3. INTERNET COMO REDE DE APRENDIZAGEM
3.1 A Internet na educação
A Internet é uma rede de hardware e software, criada em 1969, e destinada aos universitários e militares americanos. “(...) a Internet tornou-se, hoje, um instrumento planetário de comunicação e de compartilhamento de conhecimentos” (ELIE, 2002, p. 277). Atualmente, ela se escora numa rede telefônica de qualidade e em interconexões internacionais rápidas, sendo uma série de redes interconectadas. Mais tarde, foi criada a world wide web, que corresponde a uma parcela das informações disponíveis na Internet, incluindo textos escritos e imagéticos, cujo acesso depende de softwares específicos como o Firefox, o Internet Explorer, o
Safari, entre outros.
Rousiley C. M. Maia coloca que a Internet compreende três fenômenos interligados. Para ele, o primeiro é que “(...) a Internet pode ser vista como um “complexo de conteúdos”, disseminados numa teia extremamente extensa, por
computadores em rede por todo o mundo, sem centro e sem fronteiras nacionais” (MAIA, 2002, p. 46). Ele ainda continua seu pensamento:
A web constitui-se num estoque altamente volumoso de informações de toda natureza e sobre qualquer tipo de objeto. Nesse sentido, a Internet ultrapassa a tradicional distinção entre as diversas modalidades de veículos de comunicação. Há na Internet uma competição pluralista entre diferentes
outles provenientes de diversos veículos (emissoras de TV, rádio, jornais,
revistas populares, revistas especializadas) que criaram seus sites on-line, e ainda um estoque de informação proveniente dos próprios usuários (MAIA, 2002, p. 46).
A world wide web é uma estrutura hipertextual global para compartilhamento de informação. Com ela, a Internet cria um ambiente de informação, como coloca Maia (2002), altamente denso, plural, de origens múltiplas, que ultrapassa por completo as práticas unidirecionais e monopolistas da mídia massiva.
O segundo fenômeno que Maia (2002) coloca é a Internet como ambiente de interconexão. A comunicação mediada por computador permite que qualquer sujeito possa tornar-se emissor; qualquer receptor possa tornar-se emissor e vice-versa ou qualquer receptor possa transformar-se em provedor de informação.
Em terceiro lugar, o fenômeno que Maia (2002) coloca é a Internet como forma de conexão coletiva, um espaço que se desdobra em novas conversas, debates, discussões, trocas de informações e consultas de maneira direta, contextualizada e rápida.
Esse espaço social que a Internet proporciona, em que as pessoas não precisam estar fisicamente presentes, cria um anonimato, onde a desigualdade do mundo real fica de fora. Fragoso (2011) afirma que a Internet, como campo e ferramenta de pesquisa, é rica, e isso deriva do fato de ter tantas informações e registros disponíveis online sobre a vida social.
Esse mundo virtual está preparado para lidar com a diversidade, constituindo- se um banquete para os professores de artes visuais, pois há uma imensa gama de imagens que reproduzem obras de arte, imagens do cotidiano, da publicidade, de fotografia, entre outras, para serem selecionadas e usadas no planejamento das aulas. É evidente que o professor de artes visuais não eliminará as demais ferramentas educacionais em detrimento das tecnologias de informação e
comunicação, mas utilizará a Internet como um aporte e um aliado importante para o ensino e aprendizagem.
Nesta pesquisa não utilizaremos a concepção de Internet como instrumento e sim como aborda Navarro (2009), que assume a tecnologia como uma realidade gestada pelo sistema simbólico da cultura como um todo. O novo espaço educativo que propomos reconhece o conhecimento como atividade social necessária para o cotidiano do aluno.
Caminhando nessa linha de pensamento, a Internet para Castells (2002) é uma criação cultural que permite a criação de uma nova economia para o desenvolvimento da inovação e da produtividade econômica. É uma tecnologia que expressa certa cultura. Essa dimensão cultural, para ele, significa o sistema de valores, crenças e modos de construção de uma sociedade, que é fundamental na produção e nas formas de Internet.
Para Castells (2002), a Internet é a cultura da liberdade, da interação e a participação cria uma plataforma tecnológica, que permite ampliar o intercâmbio artístico e cultural extraordinariamente, permitindo a criação de uma plataforma de cultura na sociedade que carrega a expressão da sociedade civil. Permite, ainda, uma quebra da definição institucional da cultura e da arte oficial.
Na Internet não existe uma cultura e sim uma variedade de culturas. Santos (2008) coloca que, graças aos progressos da informação, existe uma enorme mistura de povos, raças, culturas, gostos, em todos os continentes. Uma mistura de filosofias, em detrimento do racionalismo europeu. ”A técnica da informação alcança a totalidade de cada país, direta ou indiretamente. Cada lugar tem acesso ao acontecer dos outros” (SANTOS, 2008, p. 26).
Assim, podemos estar perto deste acontecer do outro, por exemplo, com o
site estudado nesta pesquisa, www.quilombosdoribeira.org.br. Com ele,
conseguimos conhecer, entender e analisar como as comunidades do vale do Ribeira vivem, o que fazem e como fazem.
A Internet traz novas potencialidades de desenvolvimento social, surgindo um novo espaço social. É uma nova forma de comunicação e experiência para construir o conhecimento. Rivas (2010) coloca que a Internet tem revolucionado a criação do conhecimento, pois esse conhecimento é fruto de um esforço coletivo e, como tal, seu grau de sofisticação é maior (um milhão de mentes unidas pensa mais que
uma). Também, geralmente, trata-se de um conhecimento solidário (não está sujeito a licenças ou patentes).
Nessa linha de raciocínio, Torres (2010) apresenta que a Web pertence ao um grupo de usuários, que recebe informações e também as cria, tendo acesso ao conhecimento e compartilhando-o e, finalmente, fazendo-o circular na rede para mudar e melhorar o mundo.
A Internet integra comunicação, conhecimento e entretenimento, num só lugar. Os usuários participam de uma forma ativa, criando várias possibilidades de interação, desenvolvendo autonomia e conseguindo ter um controle sobre suas escolhas. Para Rivas (2010), a escola tem que aproveitar e incluir essa nova forma de criar, apropriando-se das estratégias de comunicação disponíveis na Internet.
Já Torres é mais enfático e diz: “No valorar los cambios sociales e innovar consecuentemente em el ámbito educativo puede conducir al fracaso de la propia organización y, por ello, la capacidad de análisis y adaptación es tarea prioritária em el proceso de desarrollo y calidad de la institución escolar”3 (TORRES, 2010, p. 117). Para ele, a escola tem que educar para a vida e enfrentar o presente e o futuro tal e como são as referências sociais globais que nos rodeiam.
A escola não pode permanecer à margem da realidade tecnológica. Ela tem que inovar junto com as tecnologias para promover uma educação com qualidade, compartilhando interesses e opiniões entre alunos e professores e contemplando as diversas culturas do mundo.
A Internet como meio de comunicação aberto às diversas culturas em toda a sua diversidade torna-se uma mediação inclusiva, colocando todos os sujeitos sociais nesse universo digital. Castells (1999) afirma isso dizendo que a característica mais importante da multimídia é o fato dela captar em seu domínio a maioria das expressões culturais em toda a sua diversidade e que seu surgimento é equivalente ao fim da separação e até da distinção entre mídia audiovisual e mídia
3 Tradução: Não valorizar as mudanças sociais e inovar consequentemente em âmbito da educação
pode levar ao fracasso da própria organização e, portanto, a capacidade de análise e adaptação é tarefa prioritária no processo de desenvolvimento e qualidade da escola (TORRES, 2010, tradução nossa).
impressa, cultura popular e cultura erudita, entretenimento e informação, educação e persuasão.
A educação mediada pela Internet pode ser mais aberta e inclusiva, pois abrange os diversos grupos sociais, sem distinção alguma, tanto do ponto de vista de expor suas manifestações e hábitos culturais, quanto do acesso que estes grupos passam a ter cada vez mais. Castells afirma que “todas as expressões culturais (...) vêm juntas nesse universo digital, que ligam, em um supertexto histórico gigantesco, as manifestações passadas, presentes e futuras da mente comunicativa. Com isso, elas constroem um novo ambiente simbólico. Fazem da virtualidade nossa realidade” (CASTELLS, 1999, p. 458).
Ao fazer uso da tecnologia digital nesta pesquisa, utilizando um ambiente virtual como o site www.quilombosdoribeira.org.br, pode ser possível o entendimento da realidade do povo quilombola, o conhecimento da sua expressão cultural e das suas manifestações presentes, passadas e futuras.
O crescimento das redes interativas cria novos canais de comunicação, gerando mudanças de paradigmas na sociedade e fazendo surgir novas possibilidades de pesquisas. Castells aponta isso colocando: “As redes interativas de computadores estão crescendo exponencialmente, criando novas formas e canais de comunicação, moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldadas por ela” (CASTELLS, 1999, p. 40).
A escola, no meio dessa sociedade em transformação, está se vendo obrigada a se adequar junto com a sociedade. “En definitiva, las TIC están cada vez más presentes en la sociedade y su influencia, junto a la de outros factores, provoca cambios muy significativos ante los que la escuela debe reaccionar”4 (RIVAS, 2010, p. 41). Essa reação da escola à implantação das tecnologias já tem o apoio dos alunos, pois como afirma Rivas (2010), esse recurso desperta grande motivação e interesse dos discentes.
Essa motivação e interesse vêm das diversas formas que as tecnologias utilizam, como imagens, textos, sons, interatividade, entre outros. Para Rodriguez e Vega (2010), na multimídia nenhum desses meios têm uma importância maior que o
4 Tradução: Em suma, as TIC estão cada vez mais presentes na sociedade e sua influência, junto
com a de outros fatores, provoca mudanças muito significativas, às quais a escola deve reagir (RIVAS, 2010, tradução nossa).
outro, integrando-se de forma coordenada, complementando-se, não sendo redundante em nenhum momento. Sendo assim, a multimídia é um recurso com grandes possibilidades educativas, já que a informação chega de forma clara, fácil e fluida para os alunos, combinando diferentes canais de informação.
Rodriguez e Vega (2010) ainda em seu texto nos mostram as vantagens de se utilizar as multimídias. Para eles, o aluno melhora a sua aprendizagem, pois explora com liberdade, perguntando ao professor quando tem necessidade e repete temas que ainda não foram dominados antes de passar ao seguinte. Essa personalização favorece a possibilidade de atenção para a diversidade, pois se adapta aos distintos níveis de conhecimento, conseguindo-se uma redução das possíveis lacunas de aprendizagem.
Outras vantagens mostradas por eles são que a multimídia aumenta a motivação e o gosto de aprender devido à grande riqueza de animações, sons, imagens e a possibilidade de interagir com o programa. O aluno deixa de ser um mero receptor de conhecimento para se converter no protagonista de sua aprendizagem.
Colocam também que as multimídias reduzem as distrações dos alunos, retendo o aluno mais tempo com o mesmo conceito. Isso faz com que o tempo de aprendizagem se reduza, pois o ensino é personalizado, adequando-se aos diferentes estilos de aprendizagem. O aluno impõe seu ritmo, mantendo o controle do aprendizado, pois a informação é de fácil compreensão e o reforço é constante e eficaz.
Ao utilizar o site www.quilombosdoribeira.org.br como instrumento mediador para chegar ao objeto de estudo, estaremos trabalhando a cultura afro-brasileira de uma forma interativa, com todas as possibilidades educativas, como as imagens e os textos, de uma forma fácil, acessível e atrativa, ajudando no processo ensino e aprendizagem dos alunos, pois estarão muito mais motivados, menos propensos a distrações, sendo assim, os protagonistas de seu aprendizado.
A Internet, com tantas vantagens, com o tempo tem conquistado espaço dentro das escolas e necessita por isso de maior investigação a fim de subsidiar uma docência crítica dos temas de inovação propostos. Rodriguez e Vega (2010) colocam que a Internet está trazendo dia a dia muitas mudanças em nossa vida pessoal e profissional, propiciando, também, uma mudança na forma de concepção, desenvolvimento e distribuição de materiais educativos. Para eles é necessário ou
ao menos conveniente a modificação, a adaptação dos recursos existentes ou a criação de outros novos projetos para a realidade de cada escola.
Rivas (2010) também tem o mesmo raciocínio. Ele coloca que é interessante seguir estratégias que aumentem a eficiência do planejamento e economizem tempo. Para isso, ele aponta três ações: buscar, adaptar e criar. Buscar na Internet, adaptar ajustando às próprias necessidades e criar um novo material, que pode ser publicado na Internet posteriormente para outros professores usarem.
Ainda nessa linha de pensamento, Torres (2010) aponta que, no meio dessa imensidão de recursos que podemos encontrar na Web, precisamos selecioná-los, adaptá-los e utilizá-los de forma a alcançar uma concreta e eficaz promoção dos processos de ensino e aprendizagem.
Nesse novo estilo de ensino e aprendizagem, o professor deve rever seu papel em sala de aula. Mercado (2002) coloca que o professor deve orientar seus alunos sobre onde colher a informação, como tratá-la e como utilizá-la. Para ele, o educador deve ser o encaminhador da autopromoção e o conselheiro da aprendizagem, ora estimulando o trabalho individual, ora apoiando os trabalhos em grupos, reunidos por área de interesses.
Portella (2002) coloca a importância da Internet como ferramenta pedagógica, porque possibilita aos professores o contato com diversas páginas virtuais com informações imagéticas. Ela ainda acrescenta dizendo que, posteriormente, os professores poderão utilizar a Internet como ferramenta pedagógica com os alunos.
A maioria das escolas já tem as salas informatizadas, mas isso ainda é pouco. Estamos caminhando para uma realidade em que cada aluno terá seu próprio computador portátil (laptops), com o Programa Um Computador por Aluno (PROUCA), do Ministério da Educação. São mais ou menos 67.290 computadores portáteis chegando às escolas públicas. Para isso acontecer com qualidade, o Programa está capacitando professores e gestores no uso de tecnologias da informação em sala de aula para diminuir o analfabetismo digital dos professores para que saibam lidar com as novas gerações: os nativos digitais5.
5 Um nativo digital é aquele que nasceu e cresceu com as tecnologias digitais presentes em sua
vivência. Tecnologias como videogames, Internet, telefone celular, MP3, iPod, etc. Caracterizam-se principalmente por não necessitar do uso de papel nas tarefas com o computador.
Vivancos (2008) denomina esses alunos de geração Google: nasceram com a
Web, cobrem suas necessidades de informações com a Internet e geralmente
utilizam o navegador mais conhecido que é o Google. Diferem-se dos hábitos da geração anterior, que utiliza suportes impressos para obter as informações.
É pouco produtivo ter muitos computadores na escola se não houver uma proposta para a sua aplicação. Mercado (2002) coloca que para atingir com efeitos significativos o uso efetivo da tecnologia é fundamental considerar uma atualização intensiva inicial e um apoio contínuo, começando com os professores, que poderão depois atualizar seus alunos.
Esses computadores na escola mostram-nos uma realidade da nova sociedade, a sociedade do conhecimento. “Após a era industrial, estamos entrando na era da informação” (ELIE, 2002, p. 277). Para Eisenberg e Cepik (2002), a sociedade da informação é descrita em uma economia baseada no conhecimento, com um novo papel das finanças e uma nova sociabilidade em rede.
A cada dia, a Internet agrega mais e mais pessoas com uma oferta enorme de informações. Castells fala sobre a Comunicação Mediada por Computadores (CMC) e diz:
(...) dentro do segmento de usuários regulares da CMC, parece que esse veículo favorece a comunicação desinibida e, nas redes com base em empresas, estimula a participação de trabalhadores de status inferiores. Na mesma linha argumentativa, mulheres e outros grupos sociais oprimidos parecem tender a se expressar de forma mais aberta devido à proteção do meio eletrônico, embora devamos lembrar que, como um todo, as mulheres apresentavam uma minoria de usuários até 1999 (CASTELLS, 1999, p. 446).
A educação mediada por computadores não é só para nossos alunos, mas também para nós professores, para a nossa formação inicial e/ou continuada. Sabendo que somos a maioria do sexo feminino dentro da educação, então como Castells coloca por distanciamento dessa formação tecnológica já nos anos iniciais escolares fomos a minoria como usuários até 1999.
A inserção dos professores nas tecnologias vem mudando paulatinamente, mas deve ocorrer com urgência, pois todo professor contemporâneo não pode mais estar à margem do processo de acessibilidade à Internet, ou mesmo resistir a essa tecnologia, correndo o risco de ser um “excluído digital” e das questões que dizem
respeito não só ao cotidiano dos nossos jovens alunos, mas também de uma das formas mais poderosas de informação e comunicação nos dias atuais.
“Alfabetizarse digitalmente pues, supone uma oportunidade para construir desde el conocimiento um mundo meyor. Supone um reto para la esperanza de la libre expresión y el inicio de la colaboración verdadera”6 (TORRES, 2010, p. 147). A alfabetização digital de modo crítico e reflexivo é para todos então o princípio da mudança e da inovação, oportunizando a igualdade, a autonomia e o trabalho cooperativo na escola. Essa formação crítica auxilia a compreender o contexto social que vivemos e nos oportuniza novas ferramentas de mudança na era informacional.
3.2 O USO DA INTERNET NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ARTES