3. Determinantes do país de destino para o IDE
3.4 Determinantes económicos – a visão tradicional
Os determinantes económicos tradicionalmente presentes na literatura económica podem ser agrupados em três categorias, cada uma delas reflectindo a principal motivação que conduz uma empresa a investir no estrangeiro: i) resource-seeking, ii)
market-seeking e iii) efficiency-seeking. Outra categoria é também apresentada por
Dunning (1993): iv) strategic asset or capability-seeking.
Embora estas categorias tenham sido construídas com base na motivação principal das empresas quando investem no estrangeiro, uma firma multinacional pode incluir-se, ao longo da sua existência, em categorias distintas. Assim, em fases iniciais, as firmas multinacionais inserem-se primeiramente nas categorias i) e ii), passando posteriormente, à medida que o seu grau de internacionalização vai aumentando, pelas categorias iii) e iv), de forma a conseguirem melhorar a sua posição no mercado global
(Dunning, 1993). De notar que nos anos 1990’s muitas firmas multinacionais tinham em vista vários objectivos, sendo que muitas envolviam-se em IDE que combinava características de cada uma das categorias acima mencionadas.
3.4.1 Existência de recursos
Ao nível da existência de recursos, historicamente, o determinante do país de destino mais importante tem sido a disponibilidade de recursos naturais. Contudo, para além dos recursos naturais, outros assumem cada vez maior importância, como sejam a mão-de-obra e, mais recentemente, existência de capacidade tecnológica, competências de gestão e marketing e competências organizacionais.
De acordo com a categorização feita anteriormente, na categoria resource-seeking, encontram-se empresas cuja motivação para investir fora do seu país é a procura de recursos específicos a um custo real mais baixo do que aquele praticado no seu país de origem. Com isto, a empresa procura tornar-se mais rentável e competitiva nos mercados que serve. Nesta categoria podem ser agrupadas empresas que procuram recursos físicos (produtores primários e empresas transformadoras de países desenvolvidos ou em desenvolvimento que têm como motivação a minimização de custos e a segurança de abastecimentos), grandes quantidades de mão-de-obra não qualificada ou semi-qualificada (empresas multinacionais de serviços e transformadoras de países com custos de mão-de-obra reais elevados) e aquelas que procuram capacidade tecnológica, competências a nível de gestão, marketing e organizacionais (Dunning, 1993).
Embora a disponibilidade de recursos naturais no país de destino tenha sido um dos determinantes com maior relevância ao longo dos tempos, a partir de 1960’s e 1970’s, a sua importância relativa tem vindo a declinar. De facto, a disponibilidade de recursos naturais, por si só, não é suficiente para que tenha lugar IDE (World Investment Report, 1998). O investimento ocorre quando um país abundante em determinado recurso não tem capacidade financeira para o extrair ou não possui capacidades técnicas necessárias para a sua extracção ou venda ao resto do mundo. Com efeito, superadas aquelas dificuldades, a vantagem comparativa em termos de recursos naturais conduz, na maioria dos casos, a trocas em vez de IDE. Para que o IDE seja atraído para os países abundantes em determinados recursos, para além da disponibilidade dos próprios recursos, devem existir ou ser criadas condições a nível de infra-estruturas facilitadoras da saída dos mesmos para fora do país em direcção ao seu destino final.
3.4.2 Mercados nacionais
Em grande parte dos casos, a partir de certa altura, para que uma empresa possa crescer e/ou permanecer competitiva, é necessário aceder a novos mercados domésticos ou estrangeiros e/ou aumentar as quotas de mercado existentes. Dada esta necessidade, as características dos mercados do país de destino configuram-se como determinantes de atracção para o IDE market-seeking. Desta forma, os aspectos mais valorizados pelas firmas transnacionais prendem-se com a dimensão do próprio mercado tanto em termos absolutos como em relação à dimensão e rendimento da sua população, por um lado e, por outro, ao seu crescimento. Grandes mercados podem acolher mais firmas
domésticas e estrangeiras e permitem o aproveitamento de economias tanto de escala como de variedade.
Tradicionalmente, a existência de tarifas ou quotas em certos mercados, que limitavam o comércio internacional, levavam a que a opção de investimento directo fosse considerada como forma de ultrapassar tais obstáculos. Estas tarifas e quotas representam obstáculos para o comércio de bens transaccionáveis, aumentando o seu custo, tornando o IDE uma opção a considerar. Mas, no caso de muitos serviços não transaccionáveis, o estabelecimento no estrangeiro é absolutamente necessário, pelo que as características de mercado podem ser o principal determinante para o IDE.
De acordo com Dunning (1993), as firmas que se enquadram na categoria de
market-seeking consideram a hipótese de IDE em mercados que normalmente já eram
servidos através de exportação quando, por um lado, existem tarifas e outras barreiras à entrada que elevam o custo dos bens e, por outro, quando a dimensão desse mercado já justifica investimento directo.
Para além da dimensão do mercado e das potencialidades para o seu crescimento, Dunning (1993) avança ainda com outras razões que conduzem a firma a investir no estrangeiro:
- Os principais fornecedores ou clientes da firma multinacional instalaram produção no estrangeiro, e esta segue-os de modo a continuar a fazer negócios com aqueles;
- Necessidade de adaptar os produtos aos gostos e necessidades locais e às capacidades e recursos do país de destino;
- Custos de fornecimento e custos de transacção são inferiores àqueles que a empresa incorre operando à distância;
- A firma multinacional pode considerar necessário levar a cabo actividades de produção em determinado país, tendo em conta a sua estratégia global de produção e marketing e;
- Políticas de atracção de IDE por parte dos governos nacionais.
Das várias razões apresentadas por Dunning, a última é aquela que se reveste de maior importância. Mais uma vez, o papel dos governos poderá influir, em grande medida, nos fluxos de entrada de IDE.
3.4.3 Outros factores
Para além da procura de recursos, mercados nacionais, muitas das empresas investidoras estrangeiras procuram alcançar a eficiência desses mesmos investimentos. Para que tal eficiência seja alcançada, outros factores têm de ser tidos em conta por aquelas empresas, enquadradas na categoria de efficiency-seeking. A motivação do IDE
efficiency-seeking é racionalizar a estrutura dos investimentos estabelecidos baseados
em recursos ou procura de mercado, de tal forma que a empresa investidora consiga ganhar a partir de uma estrutura de gestão comum de actividades dispersas geograficamente.
Para este tipo de empresas, a obtenção de vantagens derivadas de diferenças de disponibilidade e custo de factores tradicionais como seja por exemplo o trabalho, são essenciais. Assim, a disponibilidade de mão-de-obra não qualificada e a baixo custo, amplamente imóvel, tem sido um dos factores de maior importância para este tipo de empresas, sobretudo para aquelas produtoras de produtos finais trabalho-intensivos ou
para aquelas produtoras de produtos finais para os quais em algum estádio de produção, geograficamente disperso dos restantes, se recorre intensivamente a mão-de-obra não qualificada. Para estas empresas interessa, não só abundância de mão-de-obra, mas também baixos custos relativamente à produtividade da mesma.
Tirar partido das vantagens que derivam das diferenças de disponibilidade e custo de factores de produção tradicionais em diferentes países não é a única motivação das firmas efficiency-seekers. Estas firmas procuram também, segundo Dunning (1993), tirar partido de economias de escala e de variedade e das diferenças nos gostos dos consumidores e capacidades de oferta em países com semelhanças em termos de estrutura económica e níveis de rendimento.
De acordo com a tipologia proposta por Dunning (1993), a existência de empresas com certas características num país estrangeiro pode conduzir a firma multinacional a realizar IDE, quando se está perante firmas que procuram activos estratégicos ou capacidade (strategic assets or capability seekers). Para este tipo de empresas, a aquisição daquelas empresas estrangeiras ocorre no sentido da promoção dos seus objectivos estratégicos de longo prazo, principalmente daqueles que sustentam ou melhoram a sua competitividade internacional.