residências, sob a proteção e vigilância de algum funcionário. Por
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Posteriormente, voltaremos a refletir sobre as práticas de Basaglia na Itália e sua influência sobre a Reforma Psiquiátrica no Brasil.
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Segundo o critério de Esquirol, os costumes públicos ou privados, bem como qualquer atividade humana, como divertimentos ou trabalhos, pode expor o homem a situações que possam vir a lhe causar algum tipo de alienação. A loucura é vista a partir da racionalidade médica enfatizando a necessidade de exercer o controle de condutas anormais. O modelo de Esquirol tem origem nas teorias pinelianas (ORNELLAS, 1997).
outro lado, a circulação dos insensatos pelas ruas das cidades já rogava a tomada de algumas providências – de cunho punitivo –, direcionadas àqueles que não eram cuidados por suas famílias.
A pessoa considerada louca desfrutou de uma certa tolerância social no Brasil. Segundo Paulo Amarante (1994), o marco da primeira intervenção estatal sobre a loucura no Brasil, é a chegada da Família Real no início do século XIX. Este período foi marcado por significativas mudanças no contexto da ordem social e econômica, como o início da integração do Brasil na ordem capitalista mundial. Entre outras medidas, era preciso controlar e ordenar o crescimento das cidades e, assim a medicina aparece para atuar no sentido do reordenamento do espaço urbano. Dessa forma, a medicina brasileira segue o modelo da medicina social do espaço urbano francesa.
Ainda sobre este contexto histórico, entre as novas condições que se tornaram de difícil adaptação para os “loucos” foi a questão da mão-de-obra, tão necessária para o sistema capitalista, mas que era ameaçada pelo quadro de anormalidade. Esta situação também gera a necessidade da criação de instituições específicas que pudessem controlá-los e que assegurasse os espaços públicos.
Em 1543 foi fundada a primeira Santa Casa de Misericórdia, em Santos-SP, que funcionava como abrigo de doentes, velhos, pobres e loucos. Mas o registro mais antigo de internação de cunho psiquiátrico no Brasil ocorreu em 1817, na Santa Casa de João Del Rei, em Minas Gerais. Neste período, constam diversos registros de internações em outros estados brasileiros como na Bahia e em Pernambuco (MARCHEWKA, 2000). Em 1830, iniciam-se os primeiros protestos diante da situação dos loucos internados naquela instituição, sob a alegação de que esta não tinha nem a cura e nem o domínio da loucura, sugerindo, assim, a criação de hospícios direcionados para os alienados (ORNELLAS, 1997).
O grande marco da institucionalização da loucura no Brasil é a criação do hospício Imperador Pedro II, em 1852. Posteriormente, outros hospícios foram criados, todos norteados pelo princípio do isolamento desenvolvido pelas idéias de Pinel e, posteriormente, seguido por Esquirol. Ao descrever as possíveis causas da alienação, além dos costumes de liberdade, Esquirol critica o modelo de educação viciosa dada pelas famílias, questiona os critérios dos pais e esta seria uma de suas justificativas para o isolamento. Contudo, vale ressaltar que tal princípio só era imposto aos “loucos” pobres, os de família rica poderiam, até mesmo, ser
mantidos em suas casas. Isto, porque, muitas vezes, a própria família não tinha interesse de que seus “loucos” pudessem ser conhecidos. Quando estes eram internados, as condições de internamento eram diferenciadas, tanto com relação ao tipo de “hospedagem”, como também aos tipos de tratamento (ORNELLAS, 1997).
Seguindo as práticas psiquiátricas que já descrevemos anteriormente, além do isolamento como tratamento terapêutico, o modelo pineliano tinha como parte do processo de “cura” o reordenamento do espaço institucional. Visando estabelecer a ordem no interior das instituições, diversas medidas foram tomadas, entre elas a divisão dos doentes por sexo, não podendo haver qualquer contato entre homens e mulheres; uma segunda divisão entre classes, com quartos individuais, duplos e enfermarias gerais destinadas aos indigentes.
Dentre as condições essenciais para manter a ordem interna no interior dos hospícios estão, ainda, a vigilância permanente e a ocupação do tempo dos internos. Eram desenvolvidos diversos tipos de trabalho terapêutico, com fins de cura e de preservação da ordem, como oficinas de costura, móveis, jardinagem, entre outros. Contudo, a divisão do trabalho também era fortemente seletiva, no sentido de que os internos pobres ocupavam-se de tarefas braçais, enquanto os ricos ocupavam-se nas bibliotecas e no desenvolvimento de habilidades artísticas (ORNELLAS, 1997). É latente que os médicos brasileiros compartilhavam, com os alienistas europeus, os ideais positivistas, calcados nas noções de classificação e ordenação das doenças e dos doentes.
O Hospício Pedro II passou a ser alvo de diversas críticas e denúncias de injustiças e maus tratos por parte de médicos, enfermeiros e diretores. Além disso, apesar de definir em seu Estatuto que o recebimento de internos deveria ser restrito a doentes curáveis, encontram- se abrigados no mesmo local crianças, velhos, vagabundos, bêbados, loucos etc. Apesar de os médicos já influenciarem os modos de tratamento dentro da instituição, ainda não tinham um lugar de autoridade neste contexto, na medida em que o hospício ainda se mantinha como espaço de acolhimento ou de hospedagem tanto de pobres e indigentes, como “loucos”, “não- loucos”, pacientes com doenças diversas e, inclusive, pagantes, aqueles que eram enviados pelas próprias famílias por terem se tornado incorrigíveis.
O Regimento de 1858 determina que não serão recebidos os idiotas, epiléticos, paralíticos, dementes, que se reputam incuráveis e podem viver
inofensivos no ‘seio da família’, mas o Pedro II abriga na época, cegos, surdos, órfãos de servidores etc. (MACHADO apud ORNELLAS, 1997, p. 118).
O próprio poder médico passa a criticar e a exigir novas reformulações no Estatuto, que apenas conferia ao médico um poder secundário diante das internações. Começam a ser levantadas questões como a relação entre o louco e sua família, entre o louco e o Estado, assim como o direito de seqüestro e todo o funcionamento asilar. Tais questionamentos fazem eclodir o conflito entre os médicos e a Santa Casa, instituição responsável por aquele hospício. Este conflito tinha por escopo o aumento do poder médico.
A reivindicação feita por parte dos médicos é que apenas a psiquiatria deveria exercer o poder de seqüestrar o louco, sendo apenas amparada pelo Estado. Ao contrário do que ocorria até então, onde toda a movimentação de entrada e saída do louco do internamento era autorizada somente por entidades estatais, como a polícia ou o juiz, ou, ainda, pelos parentes. Busca-se uma medicalização da legislação, com vistas de proteger a sociedade dos possíveis atos dos insensatos, e, ainda, proteger os próprios loucos de tentativas de aproveitamento de sua condição de incapaz.
Somente no período que segue a proclamação da República é que se dá o afastamento dos elementos religiosos do hospício, e, desde então, os médicos assumem o controle destas instituições. Apesar de a necessidade primeira de exclusão e isolamento dos loucos em instituições psiquiátricas ter sido impulsionada pela necessidade de estabelecimento da ordem urbana, com os avanços da psiquiatria passam a ser consideradas razões médicas e humanitárias. Na medida em que se dá a medicalização da loucura, o “louco” é humanizado e considerado como doente.
A iniciativa de criação de colônias agrícolas em diversas regiões do Brasil foi uma tentativa de inserção de novos modelos de assistência psiquiátrica. Para Amarante (1994), a introdução destas medidas seria a primeira reforma psiquiátrica brasileira, quando foram criadas as duas primeiras colônias de alienados no Rio de Janeiro33. O principal objetivo deste
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Foram as duas primeiras colônias de alienados do Brasil e da América Latina: a Colônia de São Bento e a Colônia de Conde de Mesquita. As duas localizavam-se na Ilha do Galeão, hoje Ilha do Governador, e eram direcionadas ao recebimento apenas de alienados indigentes de sexo masculino. Este modelo teria inspiração nas práticas de um pequeno vilarejo medieval belga, Geel, que recebia doentes mentais para serem curados milagrosamente pela Santa Dymphne, considerada a “Padroeira dos Insanos” (AMARANTE, 1994). Diz a lenda
novo modelo é criar condições para que haja um convívio entre os alienados e a sociedade. E, mais uma vez, o trabalho sendo elemento fundamental para a formação social burguesa, será também uma das principais características do tratamento no contexto das colônias. Outra característica que vale mencionar é a localização das colônias, que estão sempre afastadas dos centros das cidades. Este modelo perdurou até metade do século XX, contendo em suas propostas a intenção de cura nos pacientes, o que, na prática, não ocorreu, tendo sido os loucos excluídos nos manicômios. Uma das razões para o fracasso dos hospitais-colônia é a contradição existente no fato de os alienados serem preparados para o trabalho rural e, com a crescente urbanização e industrialização esta “educação” tornou-se inadequada.