A Esponsalidade como Modelo de Comunhão
3.1 A Comunhão Eclesial como Interface da Esponsalidade
3.1.2 A Interface Pneumatológico-Trinitária da Esponsalidade Eclesial
A Constituição sobre a Igreja para definir a Igreja como “povo congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo”360 descreve a obra do Espírito como aquele que dá
“acesso ao Pai, por Cristo”361 e que “habita na Igreja e nos corações dos fiéis como num
templo”362. É o Espírito que unido à Esposa, conclama em uníssono, em comunhão definitiva,
a presença do Esposo, o Senhor Jesus. Logo, há uma relação, uma interface, evidente e profunda – essencial – entre a obra do Espírito, que é amor, e a união esponsal que faz a Igreja na comunhão trinitária.
357É o que ressalta Hackmann: “A partir do Sínodo de 1985, foi priorizada a Eclesiologia de comunhão como a mais característica e fundamental do Vaticano II, embora existam outras Eclesiologias possíveis” – cf. HACKMANN, Geraldo Luiz Borges. A amada Igreja de Jesus Cristo: manual de eclesiologia como comunhão orgânica. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003, p. 98. Há quem considere este posicionamento uma atitude infértil de reducionismo eclesiológico e de corrupção do Vaticano II – cf. COMBLIN, José. O povo de Deus. 2.ed. SP: Paulus, 2002, p. 115-132.
358 Cf. HACKMANN, Geraldo Luiz Borges. Op. cit., p. 98. E ainda, cf. Ecclesia de Eucharistia, 34-46. 359 Cf. HACKMANN, Geraldo Luiz Borges. Op. cit., p. 99.
360 Cf. Lumen Gentium, p. 4.
361 Cf. Lumen Gentium, p. 4. E ainda, cf. Ef 2,18. 362 Cf. Lumen Gentium, p. 4. E ainda, cf. 1Cor 3,16; 6,19.
E sobre o papel do Espírito em relação ao mistério da Igreja, acrescentaria Strotmann: O Espírito Santo é, por excelência, a “testemunha” na vasta contestação a respeito do homem, contestação que irrompeu durante a vida terrena de Jesus, e que depois não mais parou. Ele é a figura essencial do processo escatológico que se processa até o fim dos tempos, e durante o qual devem os fiéis “permanecer” no Filho, sobriamente, permanecendo em suas palavras, guardando suas palavras e seus mandamentos. [...] Para a Igreja, a vitória sobre o mundo é a sua fé em Cristo imolado. Unida ao Senhor pela fé, já não há mais Acusador, e sim o Intercessor, Cristo, que está entre nós e Deus, e que reina junto ao Pai como “advogado perante Deus”, atestando o Espírito ao nosso espírito que somos filhos de Deus.363
E acrescentaria Philipon, expandindo esta reflexão no horizonte trinitário da eclesialidade, pois, segundo o teólogo, “o Mistério da Igreja só se explica, portanto, à luz da Trindade”364:
Tocamos aqui a essência mais íntima do mistério eclesial, projeção, para fora das relações que ligam em si as Três Pessoas divinas. [...] Todos os ensinamentos do Concílio sobre o mistério da Igreja estão marcados com o “selo da Trindade”. A natureza íntima da Igreja acha no mistério trinitário as suas origens eternas, a sua forma exemplar e a sua finalidade. [...] Tudo, na Igreja, se faz “em nome e em honra da indivisível Trindade”.
Um aspecto inegligenciável da intervenção trinitária de Philipon, no final do processo conciliar, faz recordar a limitação teológica do modelo eclesial de “sociedade de fiéis365”, a
saber: “deixa na sombra o principal: a Ação primordial e a Assistência contínua do Espírito prometida por Jesus à sua Igreja”366. Neste sentido, o Concílio Vaticano teria marcado o final
da era apologética da Contra-Reforma, isto é, mergulha-se agora no mistério eclesial para desbravar nele e haurir dele “a vida secreta e divina que anima todas as suas articulações [...] assinalando o primado do mistério da Trindade sobre todos os mistérios cristãos, e o seu papel
363 Cf. STROTMANN, Théodore. A Igreja como mistério. In: BARAÚNA, Guilherme (Dir.). A Igreja do Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 1965, p. 346-360.
364 Cf. PHILIPON, Michel. A Santíssima Trindade e a Igreja. In: BARAÚNA, Guilherme (Dir.). Op. cit., p. 361. 365 Cf. Ibid., p. 362.
explicativo, pelo interior, sob a ação do Espírito Santo, de todo o mistério eclesial”367. E
completa refletindo o método de apresentação do mistério eclesial conciliar:
Certos espíritos, habituados aos métodos modernos de observação e de indução, não ocultaram sua surpresa de ver um Concílio, que se diz pastoral e se jacta de querer responder às interrogações do mundo moderno, começar a apresentação do mistério eclesial, não a partir das realidades terrenas, objeto da nossa experiência cotidiana e do nosso método histórico, mas sim, “ex- abrupto”, partindo de cima, do Princípio dos princípios: Deus Pai, Fonte primeira da Divindade, Princípio do Filho e do Espírito Santo.368
Entretanto, pondera Philipon, “essa clareza todo divina e puríssima é a mais alta luz, a mais clarificadora, sobre todo o mistério eclesial [...] que fixa as verdadeiras perspectivas do mistério eclesial, em ligação orgânica com o mistério fundamental do cristianismo”369. E
sintetiza, especificando as peculiaridades do Concílio:
O Vaticano II não se deterá, como o XI Concílio de Toledo, em definir o sentido das relações intratrinitárias e em expor o mistério da Trindade por ele mesmo, de maneira abstrata e didática. O Vaticano II é um Concílio pastoral e missionário [...] encarará, portanto, a ação de cada uma das Três Pessoas divinas no mistério eclesial sem preocupação de precisar se se trata de propriedades pessoais incomunicáveis ou de apropriação. Utiliza a linguagem da Escritura, deixando aos teólogos o cuidado de interpretar esse ensino com rigor mais científico.370
Da obra referente a Deus Pai decorre a “criação do mundo e a iniciativa de divinização do homem pela graça da adoção”371; em sua conseqüência,
367 Cf. Id. Acrescente-se: “Porém, jamais, sobretudo num Concílio ecumênico, o Magistério da Igreja havia exposto com tal força e tal amplitude o lugar primordial da Trindade no mistério eclesial. Não se trata de uma afirmação ocasional e marginal, senão de uma declaração conciliar solene, querendo manifestar a todos as origens eternas e o fundamento último do mistério da Igreja, sua natureza profunda, sua finalidade última, a fim de apreender melhor o sentido da sua missão divina e da sua ação sobrenatural no mundo” – cf. Id.
368 Cf. Ibid., p. 363.
369 Cf. Id. E também, cf. Ef 3,14-19. 370 Cf. Id.
[...] toda a economia da salvação é apresentada em perspectivas eclesiais [...]: nossa predestinação de nos tornarmos “conformes à imagem de seu Filho”, e sua realização temporal na formação progressiva da Igreja, segundo as etapas da história de Israel no Antigo Testamento e a manifestação evidente da Igreja de Cristo no Pentecostes pela efusão do Espírito Santo, até a sua consumação na glória, no fim dos tempos, quando a Igreja se achar congregada definitivamente junto ao Pai.372
E assim, há na Igreja uma obra comum e indivisível da Trindade, tendo Cristo e sua Encarnação como centro desse processo econômico; e os outros desenvolvimentos que se seguirão na Constituição sobre a Igreja, sobre o Povo de Deus, “dependerão dessa visão fundamental, que situa a iniciativa da Igreja, sua organização e seu crescimento, no prolongamento das relações pessoais do Pai com o Filho”373.
A obra do Espírito Santo na economia da salvação é bastante clara e inequívoca: é o comunicador das relações. Assim: “todo o movimento eclesial parte do Pai e, pelo Filho, para Ele retorna, ao sopro do Espírito”374, que “santifica continuamente a Igreja”375.
Philipon terminaria sua exposição afirmando que “a Igreja do Vaticano II é a Igreja da Trindade”, e que a vocação eclesial não é outra senão a irradiação do mistério Trinitário de Amor e Comunhão que se comunica, e o faz citando De Lubac:
Deus não nos fez “para ficarmos nos termos da natureza”, nem para cumprirmos um destino solitário. Fez-nos para sermos introduzidos juntos no seio da sua Vida trinitária. Jesus Cristo ofereceu-se em sacrifício para que não façamos senão um nessa unidade de Pessoas divinas. Tal deve ser a “recapitulação”, a “regeneração” e a “consumação” de tudo, e tudo o que nos atrai para fora disso é enganador. Ora, há um Lugar onde, desde este mundo, essa reunião de todos na Trindade começa. Há uma “Família de Deus”, misteriosa extensão da Trindade no tempo, a qual não só nos prepara para essa
372 Cf. PHILIPON, Michel. A Santíssima Trindade e a Igreja. In: BARAÚNA, Guilherme (Dir.). Op. cit., p. 364. 373 Cf. Ibid., p. 366. E também, cf. Lumen Gentium, 3.
374 Cf. PHILIPON, Michel. A Santíssima Trindade e a Igreja. In: BARAÚNA, Guilherme (Dir.). Op. cit., p. 366. 375 Cf. Lumen Gentium, 4. Acrescente-se: “Inaugurada de maneira retumbante carismática em Pentecostes, a Ação do Espírito Santo “santifica continuamente a Igreja”. Como o haviam anunciado os profetas [...]. Sua ação é a um tempo purificadora e renovadora. Ele restitui a vida aos homens, mortos pelo pecado. Por Ele nossos corpos mortais ressuscitarão em Cristo” – cf. PHILIPON, Michel. A Santíssima Trindade e a Igreja. In: BARAÚNA, Guilherme (Dir.). Op. cit., p. 367. E ainda, cf. CONGAR, Yves. El Espíritu Santo. 2.ed. Barcelona : Herder, 1983, p. 696-703.
vida unitiva e nos proporciona a firme segurança dela, mas também já nos faz participar dela.376
A Esponsalidade faz ressaltar este caráter tanto pneumatológico, quanto trinitário, do mistério eclesial, ambos fundamentais para se compreender a Igreja como Comunhão.377 Comunhão instaurada não apenas através de um amor humano, limitado nas suas contingências e egoísmos, mas como um transbordamento do amor divino que pela graça da união com Jesus Cristo, na sua Igreja, torna possível a unidade da humanidade e a fraternidade universal.378 E disto decorre o inevitável: que segundo a Revelação cristã, a eclesialidade, ser Igreja e fazer parte da sua consecução histórica, perfaz o caminho e o objetivo da existência humana sobre a face terra, isto é, a intenção da criação.379 E disto, a realização do ser humano está na Igreja, enquanto comunhão com Deus e comunhão uns com os outros, como frisa Schönborn.380 E, neste sentido específico, faz-se passível de aplicação o princípio eclesiológico fundamental que afirma a necessidade da Igreja para a salvação daqueles que creem, justamente porque a comunhão que ela engedra, como mistério essencial, é indispensável para sua união verdadeira com Deus e manifestação da sua identidade sacramental.381