2. Investimento Directo Estrangeiro – Localização e deslocalização de empresas:
2.5 Explicações gerais da actividade das firmas multinacionais
2.5.3 Teoria Sintética
2.5.3.1 A interacção entre vantagens competitivas e comparativas
De acordo com Mucchielli (1987), são as diferenças entre países que estão na base dos fluxos internacionais, sejam eles de troca ou de investimento. Segundo o autor, os factores decisivos para a troca de bens a nível internacional são comparáveis aos factores que levam ao investimento. Deste modo, para que as trocas sejam levadas a cabo, devem existir diferenças entre os países, grupos ou indivíduos. Esta diferença reflecte-se numa divergência de preços relativos dos produtos, sendo essa mesma divergência que conduz às trocas.
A verificação de certas condições levará ao surgimento ou não de trocas a nível internacional:
- Similitude de funções de produção entre países;
- Idênticas dotações factoriais entre parceiros comerciais;
- Similitude dos gostos dos agentes económicos em diferentes países;
- Impossibilidade de exploração de economias de escala na produção de todos os bens;
- Inexistência de distorções ao nível dos mercados dos bens finais.
Se todas estas condições se verificarem, não haverá lugar a trocas, dado que não haverá diferença de preços relativos. Caso uma das condições não se aplique, ou várias, há lugar a uma diferença nos preços relativos, permitindo a troca, dado que cada parceiro pode beneficiar de vantagens comparativas num ou em vários produtos.
Estabelecendo o paralelo entre os factores que levam às trocas internacionais com os factores que levam ao investimento, segundo Mucchielli (1987), pode dizer-se que:
- Diferenças na tecnologia – O estabelecimento da empresa no estrangeiro baseia-se numa superioridade tecnológica em relação às restantes empresas. A escolha entre exportar, licenciar ou relocalizar a produção é função de factores associados com o desejo de manter aquela vantagem tecnológica o maior tempo possível. Quando a opção tomada vai no sentido da relocalização, esta deve ter na sua base o objectivo de aquisição de uma nova tecnologia num país onde esta se encontre num estado mais avançado, através de um processo de learning-by-
doing;
- Diferenças nas dotações factoriais – A empresa relocaliza-se para um país onde a abundância relativa de um dado factor de produção lhe dá a oportunidade de reduzir os custos. Este tipo de investimentos está, na maioria dos casos, associado a mão-de-obra barata. Não obstante, a relocalização pode ficar a dever-se igualmente a uma abundância relativa em trabalho qualificado (menos móvel do que outro capital). Por último, a relocalização pode ser realizada como forma de aproveitar a exploração de vantagens em termos de recursos naturais e matérias-primas;
- Diferenças nos gostos – A adaptação da produção da empresa às características da procura é facilitada pela proximidade entre a própria empresa e o consumidor;
- Economias de escala – À dimensão do mercado do país de destino podem ter- se associadas economias de escala. Deste modo, quanto maior for o mercado ou o seu potencial de expansão, mais baixos são os custos fixos de estabelecimento em relação às vendas e lucros esperados. A relocalização acontece mais facilmente à medida que a dimensão do mercado torna mais barato produzir localmente ao invés de exportar. A possibilidade de exploração de economias de
escala por parte das firmas multinacionais configura-se numa vantagem em relação às firmas nacionais, na medida em que aquelas abrangem vários países e, por conseguinte, vários mercados;
- Distorções nos mercados de produtos – Estas distorções correspondem a barreiras à concorrência pura e perfeita, levando as empresas a tentar superá-la através de IDE, por exemplo;
- Distorções e diferenciais nas remunerações nos mercados de factores – O investimento fora do país de origem apresenta-se como uma das formas que as empresas encontraram para superar certas distorções existentes nos mercados de factores, bem como para beneficiar de diferenciais vantajosos na remuneração dos factores de produção.
No contributo teórico de Mucchielli denota-se uma clara interacção entre as vantagens ao nível das empresas e as vantagens dos países. As primeiras têm o seu enquadramento no conceito de vantagem competitiva de Porter, ao passo que as segundas são englobadas no conceito de vantagem comparativa, mas de forma alargada, de modo a englobar, para além dos custos comparados em termos de dotações factoriais e de tecnologia global (desfasamento tecnológico sectorial, ambiente relativo a I&D, etc.), aquelas que resultam de características estáticas e dinâmicas da procura interna, como atrás se viu.
Da combinação entre os elementos da procura e oferta tanto da empresa como dos países – a empresa oferece produtos e procura factores de produção e os países procuram produtos (através dos consumidores) e oferecem factores produtivos (através do mercado de factores) – surgirão situações de concordância e de discordância, sendo que a cada uma delas se poderá fazer corresponder uma determinada via de penetração
no exterior. Sempre que a empresa considerar que existe uma discordância significativa entre as suas vantagens específicas e as condições de oferta e procura do seu país de origem, será levada a encontrar uma localização alternativa. Assim, partindo dos conceitos de vantagens comparativas e vantagens competitivas, Mucchielli estabelece as seguintes condições:
• Para a empresa:
- No que toca à oferta de produtos, se a oferta é forte em relação às restantes empresas, a empresa tem vantagem competitiva na oferta de produtos (+). Mas, se, por outro lado, a empresa é fraca naquela oferta, tem desvantagem competitiva (-);
- Ao nível da procura de factores de produção, se a empresa é forte relativamente às restantes na procura de factores, então apresenta vantagem competitiva nessa mesma procura (+). Se a empresa é fraca na procura de factores, tem desvantagem competitiva na procura de factores (-);
• Para o país:
- Ao nível da oferta de factores produtivos no mercado de factores, a verificar-se uma forte oferta em relação a países terceiros, o país tem uma vantagem comparativa (+). Mas, se esta oferta for fraca, o país tem uma desvantagem comparativa (-) em relação aos restantes;
- Quanto à procura de produtos através dos consumidores, se esta for forte no país em relação a países terceiros, o país tem vantagem na procura de produtos (+). Se a procura é fraca, o país possui uma desvantagem comparativa (-).
Tendo como base estas condições, existem várias combinações possíveis de sinais (Tabela 5), sendo que para a empresa apenas interessam aquelas situações em que é plenamente competitiva (+,+) ou não competitiva (-,-). Cada uma daquelas combinações vai determinar um modo de penetração no exterior.
Tabela 5 – Combinação entre vantagens competitivas das empresas e vantagens comparativas dos países
Via de penetração no exterior
Empresa – Vantagens competitivas País – Vantagens comparativas Procura de
factores Oferta de produtos Oferta de factores Procura de produtos
1. Produção e venda no mercado
nacional + + + +
2. Saída de IDE e venda no
estrangeiro + + - -
3. Saída de IDE e venda no
mercado nacional + + - +
4. Exportação + + + -
5. Entrada de IDE e venda no
mercado nacional - - + +
6. Importação - - - +
7. Entrada de IDE e venda no estrangeiro
- - + -
8. Produção e venda no estrangeiro - - - - Nota: (+) se empresa/país apresenta vantagem; (-) se empresa/país apresenta desvantagem.
Fonte: Adaptado de Mucchielli (1991)
Da observação da tabela anterior, constata-se que, nas situações de concordância total (casos 1 e 8), não haverá lugar a internacionalização da empresa. No caso 1 há uma compatibilidade total entre os elementos da oferta e procura tanto da empresa como do país, pelo que a empresa opta por levar a cabo a produção e venda no mercado nacional. No extremo oposto (caso 8), existe uma incompatibilidade total visto nem o país apresentar vantagem comparativa, nem a empresa possuir vantagem competitiva.
Nos casos de discordância total (casos 2 e 5) está-se perante duas situações em que se verifica a realização de IDE: pode existir lugar a IDE por parte da empresa, mas com venda no exterior, dado que o país não apresenta vantagem comparativa a nenhum nível (caso 2) ou, pode verificar-se uma entrada de IDE no país por parte de empresas
estrangeiras, dado que a empresa não apresenta vantagem competitiva, por um lado e, por outro, o país tem vantagem comparativa tanto na oferta de factores como na procura de produtos (caso 5).
Os restantes casos configuram situações de discordância parciais, conduzindo a formas de internacionalização distintas que vão da produção no exterior e venda no mercado nacional (caso 3), produção no país por parte de empresas estrangeiras e venda no estrangeiro (caso 7), produção no país e exportação (caso 4) e, por último, importação de bens produzidos no exterior por outras empresas (caso 6).
Em resumo, da teoria de Mucchielli decorre que os países de acolhimento mais atractivos serão aqueles em que se verifica um grau maior de discordância entre as suas vantagens comparativas e as vantagens específicas das respectivas empresas.
Este quadro teórico tem uma aplicação muito interessante na explicação do fenómeno da decomposição internacional do processo produtivo (DIPP), ou seja, a existência de actividades de produção do produto em diferentes países. Certos produtos, pelo seu grau de complexidade, permitem uma decomposição em subconjuntos ou componentes susceptíveis de serem fabricados de forma independente em países distintos. A produção de subconjuntos ou componentes em diversos países evidencia que a discordância ou concordância entre vantagens competitivas e comparativas não se verifica ao longo de todo o processo produtivo. Perante situações de discordância parcial podem ter-se soluções diferenciadas para os vários segmentos do processo produtivo. Deste modo, por exemplo, a concepção do produto, por ser, geralmente, muito intensiva em I&D, é levada a cabo no país de origem; os restantes estádios de produção e venda do produto final podem ser dispersos por vários países através de filiais (comércio intra-firma), redes de subcontratação ou acordos intra-firmas. Destaca- se aqui que, a partir da DIPP, as empresas retiram ganhos específicos de segmentação,
passando a sua vantagem competitiva, em termos do produto final, a reflectir as vantagens comparativas dos países onde estão localizados os diferentes segmentos produtivos.