4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.9. A Justiça Ambiental e a Educação Ambiental
4.9.2. Os Conflitos Socioambientais no ―Mar de Dentro‖
Não houve, entretanto, muito tempo para pensar no assunto, porque os desconfiados habitantes de Macondo mal começavam a se perguntar que diabo era o que estava acontecendo, quando já a aldeia se tinha transformado num acampamento de casa de madeira com tetos de zinco, povoado por forasteiros que chegavam de meio mundo no trem, não só nos bancos e nos estribos, mas até no teto dos vagões (...). Ninguém sabia ainda o que desejavam, ou se na verdade seriam apenas filantropos, e já tinham ocasionado um transtorno colossal, muito mais perturbador que o dos antigos ciganos, mas menos transitório e compreensível. Dotados de recursos que em outra época estavam reservados à Divina Providência, modificaram o regime das chuvas, apressaram o ciclo das colheitas, e tiraram o rio de onde sempre esteve e o puseram com as suas pedras brancas e as suas correntes geladas no outro extremo da povoação, atrás do cemitério (Gabriel García Marquéz, 1982, p. 210. ―Cem Anos de Solidão‖).
Na perspectiva de demonstração da situação de Injustiça Ambiental na região, na qual se inserem os impactos decorrentes da Poluição Industrial, promovemos a revisão de alguns Conflitos Socioambientais incidentes na mesma.
177 a) Percepção Ambiental de Trabalhadores do Setor Industrial-Portuário de Rio Grande, RS49
Destaca-se a discrepância entre os depoimentos de trabalhadores, os discursos e campanhas de marketing socioambiental das suas respectivas empresas, e os resultados de artigos científicos sobre o tema. Desta análise, emergiram como recorrentes as categorias: doença, contaminação, acidente, abandono e desrespeito. Segundo o discurso dos representantes das indústrias de fertilizantes sintéticos, os seus valores são:
Buscar sempre a valorização do profissional participante do setor de fertilizantes, bem como dos agentes que com ele interagem e atuam no agronegócio; zelar pela ética na condução dos trabalhos da Associação tendo em vista a preocupação com: a segurança alimentar, o meio ambiente, a cidadania e a qualidade de vida da população brasileira(ANDA, 2011a, p.02).
Ainda segundo estes mesmos representantes do setor industrial, dentre os seus Princípios de Segurança, Saúde e Meio Ambiente da IFA, constam:
Todos os membros demonstrarão o comprometimento de suas lideranças e administrações no que diz respeito a questões de segurança, seguridade, saúde e meio ambiente relativas à produção, distribuição e comercialização de fertilizantes; Todos os membros buscarão alcançar zero danos e zero impactos ambientais adversos, ao mesmo tempo mantendo um ambiente de trabalho saudável para todos os funcionários e trabalhadores contratados;
Todos os membros buscarão priorizar a integração de questões de segurança, seguridade, saúde e meio ambiente às suas políticas corporativas, reconhecendo sua grande importância; Todos os membros garantirão a alocação de recursos financeiros e humanos adequados para a melhoria contínua de seu desempenho em segurança, seguridade, saúde e meio ambiente(ANDA, 2011b, p. 04 ).
A análise médica do contexto local também demonstra a inconsistência do discurso dos empreendedores, frente às situações as quais estão expostos os trabalhadores e as comunidades do entorno.
Os trabalhadores expostos apresentaram prevalência aumentada de sintomas respiratórios (tosse, rinite e conjuntivite) com relação aos trabalhadores não-expostos. Os sintomas de rinite (43,3%) e conjuntivite (35,4%) foram os mais frequentes e claramente associados à exposição. A alta prevalência da rinite encontrada nos expostos (clínica e rinoscopia) deixa bem evidente o papel de filtro das fossas nasais em face de exposição ocupacional a poeiras e gases irritantes. O ar contém grande
49Artigo original de Karine Sánchez, Washington Ferreira e Maria do Carmo Galiazzi, apresentado durante a Iª Jornada Gaúcha de História Ambiental (Rio Grande: FURG, Abril/2011).
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quantidade de substâncias em suspensão e o trato respiratório superior, em especial o nariz, atua como primeira linha de defesa. O grupo não exposto de trabalhadores apresentou prevalência de rinite (28,7%) um pouco maior do que aquela referida pela literatura para a população em geral; uma justificativa para esse evento poderia ser a ampla disseminação dos particulados por todos os setores das fábricas, podendo estar presentes inclusive nos locais não envolvidos diretamente com a produção de fertilizantes (HÜTTNER, MOREIRA, 2000, p. 03).
Mesmo em regiões mais afastadas das fábricas (10 km de distância), as concentrações de fluoreto podem atingir valores que superam muitas vezes o teor de background mundial para águas de chuva, apresentando forte evidência do efeito das atividades industriais realizadas nas fábricas de fertilizantes; as concentrações de fluoreto nas águas subterrâneas mostram uma tendência de diminuição com afastamento das fábricas. Com relação à outra variável de risco, tempo de trabalho, os funcionários expostos apresentaram maior frequência de sintomas respiratórios, em qualquer estrato de tempo de trabalho, com relação ao controle. Embora se tenha observado aumento consistente da prevalência e da razão de chances para a maioria dos sintomas no estrato de funcionários com mais de 10 anos de trabalho, não houve diferença de risco entre eles (os participantes podem representar uma população sobrevivente de trabalhadores saudáveis, resultando em um viés de seleção, já que seriam menos suscetíveis aos efeitos de certas exposições).
Com relação aos setores de trabalho, embora o risco entre os setores seja semelhante, é interessante notar que o setor de acidulação da rocha fosfática, foi o que apresentou as maiores razões de chances para a maioria dos sintomas respiratórios (HÜTTNER, MOREIRA, 2000). A adoção formal do processo de auto monitoramento, na fiscalização da Poluição Industrial, por parte da FEPAM estabelece, que os empreendedores são responsáveis pelo monitoramento e informação dos níveis de poluição gerada, repassando estes dados aos órgãos públicos de fiscalização ambiental. Contudo, por mais que o departamento de marketing destas empresas procure impor no tecido social uma imagem de responsabilidade socioambiental, suas estratégias e processos produtivos são essencialmente focados na lucratividade, perante a qual os custos ambientais são externalidades não incorporadas.
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Em se tratando de ações de responsabilidade socioambiental, as empresas focam em projetos de educação ambiental na comunidade, o que evidencia implicitamente um marketing; de uma maneira geral, a gestão ambiental está ainda associada a uma visão imediatista, que atenda primeiramente a fiscalização, para depois deixar de ser um custo a mais para a empresa e, passar a ser um investimento. A educação ambiental como proposta poderia ser direcionada aos gerentes e gestores, como um processo de mudança cultural nas práticas de planejamento para convergir na proteção ambiental (FONSECA, 2007, p. 03, grifos nossos).
Assim, apesar da retórica difundida (de amplo controle e cuidado socioambiental), na prática, os trabalhadores e a comunidade local continuam sentindo todos os efeitos danosos à saúde, decorrentes da Poluição Industrial gerada por estas fábricas de fertilizantes sintéticos. Tão grave quanto esta situação é aquela associada, de promoção de uma pseudo ―Educação Ambiental‖, alienante, conivente e apaziguadora que, ao invés de capacitar os trabalhadores e comunidades para o embate e defesa de sua saúde e qualidade de vida, busca a negação e/ou naturalização dos impactos da Poluição Industrial, como um ônus necessário e consensual para o desenvolvimento econômico regional. A este respeito, enfatizando os aspectos sociais inerentes à aplicação do ―Princípio da Precaução‖, COLOMBO (2005) nos recorda que:
Dessa forma, o princípio da precaução traz consigo a ideia da inversão do ônus da prova em favor do meio ambiente. Como enfatiza Milaré, ―[...] a incerteza científica milita em favor do meio ambiente, carregando-se ao interessado o ônus de provar que as intervenções pretendidas não trarão consequências indesejadas ao meio considerado.‖ 14. Isto é, o provável autor do dano precisa demonstrar que sua atividade não ocasionará dano ao meio ambiente, para que seja dispensado da obrigação de implementar as medidas de prevenção/precaução (COLOMBO, 2005, p.128).
A efetiva aplicação legal do ―Princípio da Precaução‖ (teoricamente) estabeleceria garantias de redução dos riscos e impactos associados aos empreendimentos industriais:
É oportuno detalhar que este princípio não permite a poluição e nem pagar para poluir. Pelo contrário, procura assegurar a reparação econômica de um dano ambiental quando não for possível evitar o dano ao meio ambiente, através das medidas de precaução. Desta forma, o princípio do poluidor-pagador não se reduz à finalidade de somente compensar o dano ao meio ambiente, deve também englobar os custos necessários para a precaução e prevenção dos danos, assim como sua adequada repressão (COLOMBO, 2005, p.17).
180 Porém, na prática, prevalece o lado perverso da inversão dos pressupostos jurídicos do ―Princípio do Poluidor-Pagador‖, legitimando o direito de poluir, desde que se paguem as taxas simbólicas e se atenda formalmente o rito do licenciamento e monitoramento ambiental, desconsiderando-se os custos ecológicos e sociais destas opções.
A área onde se insere o Distrito Industrial de Rio Grande integra-se ao contexto portuário regional, constituindo o seu complexo industrial-portuário. Como quase todos os portos nacionais, Rio Grande vem sendo objeto de um programa oficial de expansão de sua área e capacidade operacional. Esta expansão determinará a instalação de uma série de outras indústrias e terminais portuários, amplificando os riscos e impactos socioambientais destas atividades, com as tradicionais medidas de ―ajuste ambiental‖ empregadas no seu licenciamento e monitoramento ambiental, incrementando ainda mais os impactos socioambientais já recorrentes no cenário local. A releitura da história ambiental regional é essencial para a compreensão das conexões causais de muitos dos problemas de saúde humana e de degradação ambiental vigentes, bem como para a perspectiva de reordenamento dos processos produtivos.
b) Bigriver - na Encruzilhada entre Cubatão e Macaé50
A análise da história ambiental do modelo de desenvolvimento econômico industrial-portuário na cidade de Rio Grande (RS) aponta expressivas similaridades e convergências com os processos registrados nos municípios de Cubatão (SP) e Macaé (RJ). Os contextos socioambientais destas localidades circunscrevem ambientes estuarinos e costeiros, com forte identidade cultural pesqueira e/ou portuária, onde foram implantados distritos industriais e polos navais, com maciços investimentos públicos e privados, por estratégia geopolítica. Desde sua implantação, Rio Grande e Cubatão refletem situações e problemas similares:
ambos os distritos industriais foram impostos durante a ditadura militar brasileira, com um grande passivo socioambiental decorrente da contaminação do ar, do solo,
50Artigo original de Washington Ferreira e Bread Soares Estevam, apresentado durante a IIª Jornada Gaúcha de História Ambiental (Rio Grande: FURG, Setembro/2013).
181 das águas e alimentos pelos efluentes industriais (fertilizantes e refinaria, dentre outros).
A situação atual de caos urbano em Rio Grande (especulação imobiliária, hiperinflação e violência) e poluição (tintas tóxicas anti-incrustantes), decorrentes da implantação do recente polo naval, já havia sido registrada em Macaé, mas não foram consideradas as suas implicações no planejamento e gestão regional, ofuscadas pelo atendimento aos interesses políticos momentâneos e ao mercado transnacional. Em consequência deste processo, a precarização crescente das condições de vida da grande maioria da população contrasta com o massivo aporte de capital, tecnologia e mão-de-obra. Questionam-se, no caso, quais os reais benefícios para o conjunto da população local/regional e a insistente tentativa de negação/naturalização dos riscos e impactos socioambientais (dentre eles a Poluição Industrial) destes empreendimentos. A história se repete, ciclicamente, alternando cenários geográficos, mas incidindo sobre contextos e ecosociossistemas similares. O novo ciclo de revitalização da indústria portuária e naval do País, tal como seus precedentes, desconsidera as repercussões negativas sobre os territórios e populações, minimizadas diante do compromisso político assumido com a perpetuação de um modelo de desenvolvimento alicerçado no consumo de combustíveis fósseis, envolto na imagem de redenção social por ele proporcionado.
c) Conflitos Socioambientais da Expansão Portuária e Implantação do Polo Naval no Estuário da Lagoa dos Patos, RS51
No presente, o cenário regional testemunha grandes transformações, com a revitalização portuária e a implantação de seu Polo Naval, destinada à produção de embarcações de prospecção e exploração de petróleo e gás. Este novo ciclo econômico reforça e amplifica alguns conflitos socioambientais recorrentes e persistentes (DOMINGUES, 1997; MARTINS, 2010): para a instalação e/ou ampliação destes empreendimentos, são requeridas grandes áreas das margens estuarinas, promovendo a supressão de ambientes costeiros remanescentes (banhados, marismas, planos intermareais, ilhas e praias estuarinas).
51Artigo original (aqui condensado) de Washington Ferreira, Bread Soares Estevam e Maria do Carmo Galiazzi, apresentado durante o III° Workshop Internacional de História do Meio Ambiente (Florianópolis: UDESC, Novembro/2013).
182 Ele também provoca e/ou incrementa a contaminação da água, solo, sedimento e biota (pelos poluentes associados a estes processos e remobilizados pelas dragagens), o deslocamento compulsório de comunidades de pescadores e ribeirinhos, assentados há gerações nestas áreas (JULIANO et al., 2008; FERREIRA et al., 2011) e a importação de milhares de trabalhadores exógenos (incrementando a violência social e alimentando a xenofobia decorrente). As alterações induzidas por estas atividades econômicas na estrutura e processos socioecológicos comprometem a capacidade de suporte e a resiliência dos seus ecossistemas, a garantia de continuidade do modo de vida das populações afetadas e a qualidade de vida das gerações presentes e futuras.