3.4 Reforma Psiquiátrica no Distrito Federal
3.4.1 Luta antimanicomial e legislação distrital
O movimento da luta antimanicomial no DF, atualmente, está relativamente enfraquecido. Não há uma secretaria constituída e não há um movimento institucionalizado com ampla participação de usuários, familiares e profissionais. Diante do racha do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial (MNLA) após o Encontro de 2001, os representantes da luta antimanicomial do DF passaram a integrar a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial, constituída em março de 2003, como opção para os que desejavam se separar do MNLA.
Antes disso, enquanto o movimento estava unificado, a participação do DF nas discussões nacionais também não era intensa. Os participantes do movimento local eram –
e talvez ainda sejam – os representantes do Conselho de Psicologia, o Movimento Pró- Saúde Mental, que era um braço do MNLA no DF, representantes da Comissão de Direitos Humanos e estudantes, mas não há, ainda hoje, um fórum de saúde mental com significativa participação de usuários, familiares.
A fundação da INVERSO no ano de 2001 se fez também nesse sentido, já que entre os seus idealizadores e fundadores há representantes dos grupos que mencionamos acima e uma de suas propostas era justamente conciliar clínica e política, articulando não apenas profissionais, mas usuários e familiares. No V Encontro Nacional, que também ocorreu naquele ano, profissionais da INVERSO se movimentaram no sentido de convidar os outros profissionais das instituições psiquiátricas do DF, usuários e familiares para comparecerem ao evento no RJ. Contudo, tal proposta não foi bem recebida nas instituições e houve uma campanha destas para que os familiares não autorizassem a ida dos usuários:
Olha a participação de Brasília foi uma coisa bem peculiar também [...] nesse momento do encontro foi no ano que a gente fundou a INVERSO, então a gente tava assim empolgadíssimo, e a gente começou a fazer meio que uma campanha nas instituições pra incentivar as pessoas a irem para o encontro. [...]O que aconteceu foi que as direções das instituições tiveram uma reação assim bem absurda que foi ligar pra casa de todos eles e dizer pras famílias que não era pra deixar eles viajarem, porque estavam com um monte de gente irresponsável, que eles iam se perder no RJ, começaram a fazer um terrorismo psicológico assim com as pessoas, pra elas não irem para o encontro, porque lá iam falar de política, que as pessoas iam entrar em crise. E aí o que a gente fez, a gente começou a fazer na INVERSO algumas reuniões, assim com técnicos que tinham a ver com a história da reforma, chamando os usuários, falando da lei, falando do movimento nacional, pra tá contando um pouco do que ia ser o encontro. E aí a gente fez várias reuniões, que a gente chama de reuniões de formação política, pra mostrar pras pessoas que não era nada disso, que a gente não estava indo se perder em lugar nenhum, e que a gente estava indo participar de um movimento social que tinha uma implicação direta na vida deles (trecho de entrevista – PS1).
A delegação de Brasília para o Encontrou formou-se em conjunto com a de Goiânia, sendo constituída por cerca de 40 pessoas, entre profissionais e usuários. Alguns usuários que participavam do Encontro são freqüentadores da INVERSO ainda hoje e descrevem esta como uma experiência inesquecível, pois algumas pessoas nunca tinham sequer saído de Brasília e tiveram a oportunidade de conhecer e participar de um espaço de ampla discussão social e política.
No que tange aos aspectos legislativos, como já descrevemos a legislação federal chegou tardiamente, quando vários estados já tinham aprovadas as suas próprias leis visando redirecionar a assistência psiquiátrica, inclusive no DF. Em 12 de dezembro de 1995 foi aprovada a Lei nº 975 que fixou as diretrizes para a assistência à saúde mental e explicitou, logo em seu artigo 1º, a preocupação em garantir a cidadania das PATM:
Art. 1º A atenção ao usuário dos serviços de saúde mental será realizada de modo a assegurar o pleno exercício de seus direitos de cidadão, enfatizando-se:
I – tratamento humanizado e respeitoso, sem qualquer discriminação; II – proteção contra qualquer forma de exploração;
III – espaço próprio, necessário à sua liberdade e individualidade, com oferta de recursos terapêuticos e assistenciais indispensáveis a sua recuperação;
IV – integração à sociedade, através de projetos com a comunidade; V – acesso às informações registradas sobre ele, sua saúde e tratamentos prescritos.
Diante do que é recomendado pela referida Lei, percebemos que, no plano formal, o DF já avançava no sentido de fazer acontecer uma reforma psiquiátrica local, redirecionar a assistência à saúde mental e garantir a cidadania das PATM. Dessa forma, entre as modalidades assistenciais previstas foram definidas, além do atendimento ambulatorial e da emergência psiquiátrica em pronto-socorro de hospital geral, hospitais dia e noite, NAPS/CAPS, centros de convivência, oficinas terapêuticas, lares abrigados, entre outras.
Como já vimos, os avanços não se limitaram ao plano formal, mas se estenderam às transformações do plano real, alterando a estrutura dos hospitais, implantando hospitais-dia, formando equipes multiprofissionais, que ao longo do tempo acabaram por retroceder até chegar ao quadro atual. Outra previsão legal constante desta Lei trata-se da obrigatoriedade de que todas as internações involuntárias fossem comunicadas à Defensoria Pública em um prazo de 48 horas.
Vale ser mencionado, ainda, a proibição de se autorizar a construção e o funcionamento de novos hospitais e clínicas psiquiátricas especializadas, assim como o aumento de leitos nos hospitais já existentes, a realização de psicocirurgias e outros tratamentos invasivos e irreversíveis, exceto quando autorizado previamente pelo usuário ou por seu representante legal. Todas essas iniciativas nos fazem crer que o DF sinalizou positivamente para avançar no processo de reforma psiquiátrica local, contudo, mais uma
vez a falta de vontade política e de uma atuação efetiva dos órgãos fiscalizadores fazem com que as ações não aconteçam na prática.