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O quadro geral de uma luta interna

5. AS FORMAS

5.4. O quadro geral de uma luta interna

O primeiro parágrafo dos estatutos do POSDR, sobre os princípios de organização (espírito de círculo “anarquista” versus espírito de partido “formalista”), havia fendido “a gravura” do partido e, para Lênin, havia que costurá-la com um “nó duplo”. Os pontos seguintes dos estatutos, entretanto, suscitariam ainda mais controvérsias sobre pormenores do que o anterior. A propósito de uma questão “teórica”, Martov havia se revelado agora adversário e sua posição fora defendida também por outros delegados. Disto resultaria que a coligação dos “martovistas” (ou seja, de uma minoria de iskristas) com os anti-iskristas

(Rabotcheie Dielo, Bund, etc.) lhes dava relativo peso no congresso para a votação da composição pessoal dos centros e que estes poderiam votar, de acordo com seu estado de espírito, para “semear a cisão”. Os debates girariam, àquela altura, não à volta desta ou daquela maneira de se colocar o assunto em princípio, mas exclusivamente à volta da forma de assegurar ou impedir o acesso aos organismos centrais desta ou daquela pessoa. A minoria havia demonstrado ter esquecido completamente o ponto de vista de partido quanto à escolha dos funcionários, sem procurar sequer fazer uma apreciação de cada candidato para um cargo, de sua adequação ou não às funções desse cargo.

Toda a atividade do Iskra enquanto grupo particular havia sido uma luta por influência e, no segundo congresso, tratava-se agora de consolidar organicamente esta influência. Nesta segunda luta, Martov e a “minoria” sofreriam uma derrota na questão relativa à composição pessoal dos centros, onde buscavam exercer uma influência pessoal, sobretudo no Comitê Central, enquanto Lênin, através da organização, visava um organismo de dirigentes políticos (eliminando da “nova” orientação do Iskra os aspectos do “velho” espírito de círculo, inadequados a um organismo de partido, e apagando os traços de um organismo de literatos, com a participação de militantes práticos). Neste ponto, a organização do Iskra se tinha dividido completamente e a minoria queria tentar no congresso, através de uma batalha livre e aberta, conquistar a maioria, sem se dar ao trabalho de esboçar um “quadro geral” da discussão (o que justamente Lênin procurava fazer com Um passo em frente, dois passos atrás).

Ao terminar a análise minuciosa dos debates e das votações, Lênin se propôs a pintar esse “quadro geral” da luta no congresso: que elementos, grupos e matizes acabariam por formar a maioria e a minoria nas eleições (que estavam destinadas a constituir a divisão fundamental do partido social-democrata russo). Para Lênin, sem tal “quadro geral” de todo o congresso e de todos os principais agrupamentos nas votações, os materiais ficariam demasiado fragmentados, dispersos, de maneira que, à primeira vista, poderiam parecer, inclusive, eventuais. Para obter esse “quadro único no seu gênero, insubstituível pela sua plenitude e exatidão, da luta interna do partido, dos seus matizes de opinião e dos seus grupos” (LENINE, 1986, p. 311, grifo do autor), Lênin representara as divisões no congresso sob a forma de diagrama. Os resultados, “para resumirem de maneira completa e precisa os grupos”, eram acompanhados das seguintes designações: 1) sociais-democratas revolucionários consequentes (iskristas da maioria); 2) pequenos oportunistas (iskristas da minoria); 3) oportunistas médios (“centro”); 4) grandes oportunistas (anti-iskristas).

Em outros termos, os três últimos grupos, ainda em minoria, formavam precisamente a ala “direita” (“democrática”) do partido. A divisão entre esta minoria (menchinstvo) e a maioria (bolchinstvo)100, “centralista”, era, deste modo, a continuação direta e inevitável da divisão da social-democracia russa nos polos oportunista e revolucionário. O erro de Martov e Axelrod havia sido relativamente “pequeno”, mas este pequeno erro acabara por causar um grande dano, em virtude de Martov ter se deixado atrair por outros delegados que historicamente haviam cometido uma série de erros e que, a propósito de uma série de questões, haviam evidenciado a sua inclinação para o oportunismo e, também, a sua inconsequência no terreno dos princípios. Tais erros, contudo, não haviam sido individuais, mas, antes, de partido: a formação de uma minoria considerável de todos os elementos menos estáveis, de todos aqueles que não reconheciam em absoluto a tendência do Iskra e a combatiam abertamente, ou que a reconhecendo verbalmente de fato se colocavam repetidamente ao lado dos anti-iskristas. Ou seja, o “pequeno” erro de Martov e Axelrod poderia permanecer pequeno enquanto não servisse de ponto de partida para uma aliança sólida entre eles e toda a ala oportunista do partido.

Mais uma vez, Lênin sublinhava que o fato de o congresso (e o partido) ter se dividido em uma ala revolucionária e outra oportunista era, na verdade, algo que se repetia nos últimos dez anos da história da social-democracia russa. Que uma série de erros bem “pequenos” pudessem ter sido cometidos pela ala minoritária da “direita”, de divergências sem grande importância terem provocado a divisão, esta seria uma circunstância que ao observador superficial poderia parecer absurdo, mas que, na realidade, fora um grande “passo em frente” no âmbito do partido em seu conjunto. Antes as divergências se davam sobre grandes questões que, por vezes, podiam até justificar uma cisão; havia, àquela altura, no entanto, acordo sobre os pontos importantes e o que os distinguiam eram simplesmente certos matizes que se deveriam discutir, mas pelos quais seria absurdo e pueril se separar. A recusa da minoria do congresso em ser minoria nos centros havia levado a queixas pessoais e, posteriormente, a frases e atos anarquistas dos “intelectuais” vencidos. O resumo dos debates, votações, agrupamentos e divisões, falas e ações, poderia explicar tudo o que se passaria após o congresso (as etapas seguintes da crise no partido).

100 Os delegados de orientação iskrista “dura” (partidários de Lênin) obtiveram a maioria dos votos durante a

eleição dos organismos centrais do partido e passaram a ser denominados bolcheviques (da palavra russa

bolchinstvo, que significa maioria), enquanto os “oportunistas” (iskristas “brandos”, “centro” e anti-iskristas),

que obtiveram a minoria, receberam a denominação de mencheviques (da palavra russa menchinstvo, que quer dizer minoria).

A recusa de Martov para fazer parte (como minoria) de uma “nova” redação do Iskra (composta pela maioria), assim como a de outros literatos do partido a colaborar, a recusa de várias outras pessoas a trabalhar no Comitê Central, a propaganda da ideia de boicote ou mesmo “resistência passiva”, tudo isso conduzia inevitavelmente à ruptura no partido. Estar em minoria, observava Lênin, implicava necessariamente em certas desvantagens para quem ficasse em minoria. Estas desvantagens consistiam ou na necessidade de fazer parte de um organismo de direção no qual a maioria se imporia em certas questões, ou a de permanecer fora do organismo, atacando-o e, por este motivo, expondo-se ao fogo de baterias fortificadas. Para Lênin, as atitudes “rebeldes” da minoria revelavam a psicologia de intelectual burguês de certos membros, que se consideravam “espíritos de elite” e colocavam- se acima da organização das massas e da disciplina das massas.

Conscientes da impotência para convencer o partido, a minoria agia desorganizando-o e emperrando o seu trabalho. Boa parte das respostas conferidas mostrava que a famosa lealdade e reconhecimento às decisões do congresso eram apenas frases, e que, na realidade, seus elementos haviam decidido terminantemente não se submeter aos organismos centrais do partido, respondendo aos seus apelos para o trabalho em comum com evasivas e “sofismas”, e acusando a direção “autocrática” do partido (“os gritos a propósito do famoso burocratismo do partido não seriam um descontentamento com a composição pessoal dos centros?”, perguntava Lênin). Ao defender-se da acusação de burocratismo, Lênin distinguia: “O burocratismo significa a submissão dos interesses da causa aos interesses da carreira, significa prestar uma atenção constante aos cargos e ignorar o trabalho; bater-se pela cooptação em vez de lutar pelas ideias” (LENINE, 1986, p. 332, grifo do autor).

A minoria, por sua vez, extraindo citações de O Que Fazer? e da Carta a um Camarada, em que se falava de ação ideológica, luta pela influência etc., continuava a atacar o método “burocrático” de ação por meio de estatutos, a tendência “autocrática” para se apoiar no poder, etc. Lênin explicava que, antes, o partido não era um todo formalmente organizado, mas apenas uma soma de grupos particulares, pelo que entre esses grupos não se podia haver outras ligações senão pela ação ideológica. Àquela altura, porém, o partido era já organizado; isto implicava a criação de um poder, a transformação da autoridade das ideias em autoridade do poder, a subordinação das instâncias inferiores às instâncias superiores do partido. As posições de Lênin, no entanto, não seriam tão facilmente assimiladas. Mesmo entre os iskristas da maioria, um respeitado “colega de ofício”, de grande projeção em todo o partido, as iria contestar e realizar também a sua própria virada.