2 Referencial Teórico
2.6 A Interação Social e o Construto Presença
As investigações sobre a interação social têm merecido muita atenção por parte dos pesquisadores de diversas áreas, seja da psicologia, da sociologia, da educação, não ficando à educação a distância à parte desta problemática. A partir de um levantamento do estado da arte sobre a educação a distância, por exemplo, Saba (2000 apud FRANCISCO et al, 2005) identificou que a interação constitui um tema recorrente e transversal a diversas pesquisas, as quais não se restringiam à discussão da distância física e geográfica entre os indivíduos, mas discutida a partir de uma perspectiva ampliada do processo de ensino-aprendizagem a distância, envolvendo aspectos distintos que podem afetar a qualidade da interação.
A interação social é considerada como um dos aspectos primordiais do desenvolvimento humano, das relações interpessoais, da comunicação e, também, do processo de ensino-aprendizagem. É um elemento capaz de diminuir a distância e criar proximidade, constituindo, portanto, uma parte inseparável do processo de ensino-aprendizagem (FRANCISCO et al, 2005).
Esses aspectos sociais também interferem na comunicação mediada por computador. O ensinar e o aprender mediado por tecnologia implicam o estabelecimento de relações interpessoais e educacionais, ou seja, interações ou transações. Estes dão suporte à aprendizagem e ao ensino, afastam o ato de aprender e de ensinar como se fosse um ato mecânico, socialmente descontextualizado ou isolado (FRANCISCO et al, 2005). A educação a distância possibilita níveis altos de interação entre os envolvidos, tutor e estudante e entre estudantes, apresentando com isso potencial para expressar modelos de ensino-aprendizagem que se baseiam na interação social.
Um modelo teórico precursor da noção de presença em experiências de aprendizagem em meio eletrônico, por exemplo, é a comunidade de investigação, também conhecida como
comunidade de inquirição, do inglês community of inquiry (GARRISON, 1991), a qual se baseia no princípio de que a experiência de aprendizagem deve envolver o desenvolvimento e integração de três tipos de presença: a cognitiva, a social e a docente ou de ensino, conforme pode ser observado na figura 5 (2).
Presença Social Presença Docente Presença Cognitiva Experiência Educacional Comunidade de Investigação Presença Social Presença Docente Presença Cognitiva Experiência Educacional Presença Social Presença Docente Presença Cognitiva Experiência Educacional Comunidade de Investigação
Figura 05 (2) – Comunidade de Investigação
Fonte: Garrison; Anderson; Archer (2000).
A presença cognitiva refere-se a como o estudante constrói significado e conhecimento por meio da comunicação mediada por tecnologia. É vista como um elemento essencial na experiência educativa no ensino superior. Esta presença garante que a aprendizagem relevante ocorra em um ambiente que suporta o desenvolvimento de capacidades de raciocínio complexo e crítico (GARRISON, 1991; FRANCISCO et al, 2005; MOTA; JORGE, 2006).
A presença social é referente à projeção emocional e social do aprendiz no ambiente. Nesse sentido, é essencial garantir o estabelecimento de um ambiente em que os estudantes se sintam à vontade e em segurança para exprimir as suas ideias em um contexto colaborativo. Funciona como um suporte da presença cognitiva e facilita o pensamento crítico empreendido pela comunidade de aprendizes. A sua junção com a presença de ensino possibilita que se
estabeleçam níveis elevados de presença cognitiva (GARRISON, 1991; FRANCISCO et al, 2005; MOTA; JORGE, 2006).
A presença docente, ou de ensino, é relativa à preparação e gestão didáticas, dos conteúdos e recursos do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). Refere-se à facilitação, ao desenho e à orientação de processos cognitivos e sociais no sentido de alcançar resultados de aprendizagem significativos. Constitui na ação do professor para criar uma comunidade de investigação que inclua a presença cognitiva e social (GARRISON, 1991; FRANCISCO et al, 2005; MOTA; JORGE, 2006). Seu processo envolve o desenho e organização com a estruturação, planejamento e acompanhamento da aprendizagem; facilitação do discurso a partir da promoção, suporte e regulação das interações e discussões; a instrução direta a partir da associação do papel do professor enquanto especialista, providenciando informação, esclarecendo mal-entendidos ou interpretações erradas dos conteúdos e orientando as discussões e a aprendizagem para se alcançarem resultados relevantes. Embora a presença docente seja um elemento da responsabilidade do professor, em determinadas circunstâncias, os estudantes assumem também uma parte dessa responsabilidade (GARRISON, 1991; MOTA; JORGE, 2006). Mota e Jorge (2006) ressaltam que, em uma comunidade de investigação, todos os participantes têm a possibilidade de contribuir para essa mesma presença de ensino e, à medida que os participantes vão se desenvolvendo social e cognitivamente, a presença de ensino vai se tornando gradualmente mais distribuída.
Machado (2009) constatou que é possível a existência da presença social em ambientes virtuais de aprendizagem e as pessoas podem estar conectadas a um ambiente virtual e sentirem-se tão presentes como se estivessem em um ambiente presencial. As pessoas podem ter um aproveitamento do curso e perceberem sua qualidade e a presença dos colegas, portanto as situações de aprendizagem que demandam uma presença social pouco importam se são presenciais ou virtuais. Para esse autor, o que vai influenciar no sucesso de
um curso são suas estratégias de ensino, organização, pessoal capacitado, tipos de material didático, metodologias de ensino etc., e não o fato de o curso ser a distância ou em sala de aula convencional. Além de que o sentir-se presente não necessariamente precisa de uma construção física, pois o virtual também pode proporcionar essa sensação.
A partir desta seção, pode-se ressaltar a importância da interação social e da presença social, cognitiva e docente para a efetividade da educação a distância. Analisando os conceitos abordados, parece ser possível inferir que o estar presente não se limita a estar presente fisicamente, mas sim interagir com os atores envolvidos no processo e se projetar emocionalmente. Esses dois aspectos fundamentais para a educação parecem não ser inerentes à modalidade de ensino, mas essenciais para qualquer processo de aprendizagem, o que contribui com o argumento da tese de que não se pode fazer uma separação entre o mundo real, no contexto da educação em que o professor e o aluno se encontram em um mesmo espaço físico, e o mundo virtual, no contexto da educação a distância em que o professor e o aluno se encontram no AVA.
A seguir, serão mostradas as maneiras nas quais a Internet pode ser vista no dia-a-dia das pessoas a partir da perspectiva de Hine (2000), a noção do virtual a partir da perspectiva de Lévy (1996), o paradigma da complexidade de Morin (2000) e a relação dessas visões com esta tese.