Capítulo 1. Moda: Origens e Evolução
1.3. A Interdisciplinaridade da Moda
A assunção da moda como um fenómeno social é recente. Não obstante, com o sur- gimento de departamentos de estudos de moda e de jornais académicos como o Fashion
Theory e o Critical Studies in Fashion and Beauty, é cada vez mais notório o emparelhamento
da moda com inúmeras outras disciplinas (Aspers & Godart, 2013). Como refere Gregory14,
“O mistério das mudanças da Moda fascinou não só os economistas e os sociólogos, os his- toriadores sociais e os antropólogos culturais mas também os filósofos e moralistas, poetas, dramaturgos e romancistas.” (Aspers & Godart, 2013, p.172). Este cariz interdisciplinar da
14 Gregory P. (1947). An Economic Interpretation of Women’s Fashion. Southern Economic Journal, 14, 148–162 in Aspers, P.,
moda faz com que o seu conceito encerre, em si, tantos significados quanto as disciplinas que o próprio abrange. É este o entendimento de Barnard (1996) ao referir:
“(…) a moda e o vestuário tocam ou são relevantes para as preocupações de muitas discipli- nas, (…) por isso, não é surpreendente quando a moda e o vestuário apresentam diferentes perfis. Porque a moda e o vestuário influenciam as preocupações de tantas disciplinas, de- vem ser estudados nos termos dessas disciplinas. Mas porque eles interferem em tantas disciplinas, não é surpreendente que pareçam diferentes quando vistas nesses termos.”
(p.23).
Todavia, a aceitação do fenómeno da moda como objeto de estudo tende a ser negada por ser considerada supérflua e frívola e, ainda, pela associação à manipulação capitalista. Entwistle e Wilson (2001) referem, como exemplo, que mesmo dentro da filosofia e da psico- logia a “moda tem sido largamente negligenciada ou considerada uma tentativa frívola não merecedora de uma análise séria.” (p.1). Por outro lado, quando a moda e o vestuário são encaradas apenas pelas suas relações liberais e humanitárias torna-se frequente serem con- sideradas uma ciência social leve como a história e, consequentemente, valoradas negativa- mente (Barnard, 1996). Acresce ainda a desconfiança do pensamento ocidental quanto à cri- atividade e à produção cultural, no qual trabalho dos artistas e dos criadores vê-se associado, por um lado, ao delírio e à imaginação e, por outro, a uma realidade superior, uma revelação (ibid.). Wajnman (2002) atenta para a urgência da sistematização e da compreensão das ca- racterísticas e das dimensões da moda desvalorizada durante muito tempo pelos intelectuais.
“(…) A moda contemporânea chega mesmo a ser constitutiva do próprio tecido social. A julgar pelas características atuais, ou seja, pela maneira que ela define a sociabilidade, pelos novos padrões éticos e estéticos, pela nova definição de mercado empresarial, a moda hoje é um fenómeno social. (…) O grande impacto da moda na vida social, seu entrelaçamento com a sociedade exigem, sem dúvidas, a institucionalização científica deste objeto. Ela deve migrar do campo da frivolidade para receber o estudo científico.” (Wajnman, 2002, p.134).
No entender de Kaiser (2013), constituindo a moda um campo de interdisciplinaridade, a análise adequada das perspetivas, teorias, métodos e práticas das múltiplas disciplinas abrangidas, quer sejam as disciplinas humanitárias, as ciências sociais e as disciplinas rela- cionadas como os estudos de género e etnias, assim como as ciências biológicas e físicas, mostram-se necessárias.
O estudo da moda foi, inicialmente, negligenciado pela sociologia devido à frequente associação à história e às artes (Entwistle, 2000/2015). A compreensão da importância da moda no mundo moderno, em especial nas sociedades ocidentais, fez emergir, nos finais do século XX, vários estudos em diversas áreas como a antropologia, a psicologia e, até mesmo, a sociologia. Um notável exemplo neste último campo do saber é o trabalho desenvolvido por Georg Simmel (1904/1957) que, fascinado com os impulsos sociopsicológicos da imitação e da diferenciação, ou seja, o desejo do indivíduo em ser igual aos outros e em se diferenciar
dos mesmos, fundamentou nesta interação a constante mudança da moda e das tendências nas sociedades modernas. Outro trabalho de grande significado é o de Thorstein Veblen (1899/1994) que, por seu turno, atribuiu esta mudança à crescente mobilidade social existente nas sociedades abertas e enfatizou a hipocrisia associada ao consumo conspícuo das classes burguesas. Veblen não encarou a moda como um processo social e um fenómeno cultural, pelo contrário, desvalorizou o seu sentido económico e consagrou-a a fonte dos males da sociedade (Kaiser, 2013).
Esta desvalorização económica da moda por Veblen mostrou-se consensual para a maioria dos economistas que a consideram irracional ou, segundo Nystrom (1928), uma filo- sofia de futilidade. Não obstante, alguns economistas tentaram estabelecer um sistema de moda focado na forma como as micro-decisões individuais são capazes de gerar macro-pro- cessos como a própria moda, ou seja, na transformação de algo tão individual e concreto num processo generalizado à escala global (Aspers & Godart, 2013). Acresce que intimamente relacionados com a moda estão os conceitos tão económicos de consumo, distribuição e
branding (Aspers & Godart, 2013).
Intimamente relacionados, estão, também, os conceitos de moda e cultura, embora com diferentes conotações (Kaiser, 2013). Recorrendo ao The Oxford English Dictionary15, a
autora define a cultura como “as ideias distintivas, o costume, o comportamento social, os produtos ou o modo de vida de uma sociedade particular, pessoas ou período.” (Kaiser, 2013). Ora, ao atendermos à definição de cultura e à definição de moda, já exposta em momento anterior, parece que a primeira é mais ampla que a segunda, embora a ideia de costume surja incluído no escopo de ambras. O costume é definido, por seu turno, como uma “prática habi- tual ou usual, uma forma comum de agir, um uso, uma moda, um hábito” (Kaiser, 2013, p.12). Do exposto, a autora sugere considerarmos a moda como um “costume por um tempo” e a cultura como um “costume ao longo do tempo” (Kaiser, 2013). Tanto a moda quanto a cultura são assumidas como um progresso social e uma prática material que experienciam, em si- multâneo, a mudança e continuidade (ibid.). Vale isto para dizer que a moda pode ser melhor entendida como uma mudança dentro da continuidade e a cultura, atendendo às suas práti- cas, como continuidade dentro da mudança (ibid.).
Contudo, foi só com o desenvolvimento do conceito de subcultura aplicado às gera- ções mais jovens do Reino Unido, nomeadamente os punks, que se encetaram os estudos
15 Stevenson, A.(Ed.) (2010). The Oxford English Dictionary. (3rd ed.). Oxford, United Kindgom: Oxford University Press in Kaiser,
culturais de moda (Aspers & Godart, 2013). No centro deste conceito desenvolvido por Hebdige (1979), está o conceito de homogeneidade onde, por exemplo, um punk fala como veste. Ou seja, os diferentes aspetos de uma determinada cultura serão caracterizados como tal por correspondência. Uma outra abordagem de interesse aos estudos culturais em moda refere-se ao papel desta no processo de globalização, mais precisamente na moda como fenómeno urbano capaz de moldar e ser moldado pelas cidades. Tomamos por exemplo, os grandes centros urbanos que integram o sistema global da moda de onde se destacam as big
four: Paris, Nova Iorque, Milão e Londres (Breward, 2003).
A Filosofia constitui outro campo que sofre influência e que, simultaneamente, influen- cia a disciplina da moda. Durante anos, as questões morais da moda constituíram o foco de interesse em especial no mundo ocidental, situação que se inverteu quando Adam Smith16 viu
a moda como um processo de imitação baseado na simpatia entre os indivíduos (Aspers & Godart, 2013). Para o autor, os indivíduos participam na felicidade dos ricos através da imita- ção. Não obstante, a maioria dos filósofos guiaram-se pela ideologia de Kant17 o qual não via
utilidade nenhuma na moda (Aspers & Godart, 2013). Da mesma opinião partilha Svendsen (2006) ao concluir que a moda não oferece nada nem adiciona nada à vida do homem. Tam- bém para Hans-Georg Gadamer18, a moda deve ser encarada como algo completamente ale-
atório, superficial e sem fundamento algum (Aspers & Godart, 2013). Todavia, o autor reco- nhece que a moda não se restringe a regular apenas as coisas tidas sem importância como o vestuário, mas afeta tantas outras áreas com as artes e, até mesmo, a ciência (ibid.). Já na opinião de Nietzsche19, o conceito de moda está intimamente relacionado com o conceito de
modernidade, apesar de, ele próprio considerar a moda como uma roda de vaidades (Aspers & Godart, 2013). A modernidade da moda foi também sugerida por Heidegger20 que a carac-
terizou pela novidade, pela mudança e pela reduzida durabilidade, constituindo este carácter temporal o aspeto central à compreensão do seu conceito (Aspers & Godart, 2013). Um outro trabalho de grande importância que não alude especificamente à moda ou ao vestuário mas ao meio social no qual a moda se desenvolveu como uma prática social é o The Comunist
16 Smith, A. (1759/1982). The Theory of Moral Sentiments.Indiana. United States of America: Liberty in Aspers, P., & Godart, F.
(2013). Sociology of Fashion: Order and Change. Annual Review of Sociology, 39, 171-192.
17 Kant, I. (1798). Anthropologie in pragmatischer Hinsicht. Leipzig, Germany: Verlag von Immanuel Muller in Aspers, P., & Godart,
F. (2013). Sociology of Fashion: Order and Change. Annual Review of Sociology, 39, 171-192.
18 Gadamer, H-G. (1990). Wahrheit und Methode, Grundzuge einer philosophischen Hermeneutik, Band 1, Hermeneutik. Tubin-
gen, Germany: Mohr in Aspers, P., & Godart, F. (2013). Sociology of Fashion: Order and Change. Annual Review of Sociology, 39, 171-192.
19 Nietzsche, F. (1878/1996). Human, All Too Human: A Book for Free Spirits. Transl. RJ Hollingdale. Cambridge, United Kingdom:
Cambridge University Press in Aspers, P., & Godart, F. (2013). Sociology of Fashion: Order and Change. Annual Review of Sociology, 39, 171-192.
20 Heidegger, M. (1982). H¨olderlins Hymne “Andenken”, Gesamtausgabe, II Abt.: Verlesungen 1923–1944 Bd. 52. Frankfurt am
Main. Germany: Klostermann in Aspers, P., & Godart, F. (2013). Sociology of Fashion: Order and Change. Annual Review of Sociology, 39, 171-192.
Manifesto de Karl Max21. Aqui, Marx expõe um mundo onde a mudança e a efemeridade se
sobrepõem à continuidade, à estabilidade e à tradição (Rocamora & Smelik, 2016). O The
Comunist Manifesto retrata o impacto da modernidade e de uma nova forma de sociedade
aberta à mobilidade social e ao conceito de identidade individual, com especial foco na as- censão da burguesia que competia com a antiga classe nobre aristocrática (ibid.). Nesta altura começa-se a duvidar quem é quem em termos de estatuto social o que alimentou, nas pala- vras de Rocamora e Smelik (2016), “o sentido de importância do vestuário como moeda social, um meio de expressar e brincar, revelar e ocultar a identidade social.” (p.32). Numa cidade capitalista envolta em contradição e concorrência social, o vestuário tornou-se moda (Roca- mora & Smelik, 2016). No The Comunist Manifesto, Marx define comodidades como coisas que envolvem as necessidades do ‘estômago’, ou seja, as necessidades físicas e práticas e, ainda, os desejos da fantasia ou imaginação como será o caso da moda que satisfaz tanto uma necessidade utilitária e de proteção quanto uma necessidade simbólica e estética (ibid.).
A moda, independentemente da conotação fútil que lhe é associada, é encarada como um fenómeno social fortemente marcado pela mudança, pelo carácter temporário e pela busca de identidade, sendo raro o aspeto da vida social contemporânea que não seja cunhado pelas influências da moda. Blumer (1969) chegou mesmo a fazer uma chamada de atenção para a seriedade que a disciplina merece, situação que se viu alterada nas últimas duas dé- cadas apesar das dificuldades sentidas na teorização dos estudos de moda pela nova geração de sociólogos (Tseelon, 2009)22. Ainda assim, para White e Griffiths (2000) o clima de mu-
dança é evidente e a teoria da moda tornou-se um campo de interesse académico nunca antes visto.
21 Marx, K., & Engels, F. (1848). The Communist manifesto. London, United Kingdom: Workers' Educational Association in Roca-
mora, A., & Smelik, A. (2016). Thinking Through Fashion: A Guide to Key Theorists. London, United Kingdom: I. B. Tauris & Co. Ltd..
22 Tseelon, E. (2009). Fashion Research and its Discontents. Fashion Theory, 5, 435–451 in Aspers, P., & Godart, F. (2013).