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A Insustentabilidade do Modelo de Desenvolvimento Regional

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE (páginas 81-85)

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.6. Impactos Socioambientais da Poluição Industrial

4.6.1. A Insustentabilidade do Modelo de Desenvolvimento Regional

A atual forma de sociedade industrial, para funcionar eficientemente, necessita ou crê necessitar de crescimento exponencial constante. Para manter este crescimento, utiliza um vasto aparelho publicitário, apoiado na tecnologia de comunicação de massa que, por sua vez, se serve dos mais sofisticados truques psicológicos para incutir-nos hábitos de consumo que só merecem o qualificativo de irresponsáveis, hábitos nunca vistos em sociedades anteriores, e insustentáveis no futuro.

Apelando à frivolidade, à vaidade e à ânsia de simbolizar status fictício, criam-se necessidades

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fúteis e artificiais, que em nada contribuem para a verdadeira felicidade humana e que, muito ao contrário, estão na base de muita frustração desnecessária. Com isto, multiplicamos nosso impacto ambiental muito além do que exigiria a explosão demográfica; gastamos mais matéria-prima, destruímos mais natureza, poluímos mais do que seria necessário para a sobrevivência e qualidade da vida (LUTZENBERGER, 1980, p.37, grifos nossos).

As reiteradas evidências da Poluição Industrial no ―Mar de Dentro‖ (op. cit.) são consequências diretas do modelo de desenvolvimento em curso no país e, especificamente, na região, por priorizarem a implantação de um conjunto de atividades socioeconômicas que se utilizam e transformam os espaços e ―recursos‖

naturais, sem considerar os impactos das mesmas na sustentabilidade dos processos ecológicos e das próprias relações sociais nas áreas onde se inserem. Neste contexto, cremos pertinente e necessário resgatar a discussão sobre as Cidades (In)Sustentáveis29 e a (In)Sustentabilidade do Modelo de Desenvolvimento na Planície Costeira do Rio Grande do Sul30. A região de estudo, a Planície Costeira do Rio Grande do Sul, comporta uma grande heterogeneidade espacial, com o predomínio de um extenso rosário de lagoas costeiras, no qual se insere o sistema lagunar Patos-Mirim, e os ambientes associados de campos litorâneos, matas de restinga, arroios, banhados e praias; este conjunto abriga rica biodiversidade e produtividade natural, especialmente da biota aquática, da qual dependem as atividades primárias regionais.

Como característica comum, ocupando a maior parte da sua área rural, se desenvolve um pequeno conjunto de atividades primárias, como a pecuária extensiva, a rizicultura irrigada, a sojicultura e a silvicultura com essências exóticas, como Eucaliptus e Pinnus. As práticas exercidas no modelo do agrobusiness determinam conflitos e impactos socioambientais consideráveis: a pecuária extensiva, com seu enfoque produtivista, utiliza-se de grandes extensões de terra, avançando sobre os remanescentes dos ambientes nativos (como os palmares de butiá e as matas de restinga), promovendo a progressiva compactação dos solos e a

29Artigo original de Washington Ferreira, Diego Cipriano e Carlos Machado, apresentado durante o IV° CPEASUL – Colóquio de Pesquisadores em Educação Ambiental (Balneário Camboriú:

UNIVALI, Setembro/2010).

30Artigo original de Washington Ferreira, Diego Cipriano e Carlos Machado, apresentado durante o IX° Seminário de Pesquisa Qualitativa (Rio Grande: FURG, Setembro-Outubro/2010).

83 supressão da capacidade de renovação das espécies locais, pela intensa pastagem dos seus propágulos.

Na rizicultura e sojicultura, o uso excessivo de água com o seu deslocamento das sangas, lagoas e bacias, pode comprometer até mesmo o abastecimento das cidades, prejudicando os ecossistemas e os seres humanos que vivem na região, além disso, o volume e frequência de aplicação sistemática de biocidas acarreta a contaminação dos solos e das águas, atingindo todas as redes tróficas, afetando a saúde de suas populações (BARRIGOSSI, LANA, FERREIRA, 2004; DARONCH, CABRAL, PRADO, 2006; CABRERA et al., 2008; SCREMIN, KEMERICH, 2010;

SILVA, ÁVILA, BUNDT, 2011; BELO et al., 2012); a concentração de terra, capital e insumos envolvidos nesta atividade é sintomática da (in)sustentabilidade do modelo de produção regional. Em consequência da silvicultura, perde-se a diversidade vegetal, com possibilidades de criação de futuros desertos, pela supressão de ambientes originais, degradação e uso intensivo do solo (DAVID, 2006; BURGUEÑO et al., 2013) e contaminação das águas por biocidas (AGROBASF, 2011; ZANETTI, s/d); consequentemente, o ecossistema como um todo perde, com repercussão direta no empobrecimento de seu respectivo sociossistema: os empregos gerados no momento tendem a converter-se em desemprego, miséria e impossibilidade de subsistência aos grupos humanos residentes (BINKOWSKI, 2009; MENGUE, 2011).

Em Rio Grande (em função de sua inserção na área estuarina), a socioeconomia configura-se como polo pesqueiro e industrial-portuário, e área de lazer associada (balneário do Cassino), em processo de expansão exponencial.

Neste contexto desenvolvimentista, a crescente expansão do setor industrial-portuário e seu Polo Naval local aceleram a transformação dos espaços naturais e das relações sociais tradicionais remanescentes, pelo deslocamento compulsório de populações ribeirinhas para outras localidades, nas quais suas atividades tradicionais ficarão comprometidas pelo distanciamento do lócus de subsistência e a perda das redes de apoio social nas quais estavam integradas (JULIANO et al., 2008; FERREIRA, ESTEVAN, 2013). Em consequência desta expansão, vem sendo suprimidas as atividades de pequena escala (pesca artesanal, pequenos produtores familiares, agroecológicos e orgânicos); o incremento da pesca predatória (frota industrial de arrasto, emalhe e cerco) vem promovendo o esgotamento de seus estoques (BOFFO, REIS, 2003; KLIPPEL et al., 2005; KOTAS et al., 2006;

84 VASCONCELOS, HAIMOVICI, 2006), e a intensificação da Poluição Industrial (GARCIA et al., 2000; HUTTNER, MOREIRA, 2000; MIRLEAN, CASARTELLI, GARCIA, 2002; BAUMBACH, KRUSCHE, 2006; PEDERZOLLI, 2006; FONSECA, 2007) acelera a deterioração da qualidade de vida.

No atual modelo global de desenvolvimento capitalista, a natureza é concebida e apropriada como mero ―recurso‖ a ser explorado, devendo servir integralmente aos humanos em suas necessidades e interesses produtivos nos marcos do atual modo de produção. Este pensar/agir nas relações sociedade-natureza fundamenta-se na racionalidade da ciência moderna, assim como em concepções religiosas de que o mundo foi criado para a procriação e reprodução da espécie humana na subjugação das demais formas de vida (DALCASTAGNER, 2012). Trata-se de concepções/práticas, que nos marcos do atual sistema produtor de mercadorias, convertem a natureza numa ―dádiva gratuita‖ e ilimitada ao capital, para a produção e reprodução de sua lógica perversa.

O Estado Brasileiro, como condutor da política econômica nacional, traça as diretrizes e planos de desenvolvimento plurianuais, através de amplos programas e projetos específicos. A definição dos setores e empreendimentos aptos ao financiamento nacional e/ou internacional procura contemplar as atividades elencadas como prioritárias, segundo as estratégias geopolíticas do Estado (PASSOS et al., 2007; OLIVEIRA, 2012), geralmente afinadas com os interesses de grandes grupos industriais (MARTINS, 2006; MARTINS, 2008; MACHADO et al., 2009). Contudo, os critérios utilizados na definição destas prioridades ultrapassam as demandas comunitárias, vinculando-se primariamente aos interesses de corporações e empresas transnacionais e seus representantes no país. As principais atividades socioeconômicas supra descritas foram e continuam sendo fomentadas pelo Estado e pelo capital internacional, seja diretamente com recursos públicos, via política de incentivos fiscais, seja pelo aval público em financiamentos externos. Nos discursos e nos programas institucionais dos órgãos de fomento e gestão, bem como das empresas beneficiadas, foram incorporados os conceitos de

―sustentabilidade‖ ou ―desenvolvimento sustentável‖ (OLIVEIRA, 2002), porém esta apropriação tem muito mais um caráter de ―marketing verde‖ (ao tentar imprimir a imagem de seus processos, como socioambientalmente referenciados), muito distante das práticas habituais nas relações com a sociedade e o ambiente.

85 Neste panorama socioambiental, constata-se uma articulação dialética de múltiplas e mútuas influencias entre os grupos humanos e os conflitos e impactos resultantes de sua organização socioeconômica sobre os espaços naturais.

Considera-se que os resultados destas ações também configuram motivos de contrastes/conflitos socioambientais e territoriais entre os humanos e destes na apropriação desigual da natureza e da riqueza socialmente produzida, comprometendo a qualidade vida das gerações presentes e futuras.

Do ponto de vista da Educação Ambiental crítica e transformadora, este contexto marcado por contradições traz a necessidade de ações e intervenções educativas, que apontem para a superação do existente, mediante a produção de novas concepções/práticas nas relações sociais e com o meio ambiente, envolvendo todos os atores sociais. Tendo em vista que o modelo geral de apropriação dos espaços e recursos naturais tende a uma crescente insustentabilidade, implicando no incremento e diversificação dos contrastes e conflitos socioambientais, necessitamos fomentar a colaboração de pesquisadores de diversas disciplinas, na elaboração de estudos conjuntos que permitam um conhecimento mais profundo a respeito dos grandes problemas e desafios a serem enfrentados neste contexto.

Por fim, esperamos contribuir na reflexão/implementação de políticas publicas e práticas de EA (TASSARA, 2009), no sentido de uma profunda transformação da racionalidade implícita no planejamento e gestão dos espaços e ―recursos‖ naturais, responsável por tantos agravos cometidos aos ambientes e ao conjunto dos seres vivos, na direção de outro mundo possível e de uma região e cidade que sirva às necessidades e potencialidades humanas, na e com a natureza.

4.6.2. Insumos, Processos e Efluentes Industriais x Qualidade Ambiental e a Saúde

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE (páginas 81-85)