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A Internet, a sociedade civil e o terceiro setor

A GEOGRAFIA DAS REDES DIGITAIS MUDIAIS

2.2 UMA HISTORICIDADE DA REDE

2.2.4 A Internet, a sociedade civil e o terceiro setor

Durante os anos oitenta, tanto no Mundo como no Brasil inicia-se um processo de disseminação do uso de computadores em organizações, assim como, em residências. Apesar de um número ainda muito pequeno, o interesse pela comunicação entre computadores e sua interligação deram origem a iniciativas que acabaram por difundir o uso dos mesmos e a criação de redes independentes.

As primeiras comunidades interligadas por computadores fora do âmbito do Estado ou das Universidades foram as BBS's117, que interligavam diversos

usuários a partir de conexões feitas através da rede telefônica. As primeiras comunidades estavam isoladas até o surgimento dos primeiros nós de integração de BBS's, como a rede FIDONET118. A partir do FIDONET, as

117 Um BBS (do inglês Bulletin Board System ou sistema de quadro de avisos) é um sistema informático, um software, que permite a ligação (conexão) via telefone a um sistema através do seu computador e interagir com ele, tal como hoje se faz com a internet.

diferentes comunidades BBS, passaram a trocar mensagens entre si e estabelecer grupos de discussão e troca de arquivos, mesmo que funcionando precariamente e muitas vezes com custos altos, já que muitas ligações faziam- se a partir de interurbanos nacionais ou internacionais baseados em altas tarifas.

No Brasil, a comunicação de dados era bastante restritiva quando se falava em usuários civis. Não havia de fato canais que possibilitassem o acesso a pessoas que não estavam ligadas ao meio acadêmico ou à Embratel. Inspirados nas BBSs estrangeiras, iniciativas individuais ou de empresas que buscavam fugir do controle e da burocracia da Embratel frente as trocas de dados informacionais começaram a montar os primeiros BBS nacionais. A montagem das mesmas era bastante simples e apoiava-se no uso de micro computadores e uma conexão telefônica. Em menos de uma década já haviam no Brasil mais de cem BBS funcionando ativamente. A partir de 1989 estes BBS conectavam-se ao mundo através da FIDONET em mais de trinta redes independentes cobrindo várias cidades do país (de forma mais concentrada no eixo Rio-São Paulo) que chegaram a formalizar uma entidade denominada Rede Brasileira de Teleinformática (RBT).

Apesar de a maioria dos BBS terem sido amadoristicamente montados e operados por entusiastas da informática e da comunicação, alguns se transformaram em empresas e passaram a oferecer serviços pagos119 a milhares

de usuários assinantes.

Até 1995, ano da abertura comercial da Internet no Brasil, havia cerca de trezentas BBS ativas nas maiores cidades do Brasil, atendendo uma população de cerca de 50 mil usuários. As BBS funcionaram principalmente como uma tecnologia experimental para Organizações Não Governamentais de diversos países, pois representavam um ótimo e viável recurso de comunicação e informação, até então, disponível somente para os governos, universidades,

o sistema telefônico. Foi bastante popular e interligava universidades, BBS regionais, empresas, etc. mas com o aparecimento da Internet entrou em vias de extinção. A FIDONET chegou a possuir vinte cinco mil nós e mais de um milhão de usuários antes da difusão da Internet.

119 Descarregar software e dados, enviar software e dados, ler notícias, trocar mensagens com outros utilizadores, participar em fóruns de discussão, conversar (chat) com outros utilizadores, divertir-se com jogos online.

organizações militares e grandes empresas (CARVALHO, p.111, 2006).

Uma ONG em especial (IBASE)120 teve o papel de disseminar o uso das

redes BBS e posteriormente a própria Internet com o objetivo de ampliar o acesso as comunicações por meio de computadores à população de uma forma geral. Essa entidade tinha como mentores dois ex-exilados políticos (Carlos Afonso e Herbert de Souza) que ao voltarem ao Brasil tiveram a idéia de criar uma organização que colaborasse com os movimentos sociais tendo por base uma rede de troca de dados e a democratização dos meios de comunicação.

O IBASE procurou desde sua formação alinhar seus objetivos com a formação de redes de comunicação, integrando diversas entidades através da troca de dados ou informações via correio eletrônico, seja no Brasil ou no exterior. O primeiro provedor de acesso a Internet começou a desenvolver-se dentro desta entidade, o Alternex, que foi um BBS que servia às entidades da sociedade civil (de pesquisa, direitos humanos, meio-ambiente, capacitação profissional etc.) oferecendo correio eletrônico, acesso remoto a bases de dados alternativas e teleconferências a qualquer um que possuísse um microcomputador conectado a uma linha telefônica. O Alternex recebia apoio financeiro e tecnológico de organizações como a FINEP (empresa pública ligada ao MCT), o PNUD (ONU) e o IGC (Institute for Global Communication – ONG americana ligada a democratização dos meios de comunicação).

Foi a partir destes aportes financeiros e a obtenção de computadores que o Alternex passou a dar conectividade internacional a uma série de organizações não governamentais no Brasil, passando a participar de uma rede global denominada APC (Association for Progressive Communications) que cobria mais de sessenta países envolvendo projetos de cunho social e ecológico.

A efetiva conexão da Internet no Brasil reuniu esforços tanto do meio acadêmico interessados na constituição da Rede-Rio, como também do IBASE.

120 O Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), criado em 1981, é uma instituição de utilidade pública federal, sem fins lucrativos, sem vinculação religiosa e a partido político. Entre os temas e campos de atuação que o Ibase julga prioritários estão o processo Fórum Social Mundial, Alternativas democráticas à globalização, Monitoramento de políticas públicas, Democratização da cidade, Segurança alimentar, Economia solidária e Responsabilidade social e ética nas organizações.

Esse fato ocorreu quando a ONU lançou o programa Agenda-21, um plano de ação para um novo padrão de desenvolvimento para o século XXI e que teria como sede a cidade do Rio de Janeiro (a ECO-92). O IBASE, através do Alternex, ficou responsável pela montagem e operação da rede (sobre a estrutura existente da rede acadêmica) que interligou todos os espaços do evento entre si à Internet.

Ligada na Internet, essa rede ofereceu serviços de troca de mensagens, acesso às bases de dados e conferências eletrônicas a milhares de ONGs, pesquisadores, jornalistas e demais participantes. A infra-estrutura montada para a conferência atendeu a milhares de usuários e foi considerada um grande sucesso, fato que viabilizou junto ao governo e outras organizações internacionais a ampliação da RNP e a constituição de um backbone efetivamente nacional.

A associação de atores não governamentais e acadêmicos ligados a RNP mostrou-se fundamental para a concretização da Internet no Brasil, no entanto, catalisou as primeiras discussões em torno do uso público e/ou privado da rede. Pois a Alternex passando a atuar como primeiro provedor de acesso à Internet no Brasil, em meados de 1994, para milhares de usuários e centenas de BBS no país fez emergir a polêmica das finalidades do uso da rede, assim como, o fato de muitas BBS cobrarem pelo serviço aos seus assinantes e utilizarem-se de uma estrutura construída com investimentos públicos.

A polêmica que gerou uma cisão entre os acadêmicos da Rede Rio (FAPERJ) e a ANSI (FAPESP) é muito bem resumida por Carvalho:

Com o crescimento explosivo da demanda por serviços Internet, e devido ao fato de deter a mais abrangente infra-estrutura de serviços da época, a RNP passou a ser uma rede de uso geral, permitindo o acesso a seus Pontos de Presença (PoPs) por provedores de acesso comerciais. Essa política, que gerou muita discussão, levou a uma separação entre a Rede Rio e a RNP, que passou a operar seu PoP no Rio de Janeiro de modo independente. De fato, parte da comunidade acadêmica do Rio de Janeiro era defensora de um modelo em que as redes acadêmicas deveriam dar acesso livre, porém exclusivo, ao meio acadêmico e que o uso comercial, se houvesse, deveria ser temporário, (...) até que os usuários do serviço comercial pudessem migrar para uma outra infra-estrutura que viesse a ser montada pela Embratel ou

qualquer outra entidade que viesse a explorar comercialmente esse serviço. O que se anunciava era que a RNP ia ser o backbone da Internet no Brasil, atendendo tanto ao uso comercial quanto acadêmico121.

O backbone da RNP nas vésperas do processo de abertura comercial da rede, integrava novas cidades na região Norte (Manaus), Centro- Oeste (Cuiabá e Goiânia) e Nordeste (Campina Grande e São Luís), além de novas conexões internas, configurando assim a seguinte topologia:

FIGURA 20 – Mapa da RNP em 1994

Fonte: RNP [http://www.rnp.br/rnp/backbone-historico.html] Acesso em abril de 2006.

Esse fato prenuncia o processo de abertura comercial da Internet no Brasil e a própria privatização das telecomunicações no Brasil, pois se por um lado havia a necessidade de abrir as conexões e circuitos da rede para a Sociedade Civil em geral, havia uma obrigação de separar o interesse das políticas públicas daquele pretendido como uma exploração comercial deste serviço. A Embratel não havia desenvolvido durante todos estes anos que

121 CARVALHO, MARCELO SÁVIO REVOREDO MENEZES DE. A trajetória da Internet no Brasil: do surgimento das redes de computadores à instituição dos mecanismos de governança [Rio de Janeiro] 2006

prenunciam a existência de uma rede mundial a estrutura necessária para oferecer seus serviços gerando uma espécie de tensão que eclodirá com a sua própria fragmentação através de sua privatização.

Enquanto esse processo não ocorria de maneira “legal”, a RNP como sistema garantia a estrutura necessária para a enorme demanda de acessos com a explosão do consumo e uso de computadores, a partir de 1995, constituindo a maior rede em operação na América do Sul naquele momento, como demonstra a figura 21 abaixo:

FIGURA 21 – Mapa da RNP em 1996

Fonte: RNP [http://www.rnp.br/rnp/backbone-historico.html] Acesso em abril de 2006