A objectividade na interpretação musical é um tema vasto e complexo que suscita algumas reflexões, quer sobre a obra musical, quer sobre a execução da mesma, quer ainda sobre a sua interpretação.
O objectivo da parte dois deste trabalho é o de integrar o próprio acto criativo da performance musical (pianística), enquanto tarefa criativa do seu intérprete, e a recriação da obra musical na perspectiva da criatividade.
Partindo da multiplicidade destes conceitos, não se estranhará a diversidade de teorias que abordam este tema. Por outro lado, torna-se evidente que cada época apresenta uma concepção de interpretação a que não é alheio todo o seu contexto histórico-cultural. Todavia, é a partir essencialmente do Romantismo que surge a necessidade de equacionar a tarefa criativa da interpretação com o surgimento da concepção de arte como criação absoluta, por um lado, e a aparição do virtuosismo por outro.
Não há, até ao momento, um estudo minucioso sobre o conhecimento dos processos e manifestações da interpretação musical, até porque só recentemente se teve consciência da amplitude da temática. Tal não significa, no entanto, que a questão não tenha já sido colocada. A verdade é que cada época a equacionou à sua maneira. A musicologia positivista abordou somente o aspecto técnico-filológico do problema interpretativo, enquanto investigadores italianos, de formação idealista, analisaram o problema de um modo global, sem ignorar o seu aspecto filosófico. A concepção positivista, sustentada por Parente, identifica a interpretação musical com a figura do técnico submisso. Em oposição, a concepção idealista, defendida por Salvatore
Pugliatti, confere uma missão criativa à interpretação, iniciando-se com a actividade filológico-prática. Para além destas teorias, muitas outras aqui se poderiam referir. No entanto, não é este o objecto da nossa reflexão.
Importa, pois, delimitar os contornos, quer históricos quer conceituais, desta problemática. A questão da objectividade da interpretação vem sendo discutida ao longo do tempo. Todavia, até hoje, não foi possível chegar a conclusões peremptórias, tal como acontece relativamente ao conceito de criatividade. Torna-se, pois, necessário fazer, de um modo geral, uma abordagem desta temática, a qual irá necessariamente incidir sobre os seguintes aspectos: a partitura, a sua execução, o intérprete e, em última instância, a obra musical que chega ao público, juiz último da interpretação.
Antes, porém, uma advertência. Dada a vastidão do tema, não irão aqui ser dissecadas as diferentes teorias que abordam o problema da leitura das obras musicais em diferentes épocas históricas. Este problema, bem diferente do que será aqui analisado, é também ele merecedor da atenção dos historiadores e musicólogos. Todavia, dada a limitação deste trabalho, não será possível, por ora, abordá-lo. Tal não significa que, aqui ou além, se faça uma leve referência a este problema da notação musical.
A execução musical, enquanto tarefa do intérprete, é o resultado de uma combinação de factores variados, tais como: a partitura, o intérprete e o instrumento.
A partitura é o limite mínimo e o máximo de toda e qualquer tarefa de execução de uma obra. É o objecto da actividade musical. Pretende-se com isto dizer que a partitura é o ponto de partida do intérprete. Aqui vigora o mais rígido princípio da execução, nomeadamente, o da fidelidade ao texto.
O intérprete, por seu lado, será o actualizador da obra, no momento da sua execução. Será, numa outra perspectiva, o segundo criador. Aqui importa fazer uma
distinção entre o mero executante e o intérprete. Tanto um como o outro estão sujeitos aos limites impostos pela partitura, podendo contudo ser-lhes lícito uma adaptação que atenda à diversidade do instrumento musical - veículo da actualização da obra - para o qual a obra original foi escrita. Todavia, tal adaptação deve estar ela própria sujeita aos limites que a obra impõe, uma vez que toda a obra foi concebida por um determinado compositor numa determinada época para um determinado instrumento. E estes devem, também, ser elementos definidores e integrantes daquele princípio da fidelidade ao texto, na medida em que o texto é ele mesmo a obra que vai ser objecto da execução. Daí que, toda a adaptação ao texto feita em nome das condicionantes da criação original está, naturalmente, legitimada. Tal não significa que a adaptação seja ela própria uma actividade criadora. Pelo contrário. Qualquer adaptação é, sob pena de deixar de ser uma adaptação, uma mera tarefa de execução da partitura que permite a intemporalidade da obra. Pode afirmar-se que o texto deve ser o princípio e o fim, não só da execução musical como também da tarefa criativa da interpretação.
A distinção entre o mero executante e o intérprete, como se verá adiante, terá, pois, de ser encontrada noutra sede que não a da mera execução em obediência à partitura. Com efeito, para além da tarefa de execução, à qual está subordinado, encontra-se a da criação, onde o sujeito, isto é, o intérprete, materializa todas as suas vivências dando-lhe um carácter único.
A obra musical apresenta-se como o resultado da actualização da obra pelo intérprete no respeito absoluto pela partitura musical. Daqui poderá resultar ou uma mera execução da obra ou uma interpretação da mesma, a qual, necessariamente, é muito mais do que uma simples execução. É, ou deve ser, pela sua natureza, um acto criativo do intérprete, o qual, por sua vez, constitui uma recriação da obra criada pelo
compositor. E é o público, na sua autoridade máxima, que ajuíza a ausência ou presença de criatividade na execução, cunhando-a como uma execução ou uma interpretação.