• Nenhum resultado encontrado

A intelligentsia radical por fora das classes

1. A TELA

1.2. A intelligentsia radical por fora das classes

Mal o reinado de Alexandre II, o “emancipador”, havia começado e o czar cujas reformas estimularam as esperanças da geração de 1840 já podia perceber o preço das frustrações que despertara: havia decepcionado as expectativas das principais classes da sociedade russa. Aos olhos dos senhores de terras, os havia privado de seu domínio feudal sobre os camponeses. Quanto a estes, libertara-os do jugo da servidão apenas para deixá-los esmagados pela pobreza e pelas dívidas (com a emancipação, os antigos servos foram obrigados a ceder à nobreza grande parte das terras que tinham cultivado e a pagar pesados empréstimos para manter as que haviam conservado). Não obstante, ainda consideravam o czar um benfeitor e amigo, acreditando ser contra as suas intenções que a nobreza lhes usurpava os benefícios da emancipação.

A esta altura, uma pequena parte da população russa apenas começava a se desligar do campo para formar um proletariado industrial nas cidades em ascensão. Havia, no entanto, um produto da desagregação das velhas castas intermediárias que não encontrava suficientes ofertas de emprego, nem oportunidades para exercer a sua influência política. Rompia com a nobreza, com o clero e a burocracia, com seus costumes atrasados e suas tradições escravocratas. Mas também não se aproximava da burguesia, ainda demasiado passiva e subdesenvolvida. Sentia-se socialmente independente e ao mesmo tempo aprisionada pela repressão czarista. Desta maneira, após a abolição da servidão, o vago terreno fértil para as ideias revolucionárias foi quase exclusivamente ocupado por esta camada, mais precisamente por sua jovem geração de estudantes (os niilistas)43, que na sua maioria, por sua condição de vida, não se elevava acima do proletariado em formação e que, mais frequentemente, se encontrava abaixo dele.

43 O termo niilista se popularizou na Rússia com a obra Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev, publicada

originalmente em 1862. O termo foi aplicado ao protagonista, o jovem intelectual Bazárov, para descrever uma espécie de rebeldia cientificista que “não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio sem exames”. No livro, Turgueniev coloca em evidência a divisão das tendências políticas entre os jovens niilistas da geração de 1860 (“os filhos”) e os conservadores da geração de 1840 (“os pais”). Cf. TURGUENIEV, I. Pais e Filhos. São Paulo: Abril Cultural, 1971. p. 19 - 20.

Alexandre II não havia, como seu pai e predecessor Nicolau I, castigado a sociedade com açoites e execuções, mas ainda continuava a espancá-la. Suas reformas na imprensa e educação foram insignificantes: a vida espiritual do país continuava sob a tutela da censura. O Império, no entanto, necessitava de intelectuais e, mesmo contra a sua vontade, formava-os nas cadeiras de suas escolas. Mal havia passado tempo para livrar-se das relações sociais e dos costumes da Idade Média, e uma intelligentsia era educada na Rússia passando a acreditar que encontrava sua força nas ideias. A partir dos anos 60, esta geração assimilava a teoria segundo a qual a marcha progressiva da humanidade seria o resultado do pensamento crítico dos indivíduos44. Consequentemente, esta intelligentsia, que necessitava de uma mudança de regime, convertia-se em inimiga radical do Estado.

Ao mesmo tempo pouco numerosa e isolada, a intelligentsia recorreu ao direito de falar e atuar em nome do povo. Porém, na velha Rússia monárquica, povo era sinônimo de camponeses e, assim sendo, os membros desta nova intelectualidade urbana, que aderiram à causa do campesinato e de seu regime comunal de terras, vieram a ser identificados como populistas (narodniki). Já em seus primeiros grupos revolucionários, os populistas tomavam para si a tarefa de preparar uma insurreição camponesa. Em 1860, os levantes camponeses em diversos pontos do país provocaram o nascimento de uma pequena organização clandestina em São Petersburgo, a Jovem Rússia (Molodaia Rossiia), cujo objetivo era transformar completamente as bases da sociedade por meio da propaganda e agitação no campo. O governo respondeu com medidas repressivas. Por ter tentado dirigir um chamado aos camponeses, Nicolai Tchernichevski fora enviado ao presídio45

.

Tchernichevski era considerado um líder autêntico de sua geração; um dos principais pensadores do socialismo narodnik. Tendo sido parcialmente influenciado por Herzen46, vislumbrava na comunidade camponesa russa um meio de passar da formação social

44

Sob a influência das doutrinas de Piotr Lavrov e, principalmente, de Mikhail Bakunin, a intelligentsia definia o camponês russo como “socialista por instinto e revolucionário por natureza”; considerava que sua tarefa era chamar a uma destruição geral imediata, onde a Rússia iria desembocar em uma federação de comunas livres; pensava como evidente que era suficiente “espalhar as faíscas do pensamento crítico para que se erguessem as labaredas de um imenso incêndio nos bosques e estepes”, conduzindo a Rússia a uma revolução socialista camponesa (TROTSKY, op. cit., p. 40).

45 Impedido de escrever ensaios no cárcere, Tchernichevski se dedicou ao romance O Que Fazer? Publicado

entre o fim de 1862 e o início de 1863, este folhetim disfarçado de ficção camuflava através de metáforas o seu caráter político-revolucionário para driblar os censores. Tido em parte como uma “resposta” ao livro Pais e

Filhos, de Turgueniev, simbolizava o abandono do reformismo liberal da geração de 1840 em favor do caminho

revolucionário desejado pela geração de 1860, marcando profundamente a juventude russa de sua época e inspirando a obra homônima de Lênin quarenta anos mais tarde. Cf. TCHERNICHEVSKI, N. O Que Fazer? Curitiba: Prismas, 2015.

46 Herzen via a comunidade camponesa e a sua extensão para as cidades como um “fim” para todo o Estado;

então existente para um novo estágio de desenvolvimento, superior, por um lado, à própria comuna russa e, por outro, à sociedade capitalista europeia e seus já manifestados antagonismos de classe. Com sua prisão, o czar deveria acreditar que havia decapitado por muito tempo o movimento revolucionário da intelligentsia. Em abril de 1866, no entanto, um jovem ex-estudante surgido da pequena nobreza dispararia uma bala contra Alexandre II (não o atingindo, porém). Entre o primeiro panfleto da Jovem Rússia e a primeira agressão armada contra o czar não haviam transcorrido, assim, mais do que seis anos. Desta forma, os populistas encerravam brevemente o seu primeiro ciclo de pequenas dimensões: depois de uma tentativa de levante dos camponeses por meio da propaganda e agitação, chegavam ao terrorismo individual47.

A década de 1870 abriria um segundo ciclo revolucionário, de capacidade e envergadura muito mais consideráveis. A partir de 1873, ao renascer após uma breve trégua, o movimento adquirirá o caráter de uma cruzada da intelligentsia em direção ao povo. Jovens levariam a propaganda narodnik a todos os recantos do país, particularmente à região do Volga, em busca de sua herança rebelde. Estes jovens haviam rompido com o regime de exploração russo, queriam uma revolução completa, sem reformas, restrições ou medidas intermediárias. No entanto, ainda em sua infância revolucionária, estes propagandistas não possuíam experiência com organização dirigente, não tinham um programa claro e não sabiam atuar como revolucionários profissionais. O impulso populista da intelligentsia haveria de se chocar com o próprio povo, com a classe camponesa, o que determinaria a trágica marcha do movimento revolucionário russo nos anos 70 e 80.