A interface entre o trabalho coletivo e o individual teve início quando foi definida a temática central que iria nortear o trabalho interdisciplinar e durante as oficinas que foram destinadas para a discussão dos pré-projetos e projetos individuais, respectivamente no final do primeiro e do segundo semestre de 2005.
Os temas específicos referentes à pesquisa individual de cada doutorando circulam em torno da agroecologia, temática central adotada pela equipe.
4Iguatu, no dizer dos índios Tupi-guararis significa ‘água boa’. Este projeto é resultado da ação e articulação de seis organizações, tais como: a Associação de Agricultura Familiar (AOPA), Cooperativa Central de Reforma Agrária do Paraná (CCA/PR), Federação dos Trabalhadores de Agricultura Familiar da Região Sul (FETRAF/SUL), Associação dos Agricultores Agroflorestais de Barra de Turvo (COOPERAFLORESTA), Centro Nacional de Pesquisa em Florestas (EMBRAPA Florestas) e Universidade Federal do Paraná. Teve como objetivo geral a promoção da gestão da gestão adequada dos recursos hídricos junto à agricultura familiar, mediante o desenvolvimento da agroecologia, gerando indicadores e referenciais técnicos e científicos, contribuindo para a resolução dos problemas ambientais e para a melhoria da qualidade de vida das populações locais. Envolveu famílias agricultoras situadas em 20 municípios pertencentes a RMC, Campos Gerais, Região Centro-sul do Paraná e Vale do Ribeira (AOPA, 2004).
Após a definição do espaço físico e a identificação dos agricultores para a realização das atividades do grupo, foi elaborado o formulário de pesquisa pela equipe para a realização do trabalho coletivo, quando se teve o cuidado de considerar os objetivos gerais de cada projeto individual no momento da elaboração das questões, visando atender aos interesses e às afinidades de toda a equipe.
A partir dos contatos realizados com a comunidade no decorrer do trabalho coletivo, a pesquisa individual ficou mais fácil, pois os caminhos já estavam abertos.
A receptividade das famílias foi aumentando gradativamente à medida que as visitas da equipe foram se tornando mais freqüentes e a abertura e a disponibilidade das mesmas para contribuir com o trabalho foram se intensificando.
O exercício da interdisciplinaridade se efetivou no decorrer das discussões travadas em torno do tema adotado para a pesquisa ao longo das oficinas I e II, bem como durante a elaboração e o desenvolvimento do projeto de pesquisa comum. A bagagem de conhecimento trazida com a da formação específica de cada um e a adquirida pelo grupo ao longo do doutorado nortearam as expressões e interpretações que cada um realizou nos momentos das atividades, possibilitando, assim, a troca de saberes, pontos de vistas e de olhares sob diferentes visões em torno das questões que foram surgindo no decorrer do trabalho conjunto.
Essa inter-relação, que envolveu fundamentalmente os campos de conhecimento da agronomia, da geografia, da sociologia, da nutrição e da alimentação, foi extremamente fértil e permitiu a ampliação do campo de visão em torno tanto dos aspectos relacionados ao meio ambientes inerentes ao estudo quanto aos que dizem respeito ao âmbito específico da nutrição e da alimentação, pois a compreensão em torno da estreita relação entre meio ambiente e alimentação ficaram mais evidentes.
No decorrer da elaboração da tese individual, no último ano do curso, as oficinas cessaram e a preocupação de cada doutorando voltou-se exclusivamente para o seu tema individual, sendo que os contatos e encontros entre o grupo passaram a ser mais esporádicos. No entanto, os resultados do trabalho coletivo apresentados nas oficinas na forma de relatório, assim como o conhecimento adquirido no decorrer do trabalho pela troca de saberes, encontram-se diluídos ao longo das teses na medida e intensidade que foi necessário, conforme o tema de cada componente do grupo.
Como resultado da experiência interdisciplinar de pesquisa pode-se ressaltar os seguintes pontos fortes: a possibilidade de realizar um diagnóstico da agricultura ecológica na RMC e do município escolhido para a pesquisa com o auxílio de olhares de diferentes campos do saber; as discussões realizadas nas oficinas em torno dos elementos teóricos para abarcar o tema de pesquisa facilitaram e agilizaram a compreensão do contexto da agroecologia em âmbito mundial, brasileiro e regional, tendo em vista que a literatura em torno do tema não era familiar para todos os componentes do grupo e, a realização do trabalho de campo em equipe auxiliou na definição do local geográfico comum de pesquisa de modo a atender a proposta de pesquisa, bem como permitiu o apoio mútuo para programar as idas à campo no momento da pesquisa individual.
Como pontos fracos diante dos resultados do exercício de pesquisa interdisciplinar, além da necessidade de se oferecer maior tempo hábil para a pesquisa individual, cabe relatar que não se teve também o tempo necessário para realizar uma análise aprofundada dos dados coletados pela equipe a partir do instrumento de coleta utilizado. Talvez quanto esse aspecto vale considerar que na elaboração do instrumento de coleta teve-se dificuldade para dimensionar as informações que atenderiam as necessidades da pesquisa comum e as de cada componente do grupo, tendo em vista que os projetos individuais de pesquisa ainda estavam sendo elaborados, fundamentalmente a metodologia. Outro ponto fraco foi a observação de que as vezes os agricultores se sentiam constrangidos com a presença de tantos entrevistadores ao mesmo tempo, mesmo que apenas um fizesse as perguntas. Assim, como já mencionado anteriormente, em práticas de pesquisas de natureza interdisciplinar não há uma receita pronta, entretanto, apontar onde se obteve êxito e onde não se obteve, é importante para oferecer suporte para outras iniciativas que queiram seguir essa via.