CAPÍTULO 3 - O HORIZONTE DA INTERDISCIPLINARIDADE NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
3.5 A Interdisciplinaridade nos documentos, Leis e Conferências Ambientais
horizonte de se prestar a contextualização do saber prévio dos alunos, se constituindo como um saber que os situe num amplo campo de conhecimentos, de maneira que possam se integrar na sociedade e atuarem criticamente nela e sob ela. Práticas, valores, atitudes, propósitos e perspectivas presentes no mundo social e cultural interpretam e agem na realidade, uma vez que, “é na prática que as coisas humanas efetivamente acontecem, que a história se faz”
(SEVERINO, 2004, p. 161).
compreensão e utilização teórico-metodológica da interdisciplinaridade na Educação Ambiental.
3.5.1 A Conferência de Estocolmo (1972)
Entre as recomendações do Plano de Ação aprovado pela Conferência de Estocolmo (1972), ganhou destaque a de n. 96 que assinala:
enfoque interdisciplinar e com caráter escolar e extra-escolar, que envolva todos os níveis de ensino e se dirija ao público em geral, jovem e adulto indistintamente, com vistas a ensinar-lhes as medidas simples que, dentro de suas possibilidades, possam tomar para ordenar e controlar seu meio.
3.5.2 Seminário Internacional de Educação Ambiental de Belgrado (1975)
Outro marco significativo foi o Seminário Internacional de Educação Ambiental de Belgrado (1975), cujo evento é de referência para a área e que tem como um dos princípios de orientação aos Programas de Educação Ambiental
“assumir um enfoque interdisciplinar”. Um dos méritos deste Seminário foi reforçar a necessidade de uma nova ética global e ecológica, ligada aos processos de erradicação de problemas sociais como a fome, a miséria, o analfabetismo, a poluição, a degradação dos bens naturais e a exploração humana, através de um novo modelo de desenvolvimento e da compreensão de que os problemas estão vinculados (LOUREIRO, 2006a). Belgrado intervém no modo de conceber a EA como amplo processo educativo formal ou informal, englobando a dimensão política, cultural e social capaz de gerar valores novos, habilidades e atitudes em consonância com a sustentabilidade.
3.5.3 A Taller Subregional de Educación Ambiental para Educación secundaria
A Taller Subregional de Educación Ambiental para Educación secundaria realizado em Chosica no Perú (1976), possui uma das mais completas e complexas análises em Educação Ambiental, trazendo a necessidade de
transformar as sociedades tais como estão estruturadas e associando o social ao natural. Chosica apontou a precisão metodológica de a Educação Ambiental ser participativa, permanente, interdisciplinar (grifo nosso), construída na realidade do cotidiano e implicando sobre a formação curricular no ensino formal (UNESCO, 1980).
3.5.4 Conferência Internacional sobre a Educação Ambiental de Tbilisi (1977)
A Conferência Internacional sobre a Educação Ambiental de Tbilisi, organizada pela UNESCO em 1977, traz em sua recomendação n. 1 a temática interdisciplinar:
A educação ambiental é o resultado de uma orientação e articulação de diversas disciplinas e experiências educativas que facilitam a percepção integrada do meio ambiente, tornando possível uma ação mais racional e capaz de responder às necessidades sociais (...). Para a realização de tais funções, a educação ambiental deveria (...) enfocar a análise de tais problemas através de uma perspectiva interdisciplinar e globalizadora, que permita uma compreensão adequada dos problemas ambientais.
Tbilisi é identificada como referência na área ambiental em função do momento histórico em que aconteceu e pela participação em escala global de representações de Estado. A Conferência assinala a Educação Ambiental como um meio educativo pelo qual se podem compreender de maneira articulada a dimensão social ambiental problematizando a realidade e buscando as raízes da crise civilizatória (LOUREIRO, 2006). A mesma Conferência inclui a interdisciplinaridade como um dos seus princípios assegurando que a EA deve ser aplicada com “um enfoque interdisciplinar, aproveitando o conteúdo específico de cada disciplina, de maneira que se adquira uma perspectiva global e equilibrada (DIAS, 2003).
Foi na perspectiva da Conferência Intergovernamental da Educação Ambiental de Tbilisi (1977), que a Educação Ambiental passou a ter a seguinte definição: “dimensão dada ao conteúdo e à prática da educação, orientada para a resolução dos problemas concretos do meio ambiente através de enfoques
interdisciplinares e de uma participação ativa e responsável de cada indivíduo e da coletividade” (Dias, 2003, p. 98). Na visão de Dias (2003, p. 117), “pela própria natureza do ambiente, dadas as suas múltiplas interações de fundo ecológico, político, social, econômico, ético, cultural, científico e tecnológico, não se poderia tratar o assunto em uma única disciplina.”
Ainda assim, Tbilisi traz duas orientações importantes na recomendação n. 2 (UNESCO, 1980): a) considera o ambiente em sua totalidade, ou seja, em seus aspectos naturais criados pelo ser humano em sua dinâmica relacional de mútua constituição destacando a complexidade dos problemas ambientais e, b) em conseqüência a necessidade de desenvolver o senso crítico e as habilidades necessárias para resolver tais problemas concentrando nas situações ambientais atuais tendo em vista a perspectiva histórica, e fazendo com que as ações educativas sejam contextualizadas considerando os problemas do cotidiano.
3.5.5 Seminário sobre Universidade e Meio Ambiente para a América Latina e o Caribe
Em 1985, realizou-se em Bogotá, Colômbia, o Primeiro Seminário sobre Universidade e Meio Ambiente para a América Latina e o Caribe. A intenção era diagnosticar o avanço dos problemas ambientais nas Universidades da região, trocando experiências, conceitos, orientações e critérios sobre a incorporação da dimensão ambiental nas práticas acadêmicas e de pesquisa (GONZÁLEZ-GAUDIANO, 2005), tratando da dimensão ambiental em três áreas: ciências naturais, ciências sociais e engenharia. No documento,
afirma-se que a incorporação da dimensão ambiental vai além das possibilidades de introduzir cátedras “interdisciplinares” formadas pela conjunção de saberes e métodos provenientes de diferentes disciplinas e, desde então, já era claro que a área mais resistente para incorporar a dimensão ambiental era de ciências sociais (GONZÁLEZ-GAUDIANO, 2005, p. 126)
3.5.6 O Parecer 226/87 do Conselho Federal de Educação (CFE)
Em nível legislativo, o extinto Conselho Federal de Educação (CFE) emitiu o parecer 226/87, dando ênfase que a Educação Ambiental deve ser iniciada na escola, numa abordagem interdisciplinar e levando a população a um posicionamento em relação aos fenômenos ou circunstâncias do ambiente.
3.5.6 O Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA)
O Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA) foi desenvolvido junto a Rio/92. Seus objetivos estavam em consonância com os fundamentos da Educação Ambiental contidos na Lei n. 9.765/99, tendo como um dos seus princípios a transversalidade, elaborada a partir de uma perspectiva inter e transdisciplinar (grifo nosso). Na exposição dos princípios norteadores do ProNEA, alguns se destacam: (1) respeito à liberdade e apreço à tolerância; (2) vinculação entre ética, estética, educação, trabalho e práticas sociais; (3) liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; (4) compromisso com a cidadania ambiental ativa; (5) transversalidade construída a partir de uma perspectiva interdisciplinar; entre outros igualmente importantes, que apontam para a vinculação da EA à construção da cidadania.
No entendimento de Loureiro (2008, p. 8):
O Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA), lançado em 1994 e reorganizado em 2004, sinaliza claramente para um novo patamar de compreensão do processo educativo. Articula as mudanças de percepção e cognição no aprendizado às mudanças sociais e explicita o reconhecimento de que a intenção básica da educação não está apenas em gerar novos comportamentos ou trabalhar no campo das idéias e valores. Propõe compreender as especificidades dos grupos sociais, o modo como produzem seus meios de vida, como criam condutas e se situam na sociedade, para que se estabeleçam processos coletivos pautados no diálogo, na problematização do mundo e na ação. Com isso, passa-se a ter, por pressuposto, que é a transformação das condições materiais e
simbólicas que expressa a concretude do ato educativo na superação das formas alienadas de existência e das dicotomias entre sociedade-natureza.
3.5.7 Conferência Mundial sobre a Educação Superior (1998)
Na Conferência Mundial sobre a Educação Superior, realizada na sede da Unesco na cidade de Paris (1998), foram elencadas linhas pelas quais se impulsionaria o exame interdisciplinar e ambiental. As referências ao ambiental, ao sustentável e a interdisciplinaridade são imprecisas. Na visão da Conferência deve-se-iam reforçar a inovação, a interdisciplinaridade (grifo nosso) e a transdisciplinaridade nos programas, baseando as orientações em longo prazo nos objetivos e nas necessidades culturais e sociais (GONZÁLEZ-GAUDIANO, 2005).
Também neste evento apontou a pertinência ao respeito às culturas e a proteção ao meio ambiente, dos quais o objetivo era facilitar o acesso a uma educação ampla, como também especializada e para determinados cursos, amiúde interdisciplinar (grifo nosso). Em seguida, propôs que a educação superior deve reforçar suas funções de serviço à sociedade para que suas atividades estejam voltadas para a erradicação da pobreza, da deterioração do meio ambiente e das doenças, principalmente mediante uma proposição interdisciplinar e transdisciplinar para análise dos problemas e situações apresentadas.
3.5.8 A Lei nº 9.795/99 da Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA)
A Lei Federal nº 9.795, de 27 de abril de 1999, que instituiu a “Política Nacional de Educação Ambiental” tratou da importância do enfoque interdisciplinar como essencial para o desenvolvimento da Educação Ambiental no Brasil. A abordagem interdisciplinar das questões ambientais implica em utilizar a contribuição das várias disciplinas (conteúdo e método) para se
construir a compreensão e explicação do problema tratado e desse modo, superar a compartimentação. Implica, também, em envolver as populações e valorizar seus conhecimentos:
Para tentar colocar em prática as recomendações da Conferência de Tbilisi o Brasil aprovou e sancionou a Lei 9795/99 da Política Nacional de Educação Ambiental. A Lei estabelece a Educação Ambiental como um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal que deverá ser desenvolvida como uma prática educativa integrada, contínua envolvendo todos os professores. Na realidade, a abordagem interdisciplinar defende a superação da fragmentação do saber (MIRANDA, MIRANDA E RAVAGLIA, 2010, p. 3).
No que se refere ao objeto do presente texto, podemos destacar (LOUREIRO, 2006a, p. 84-85):
Art. 4o São princípios básicos da educação ambiental:
I - o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo;
II - a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o sócio-econômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade;
III - o pluralismo de idéias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade;
IV - a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais;
V - a garantia de continuidade e permanência do processo educativo;
VI - a permanente avaliação crítica do processo educativo;
VII - a abordagem articulada das questões ambientais locais, regionais, nacionais e globais;
VIII - o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural.
Art. 5o São objetivos fundamentais da educação ambiental:
I - o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos (grifo nosso);
II - a garantia de democratização das informações ambientais;
III - o estímulo e o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e social (grifo nosso);
IV - o incentivo à participação individual e coletiva, permanente e responsável, na preservação do equilíbrio do meio ambiente, entendendo-se a defesa da qualidade ambiental como um valor inseparável do exercício da cidadania;
V - o estímulo à cooperação entre as diversas regiões do País, em níveis micro e macrorregionais, com vistas à construção de uma sociedade ambientalmente equilibrada, fundada nos princípios da liberdade, igualdade, solidariedade, democracia, justiça social, responsabilidade e sustentabilidade;
VI - o fomento e o fortalecimento da integração com a ciência e a tecnologia;
VII - o fortalecimento da cidadania, autodeterminação dos povos e solidariedade como fundamentos para o futuro da humanidade.
Constatamos na Lei uma direção com o desenvolvimento de posições compatíveis com a questão ambiental e a sua relação com o processo de transmissão e criação de saberes e práticas sociais na defesa das abordagens que visem realizar uma práxis educativa. Tal perspectiva se efetiva através de um conjunto integrado de atividades curriculares e extra-curriculares, possibilitando ao aluno aplicar o saber de modo contextualizado como é visto no ensino formal.
Ao refletir sobre as relações entre interdisciplinaridade e educação ambiental, Dias (2003, p. 117) alude que:
O enfoque interdisciplinar preconiza a ação das diversas disciplinas em torno de temas específicos. Assim, torna-se imperativa a cooperação/ interação entre todas as disciplinas. Ultimamente, tem sido, muito grande as contribuições por parte das artes, dado o seu grande potencial de trabalhar com sensibilização, elemento essencial para comunicar-se efetivamente. Antes, a EA ficava restrita à área de Ciências ou Biologia, o que foi um erro. Precisamos praticar a EA de modo que ela possa oferecer uma perspectiva global da realidade e não uma perspectiva científica e biológica apenas. São importantes os aspectos sociais, históricos, geográficos, matemáticos, de línguas, da expressão corporal, da filosofia, etc..
3.5.9 Programa Nacional de Formação de Educadores (as) Ambientais (ProFEA)
Outro Programa importante para a temática ambiental é o Programa Nacional de Formação de Educadores (as) Ambientais (ProFEA). Segundo Tamaio (2008, p. 27):
Ele tem como objetivo qualificar as ações de educação ambiental para que exijam menos intervenções diretas e mais apoio às reflexões e ações autogeridas regionalmente. É preciso desenvolver uma dinâmica nacional contínua e sustentável de processos de formação de educadores(as) ambientais, a partir de diferentes contextos. As atividades do ProFEA visam à criação de sociedades sustentáveis, por isso consideram essenciais a “sensibilização afetiva e a compreensão cognitiva da complexidade ambiental”, o que possibilita a construção de “um saber ambiental e fortalece a potência de ação nos diversificados atores e grupos sociais que trabalham na perspectiva da criação de um futuro sustentável”
Entre os objetivos principais do ProFEA, estão: 1) Apoio e estímulo aos processos educativos que apontem para a transformação ética e política em direção à construção da sustentabilidade socioambiental; 2) Fortalecer instituições e seus sujeitos sociais para atuarem de forma autônoma, crítica e inovadora em processos formativos, ampliando o envolvimento da sociedade em ações socioambientais de caráter pedagógico.
Seus referenciais metodológicos estão situados na Pedagogia da Práxis, Pesquisa-Ação-Participante, Comunidade interpretativa, Comunidade de aprendizagem, Hermenêutica, Intervenção Educacional, Inter e transdisciplinaridade (grifo nosso), Laboratório conceitual, Vanguarda que se autoanula, Cardápio de conteúdos. Tais conceitos, princípios e estratégias estão carregados de significados para a prática educacional libertária, crítica e emancipatória. Estes significados políticos e pedagógicos distanciam-se das perspectivas educacionais prescritivas. Em síntese, o ProFEA assinala sem desenvolver de modo mais profundo e crítico a temática trans e interdisciplinar como uma das referências metodológicas, embora tenha em seus postulados significados pautados por uma prática educacional crítica e emancipatória.