A quem pertence a rede? Essa é uma pergunta pouco comum de se ver nas discussões feitas em torno do fenômeno da sociedade em rede ou do impacto que as novas tecnologias da Informação e da Comunicação acarretam nos diferentes lugares. Há de certa forma uma naturalização do processo, quando na verdade ele se dá de forma ordenada pelo menos no que se refere a sua implantação, interesses e investimentos. Veremos com detalhes na segunda parte deste trabalho como a Internet foi criada e expandiu-se pelo mundo, da mesma forma, como se implantou no Brasil, e que agentes foram fundamentais neste processo.
No presente momento cabe entender que as antigas redes de telecomunicações servem de parâmetro, mas não explicam a totalidade da atual expansão das redes digitais e que, sem dúvida, as redes são um empreendimento conjunto de grandes corporações transnacionais provedoras de rede ou de prestação de serviços, como a Embratel no Brasil56 (atualmente
56 A Embratel (Empresa Brasileira de Telecomunicações S.A.) é a maior empresa brasileira de telecomunicações. Sua sede situa-se na cidade do Rio de Janeiro. A companhia era o braço de longa distância da Telebrás até ser adquirida pela companhia norte-americana MCI Communications por 2,65 bilhões de reais durante a privatização da Telebrás, em 1998. Desde 2004, a Embratel passou a ser dirigida pela Telmex, que a adquiriu no segundo trimestre daquele ano. A Embratel é uma grande participante tanto no mercado de voz quanto no mercado de dados brasileiro. A
grupo Telmex) ou de desenvolvimento tecnológico como a AT&T ou a siemens e os diferentes Governos em sua função jurídica e política de por em ação políticas orientadas ao desenvolvimento destas redes sobre os diferentes territórios57.
Dito desta forma, a questão que fica é: sob que princípios se organiza esta rede? O que existe nos lugares que correspondem aos nós desta rede?
Raffestin58 nos fala que não há lugares privilegiadores a priori, mas lugares de reunião, de nodosidades, de condensações de qualquer espécie, que provocam descontinuidades na distribuição. Diferentes densidades locacionais. Descontinuidades produzidas ao longo da história humana.
A centralidade ao nosso ver tem relação com a disponibilidade de recursos e com a possibilidade de realização de negócios. Ela socialmente não é uma relação geométrica, mas de busca e troca de recursos e possivelmente de administração dos mesmos. A centralidade assim definida é o lugar onde se resolvem e encaminham resoluções das necessidades: organização, troca, competição e por extensão o encontro de indivíduos, a produção de uma cultura. E assim definiram-se ao longo da história centralidades produzidas pela ação humana, algumas mais espontâneas, outras por ações ligadas ao planejamento e a estratégia. No chamado meio virtual as redes também respondem a estímulos semelhantes pois, a rede é feita para os homens, sob a determinação de interesses que partem de lugares centrais.
Segundo Raffestin, a centralidade é, “na sua essência, uma entidade com duas faces: um topos e uma tensão . Topos e tensão que persistem, enquanto estiverem ligados, e que dinamicamente se traduzem por movimentos
empresa possui redes digitalizadas tanto de microondas quanto de fibra óptica, assim como cinco satélites de comunicação, administrados por sua subsidiária, a Star One.
57 As redes podem ser iniciativas de grupos particulares sem fins lucrativos como a dos chamados partidos piratas nos países escandinavos que possuem redes que protegem a sua identidade e estão conectadas a rede mundial de computadores. Temos também as chamadas redes acadêmicas financiadas pelos governos e fundações que privilegiam apenas o intercâmbio de pesquisas e a colaboração científica, no entanto se prestam também a serem laboratório de iniciativas que posteriormente são repassadas às redes comerciais.
centrípetos ou centrífugos.”59 O topos dá força ao lugar, à identidade própria e aos potenciais polarizadores daquele locus, a tensão empurra para fora as suas necessidades, as suas faltas ou a sua própria força de expansão, extensão o que gera o fluxo, a rota, a trajetória ao conexo à sua complementariedade ou suplementaridade.
Traçando um paralelo entre a definição de Raffestin e o estudo das características básicas que sustentam o funcionamento técnico e humano da grande rede digital de computadores, a Internet. Podemos identificar semelhanças muito fortes, pois apesar da rede possuir uma arquitetura horizontal, as nodosidades e centralidades permitem a sua dinâmica.
Tecnicamente poderíamos trocar essas noções de nodosidade e centralidade sem mudar o seu significado, respectivamente, por roteadores e pontos de presença. Os roteadores (de grande porte) e os POP´s ou pontos de presença recebem e distribuem o tráfego de informações, geram a potência, a força organizativa da rede e situam-se em centros urbanos mais importantes. Vemos que as redes de alta tecnologia e de grande velocidade mimetizam ou tem por base o modo como a sociedade se organiza territorialmente há pelo menos dois séculos.
A teoria dos lugares centrais atualiza-se diante de tal análise, principalmente quando recorremos à sua gênese que tem por base um estudo empírico que classificava as centralidades e sua respectiva hierarquia a partir da densidade de linhas telefônicas (redes de comunicação!) na década de 30 na Alemanha60.
Dentro deste mundo em rede, de cidades em rede, há lugares marginalizados? A questão da marginalidade neste caso pode ser interpretada de duas formas na arquitetura das modernas redes que orientam a economia política mundial. Marginalidade como exclusão que temporalmente define a decadência e o fim enquanto lugar conectado, relacionado. Ou então como Raffestin trabalha, uma marginalidade como face da própria centralidade,
59 Obra citada, nota 58, p.187
constituindo também uma nodosidade, que no entanto não participa da gestão do poder, apenas trabalha para sua existência em nome de sua sobrevivência. Portanto na visão de Raffestin a marginalidade não está fora da centralidade, mas compõem o elemento que garante a sua complexidade e a própria coerência funcional.61 As duas formas de marginalidade são reais, mas a segunda abre a possibilidade para enxergar a face marginal como participante do processo.
A rede distribui-se territorialmente criando especialidades em cada lugar. Aproximações maiores ou menores entre as diversas localidades que integra, mas gerando uma unidade composta de diversidades funcionais e de provimento de recursos, tendo centralidades capitais (como os roteadores e servidores de rede) que dão significado e organicidade a todo sistema.
As redes, assim, organizam a apropriação de um dado território de forma a garantir uma estabilidade funcional às diversas localidades ou centralidades que a compõem e a manutenção de um poder que emana de uma centralidade capital. Esta definição está no âmago da gênese da noção de região em Geografia que muito ao contrário do que muitos pensam se fortalece com o processo globalizador, pois esta ganha funcionalidade e uma escala de conexão que perpassa, que atravessa as fronteiras nacionais, podendo de acordo com suas vantagens locacionais expandir seu caráter de poder e de centralidade (RAFFESTIN, 1993).
Essa organicidade territorial que chamamos em geografia de Região baliza e fundamenta a idéia e a constituição de uma estrutura em rede. A rede irá desempenhar o papel de conectar e suprir o uso dos recursos do território, podendo inclusive, de acordo com abundância deste recurso criar novas necessidades suplementares que engendrariam uma intensificação das trocas
61 Raffestin trabalha com o paralelo centralidade como classe dominante; centro de decisão e marginalidade como proletariado; realização do trabalho e submissão. Num quadro de possibilidade de reversão destas polaridades, a saber, a marginalidade constituir-se como centralidade e vice-versa, como numa revolução. O mesmo também é verdadeiro para a arquitetura de uma rede digital, já que sua arquitetura e hierarquia é móvel e a integração de inúmeros terminais inexpressivos pode constituir-se com o mesmo valor e importância funcional de um ponto de presença ou de um roteador.
internas e excedentes exportáveis para fora dos limites da região trazendo para si recursos capitais e poder. Raffestin atribuí a esse fenômeno o significado de “regiões-chave ou zonas de desenvolvimento multidimensional”, que tem na sua conexão em rede e fundamentalmente o tipo e freqüência de fluxo a razão de sua importância e por extensão de seu poder. Uma ordem de localizações, a partir da RNP62:
Figura 6 - Rede da RNP (Rede Nacional de Pesquisa), 27 pontos de presença ou nodalidades, interligando a rede acadêmica brasileira. Fonte: http://www.rnp.br/index.php
62 Espinha Dorsal ou o backbone da rede RNP2 foi projetada para atender a certos requisitos técnicos, garantindo a largura de banda necessária ao tráfego Internet de produção (navegação Web, correio eletrônico, transferência de arquivos); ao uso de serviços e aplicações avançadas; e à experimentação.
Há 27 pontos de presença (PoPs) instalados em todas as capitais do país, interligando mais de 300 instituições de ensino e pesquisa e algumas iniciativas de redes regionais – principalmente redes estaduais e redes metropolitanas de ensino e pesquisa.
A RNP possui conectividade internacional própria. Um canal de 155 Mbps e um de 1 Gbps são usados para tráfego Internet de produção. Uma outra conexão, de 155 Mbps, está ligada à Rede Clara, rede avançada da América Latina. Através da Clara, a RNP está conectada a outras redes avançadas no mundo, como a européia Géant e a norte- americana Internet2 (ver capítulo 2).