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2 Referencial Teórico

2.7 Sobre a Internet, o Virtual e a Complexidade

2.7.2 A Internet na Visão de Hine (2000)

Embora trate do desenvolvimento de metodologia para investigar a Internet ou uma etnografia situada na rede, em seu livro Virtual Ethnography, Christine Hine (2000 p. 2) também busca compreender como a Internet está sendo utilizada e incorporada ao dia-a-dia das pessoas. Segundo a autora, o livro contribui para o debate da significância do recente desenvolvimento na tecnologia da comunicação. Procura, ainda, responder se existe diferença na maneira na qual a vida real e a vida virtual são organizadas, caso positivo, como as pessoas conciliam essas duas vidas; se as experiências virtuais são radicalmente diferentes ou separadas das reais; e se existe uma fronteira entre o online e o offline. Para isso, a autora adentra no tema cultura. Assim, entende-se que é possível tecer analogias a partir da visão da autora.

Hine (2000) observou na literatura duas maneiras distintas de ver a Internet. Em uma a Internet representa um lugar, o cyberspace, no qual a cultura é formada e reformada. Na outra, a Internet é vista como um artefato cultural, ou seja, um produto da cultura, construído por um grupo de pessoas com objetivos e prioridades dentro de um contexto. Contudo, a autora acredita que esses aspectos estão imbricados e para se ter o conhecimento de um fenômeno é importante interpretá-lo a partir das duas perspectivas.

Na primeira perspectiva, a Internet como cultura, Hine (2000) menciona que ao buscar um novo campo de estudo para a etnografia e focar na construção das fronteiras dos espaços sociais, os proponentes da cultura online deram muita importância para a separação entre o

online e o offline (HINE, 2000). Para a autora, a interação entre os vários espaços sociais, seja online ou offline, devem ser explorados, mesmo que essa seja uma tarefa que não possa ser

desconsidera-se o processo social offline que contribui para o entendimento do uso da Internet como algo significativo. Estudos em Comunicação Mediada por Computador (CMC) nas organizações, por exemplo, sugerem que seu sucesso e uso dependem mais fortemente do contexto em que a CMC é usada, do que de fatores inerentes da mídia propriamente dita (MANTOVANI, 1994).

Na segunda perspectiva, Internet como artefato cultural, em contraste com muitas teorias que tomam a Internet como um artefato material, acredita-se ser difícil dizer onde a Internet começa e onde termina; e o que é significativo quando termos como computadores, protocolo, programas, conteúdo domínios e endereço de e-mails são usados. Tanto sua produção quanto seu consumo estão dispersos por muitas localidades, instituições e indústrias. A Internet é o objeto criado mais discutido como um artefato singular (HINE, 2000).

Contudo, a capacidade da tecnologia não é facilmente aparente e disponível para aqueles que a adquirem. Ao contrário, é elaborada em processos de negociação e interpretação que acontecem em um contexto específico na qual a tecnologia é comprada e usada. A aplicação do molde social dirigido a Internet pode conduzir a examinar detalhes das representações da tecnologia através de sua história, focando nas representações de conflitos e nos grupos sociais que deles emergem. O desenvolvimento da Internet pode estar ligado mais fortemente a uma conseqüência do processo social contingente do que necessariamente um resultado da sua lógica técnica ou desejos humanos (HINE, 2000).

Para a Hine (2000), entender mídia envolve olhar tanto seu conteúdo quanto a maneira nas quais esses são produzidos e usados. Ao entender a Internet como uma cultura e como um artefato cultural, parece que a ênfase pode ser dada no significado do produto, no contexto. Esse contexto pode ser entendido tanto como as circunstâncias na qual a Internet é usada (offline), quanto no espaço social que emerge através de seu uso (online) (HINE, 2000).

Castells (1996) introduz, ainda, a ideia de que uma nova forma de espaço tem ganhado bastante importância nas estruturas sociais de relacionamento. Esse espaço é chamado pelo autor de espaço de fluxo ou corrente, em contraste com a visão do espaço enquanto um lugar, no fluxo a organização é feita por conexão em detrimento de localidade. Fluxos de pessoas, informações, dinheiro, circulam entre nós que formam uma rede de associações cada vez mais independente de um contexto local específico. Analogicamente, Hine (2000) sugere que o campo etnográfico do site pode se tornar um campo de fluxo, que é organizado em torno dos traçados das conexões em detrimento de lugares na fronteira singular do site.

Ao abandonar a ideia da fronteira online-offline como uma barreira de análise, permite-se uma transversalidade a partir da maneira na qual as conexões são montadas (HINE, 2000). Essa forma de conexão se mostra reticente sobre uma “real” existência de lugares e categorias. Assim, o ciberespaço não deve ser pensado como um espaço independente ou isolado de qualquer conexão da “vida real” e da interação face a face (HINE, 2000). Este possui conexões ricas e complexas com o contexto na qual é usado. Também depende da tecnologia que é usada e entendida de forma distintas em diferentes situações, e que deve ser adquirida, aprendida, interpretada e incorporada ao contexto. Estas tecnologias mostram um alto nível da flexibilidade interpretativa.

Os meios interativos, tais como a Internet, podem ser compreendidos como cultura e artefato cultural. Ao concentrar-se em apenas um aspecto e excluir o outro aspecto leva-se a uma visão empobrecida (HINE, 2000), sendo falacioso dissociar o online do offline e a vida virtual da vida real, pois estão imbricadas. É nesse sentido que a autora faz uso do termo etnografia virtual em detrimento do termo mais comum netnografia, pois o primeiro remete a necessidade de trabalhar o online e o offline de forma não-fragmentada, ou seja, ao mesmo tempo como um lugar e um artefato cultural; já o segundo vê a Internet como um lugar, o

O embasamento desta tese em Hine (2000) parece pertinente se pensarmos

online/offline e mentoria/e-mentoring enquanto uma construção análoga do conhecimento.

Em se tratando de um tema relativamente novo na realidade brasileira e novo também ao associar os temas mentoria, e-mentoring no contexto da educação a distância em administração, o uso de analogias teóricas parece necessário para a construção do argumento.

Assim, para Hine (2000), não é possível fazer uma distinção do online e offline e, embora circunscrita na rede, a autora defende que aspectos fora dessa rede devem ser levados em consideração, pois essa dissociação não é possível. Analogicamente, poderíamos considerar limitado tratar a mentoria face a face e a mentoria circunscrita na rede de computadores, ou e-mentoring como nomeia a literatura da área, de forma separada. Corroborando a perspectiva da teoria da complexidade de Morin (2000), tal distinção poderia levar a polarização do construto fazendo com que este fosse discutido de forma exclusivamente singular em detrimento de uma visão global o que pode levar a um entendimento limitado do fenômeno.