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A Esponsalidade como Modelo de Comunhão

3.1 A Comunhão Eclesial como Interface da Esponsalidade

3.1.4 A Esponsalidade como Comunhão

Balthasar sustenta com relação ao “sujeito integral”397 da Igreja que este se manifesta

tanto coletivamente como individualmente. Coletivamente é como um povo, uma família, uma associação de individualidades, de pessoas individuais articuladas entre si, congregadas. Reunidas sim, contudo, não apenas por uma iniciativa humana de relação, mas congregadas pela fé, e esta fé repousa em Jesus Cristo. Assim, as individualidades associadas – em Igreja – são os cristãos em sentido próprio e sacramental, e todas as estruturas, mesmo notavelmente humanas, também estão profundamente radicadas em Cristo e no se Espírito, como enfatizado anteriormente. Logo, “o sujeito da Igreja é Cristo”398 – é Ele quem age na Igreja, realizando

“os atos da Igreja e respondendo desde sua manifestação sacramental”399. Consequentemente,

mesmo concebida coletivamente a eclesialidade, nunca apenas povo, mas sendo povo também, é corpo, e em leitura paulina, Corpo de Cristo, dependente de seu Senhor e Redentor, cabeça em sentido próprio e teológico.

De tudo isto, conclui: “a Igreja não é nem pode ser outra coisa senão expansão, comunicação e participação da personalidade de Cristo”400, em sentido da humanidade e da

divindade unidas hispostaticamente em Cristo e manifestadas na sacramentalidade eclesial.

394 Cf. BLAZQUEZ, Ricardo. Op. cit., p. 71-76. E também, cf. CONGREGACIÓN PARA LA DOCTRINA DE LA FE. “Communionis notio”, sobre algunos aspectos de la Iglesia considerada como comunión. In: CONGREGACIÓN PARA LA DOCTRINA DE LA FE. Op. cit., p. 101-189.

395 Cf. BLAZQUEZ, Ricardo. Op. cit., p. 76-78.79-102.

396 Este item explora a imagem esponsal e sua interface comunional de acordo com a exposição de Balthasar, cf. BALTHASAR, Hans Urs von. Ensayos teológicos. II. Sponsa Verbi. 2.ed. Madrid: Encuentro, Cristiandad, 2001, p. 145-196.

397 Cf. Ibid., p. 145. 398 Cf. Ibid., p. 147. 399 Cf. Id.

A claridade do seu pensar, a força do seu querer, o caráter conseqüente do seu amor, são a vida que Ele nos infunde e sem a qual não podemos fazer “nada”, mas com a qual podemos dar todo o fruto esperado de nós. Aqui, o princípio único de vida que habita em Cristo está mais fortemente sublinhado que no modelo do corpo.401

Esta relação profunda e necessária entre as imagens de Povo e Corpo também transita tranquilamente para a da Esposa, justamente devido à interpretação patrística do nascimento da Igreja desde “a ferida do lado aberto”402 de Jesus Cristo na cruz – ressaltada da teologia

joanina: o sangue e a água, símbolos associados de uma síntese sacramental, “significam o „acontecer‟ do supremo amor divino-humano”403. Este acontecimento do amor divino na

humanidade de Cristo une-se à entrega ou doação do Espírito, de modo que os três o Espírito, a água e o sangue, perfazem as testemunhas do amor divino-humano de Jesus Cristo na Igreja.404

Isso que nasce do corpo de Cristo quando morre: é unicamente a espírito- corporeidade do Homem-Deus, que se efunde para fora em formas sacramentais [...], ou se deve pensar que no Crucificado, que morre representativamente, está de tal maneira presente o elemento da humanidade pecadora pré-existente, que esta co-desemboca, como uma segunda realidade, em certo modo, nesta criação e efusão da Igreja. Aceitando-se esta última posição, que é a mais óbvia, o trânsito da imagem da Igreja como corpo para a imagem como esposa já se realizou imperceptivelmente.405

401 Tradução de: "La claridad de su pensar, la fuerza de su querer, el carácter consecuente de su amor son esa vida que se nos infunde y sin la cual no podemos hacer „nada‟, pero con la cual podemos dar todo fruto esperado de nosotros” – cf. Id.

402 Tradução de: “la herida del costado” – cf. Ibid., p. 149. E também, cf. Jo 19, 31-37.

403 Tradução de: “significa el „acontecer‟ del supremo amor humano-divino” – cf. BALTHASAR, Hans Urs von. Op. cit., p. 149.

404 Cf. 1Jo 5,6-8.

405 Tradução de: “eso que nace del cuerpo de Cristo cuando Éste muere: es únicamente, acaso, la espíritu- corporeidad del Hombre-Dios, que se efunde hacia fuera en formas sacramentales […], o si debe pensarse que en el Crucificado, que muere representativamente, está de tal manera presente un elemento de humanidad pecadora preexistente, que ésta co-desemboca, como una segunda realidad, en cierto modo, en esta creación y efusión de la Iglesia. Si se acepta esto último, que es lo más obvio, el tránsito de la imagen de la Iglesia como cuerpo a la imagen de la Iglesia como esposa se ha realizado ya imperceptiblemente” – cf. BALTHASAR, Hans Urs von. Op. cit., p. 150.

E da reflexão acima, Balthasar retoma a passagem de São Paulo aos Efésios406, na qual através da comparação da relação entre Cristo e a Igreja, e do homem e a mulher, unidos pelo amor, “obriga-se a conceber a imagem de Cabeça e corpo em um sentido esponsal e pessoal”407, pois a “Cabeça‟ significa agora realmente, neste contexto, o Senhor do

matrimonio, o Esposo, e o „corpo‟ significa o complemento e a fusão físico-matrimonial”408.

Duas afirmações derivam daqui, segundo Balthasar409:

i. Uma pessoal, pois a Igreja é alguém a quem o Senhor amou e por quem se entregou à morte a fim de purificar pelo banho de água na palavra – alguém pré-existente, portanto;

ii. Uma somática ou corporal, pois a Igreja, tal como é, Gloriosa, sem ruga nem mancha, nasce e procede do acontecimento da cruz, historicamente.

Tal imagem carrega desde suas bases bíblicas, como ressaltado no Capítulo I, como advém da reflexão de Balthasar410 e Bucker411, um profundo realismo, em sentido próprio,

pois atribui às partes da união certa “oposição esponsal” que garante para ambos, na ordem da vida espiritual comunicada por Deus, uma “subjetividade e personalidade” próprias de sujeitos reais, formadores de eclesialidade, antropologicamente situados.

Outra qualidade da imagem ressaltada por Balthasar é a valorização do feminino, uma vez que a esposa é mulher, em sentido próprio; a Igreja, feminina, esposa, mulher e mãe, evoluirá na patrística para uma associação apropriada à figura de Maria, com seus qualificativos. 412

A eclesiologia esponsal, afirmará ainda Balthasar, tem sua centralidade no amor eclesial dinâmico ascendente e descendente, sustentador e sustentado, que encontra em Maria sua conclusão orgânica.413 É uma imagem, que por assim dizer, perpassa o abismo entre a santidade suprema e imaculada, simbolizada em Maria e na sua virgindade, e o abismo da iniqüidade do pecador na gravidade da sua pecaminosidade.414 Ambas as realidades incidem diretamente na realidade da Esposa de Cristo, que o é assim, eleita desde sua pré-existência pecadora para a santidade de Deus. A Igreja se perfaz assim, de comunhão daqueles que

406 Cf. Ef 5, 21-33.

407 Tradução de: “obliga a concebir la imagen de Cabeza y cuerpo en un sentido esponsal y personal” – cf. Ibid., p. 150.

408 Tradução de: “Cabeza‟ significa ahora realmente, en este contexto, el Señor del matrimonio, el Esposo, y ele „cuerpo‟ significa el complemento y la fusión físico-matrimonial” – cf. Id.

409 Cf. Id.

410 Cf. Ibid., p. 152-160.

411 Cf. BUCKER, Bárbara Pataro. O feminino da Igreja e o conflito. RJ: Vozes, 1995, p. 131-132.

412 Tradução de: “eclesificación‟ de la conciencia individual” – cf. BALTHASAR, Hans Urs von. Op. cit., p. 170.

413 Cf. Ibid., p. 182. E também, cf. RATZINGER, Joseph; BALTHASAR, Hans Urs von. María, Iglesia naciente. 2.ed. Madrid: Encuentro, 2006.

foram eleitos para viverem conforme a santidade de Deus e foram feitos assim capazes através da Páscoa de Jesus Cristo.

Finalmente, da analogia matrimonial, Balthasar ainda ressalta três elementos, ditos pressupostos e indispensáveis, que sinalizam como a realidade humana manifesta-se como “centro e cume da criação”415, de modo que a imagem ou o modelo esponsal nada acrescenta

ao humano que não seja próprio da sua natureza, mas recolhe do humano justamente seus elementos de ordem natural para aplicá-los a Cristo e à Igreja.

Primeiro, a relação que une os seres humanos sobre o sinal da fusão corporal, não os une apenas fisicamente, como se aplica aos demais animais, mas relaciona seus espíritos, suas realidades metafísicas, em vista da manifestação de um novo ser. Depois, num segundo aspecto, advém a união da Igreja no Corpo de Cristo – união autêntica e sobrenatural. E finalmente, a distinção por oposição que dá manutenção às individualidades pessoais – Deus e a humanidade; humanidade, que nesta relação se perfaz feminina, simbolizada em Maria.416

É nesta ordem de aplicação que o matrimonio pode ser concebido como sinal da redenção operada por Cristo, através da qual a Trindade manifesta seu desígnio de amor humanidade, associando-a a Si, sem descurar sua identidade e personalidade.

Logo, o que entende aqui por comunhão, em interface esponsal, não é outra coisa senão esta íntima união, que não corresponde apenas a um esforço humano, mas é substancialmente eleição e vocação divina à aliança definitiva que transcende os limites da materialidade física, que oferece ao princípio espiritual sua analogia esponsal. É manifestação da comunhão trinitária e acolhimento desta, na união Cristo-Igreja, e na sua consecução histórica – e, deste modo, a Igreja se perfaz da comunidade daqueles que foram feitos, coletiva e individualmente, partícipes da comunicação do amor divino, que os capacita para progredir na caridade até alcançarem a estatura de Cristo, em seu Corpo, para a glória dAquele que continuamente cria e recria todas as coisas pelo poder do seu Espírito.417