O presente capítulo integra o estudo empírico deste trabalho, expondo as várias fases processuais para a consecução dos objectivos da investigação, isto é, identificar componentes importantes da percepção da criatividade na interpretação pianística; observar variações da percepção da criatividade em função do estatuto face à
formação*; e observar variações da percepção da criatividade em função do género.
De acordo com o exposto no corpo teórico do trabalho (Cap. I e III, conceitos e terminologias, e interpretação, respectivamente), o contexto global do estudo empírico relaciona-se com a interpretação pianística e a criatividade expressa aquando da sua execução.
Na Psicologia da Música existe um número considerável de estudos relacionados com esta temática: Adaman, J., Blaney, P. (1995); Ainsworth, J. (1970); Anderson, T. J. (1977); Aranosian, C. (1981); Cleall, C. (1981); Caldwell, R. (1991); Elliot, D. (1989); Granat, H. (1979); Kurkela, K. (1988), entre outros. No entanto, na sua grande maioria, estão direccionados para as áreas da composição, da improvisação e da educação.
De toda a literatura consultada, não foram encontrados registos relacionados com percepção da criatividade na performance pianística, pelo que se pretende com este estudo investigar o acto criativo do intérprete e a forma como é percepcionada a
* Estatuto face à formação, refere-se à formação dos inquiridos, ou seja, ao grau académico dos elementos participantes no estudo, designadamente, professores de piano, alunos do curso superior e alunos do curso complementar.
criatividade, com o intuito de encontrar as dimensões que a caracterizam, bem como os factores que contribuem para uma realização mais criativa.
Assim, serão analisadas a existência ou não de diferenças estatisticamente significativas em cada uma das variáveis escolhidas - estatuto face à formação, género e criatividade -, esperando que na variável estatuto face à formação existam diferenças significativas face às questões colocadas no questionário (QPECIP), as quais poderão esclarecer algumas das questões relacionadas com o currículo na formação dos elementos dos diferentes grupos. Na variável género não são esperadas diferenças significativas, mesmo tendo em atenção que possam existir diferentes sensibilidades, que são próprias dos dois géneros (feminino e masculino) na apreciação da obra em questão (Variações Goldberg de J. S. Bach). Para a criatividade é esperado que se verifiquem resultados que traduzam a pertinência dos itens seleccionados (13, articulação, 15, ornamentação e 16, recursos expressivos) como elementos constitutivos para o esboço de um conceito de criatividade neste âmbito.
O tipo de informação recolhida no estudo deverá contribuir para um enriquecimento num domínio de investigação ainda "embrionário" no campo da música, especificamente na percepção da criatividade. As diferentes análises a realizar poderão trazer resultados potencialmente úteis, não só para a formação como também para a compreensão do conceito de criatividade e percepção da mesma.
4.2 - Método
4.2.1- Selecção e caracterização da amostra
Participam neste estudo sessenta (60) elementos (n = 60), sendo 65% (39) do sexo feminino e 35% (21) do sexo masculino.
Quadro 1 - Selecção da amostra
Género
Formação Género Professores de
Piano Superior de Piano Alunos do Curso
Alunos do Curso Complementar de
Piano
Feminino 14 14 11
Masculino 6 6 9
Na identificação dos inquiridos foi pedido que estes indicassem o grau académico, o género e a idade. Este último aspecto teve como único objectivo uma mais completa caracterização da amostra. Assim, a idade média dos participantes é de 25.5 anos, sendo a idade mais frequente os 18 anos, tendo o indivíduo mais novo 14 anos e o mais velho 61 anos.
Os indivíduos da amostra distribuem-se uniformemente por três tipos de formação: vinte (20) Professores de Piano, vinte (20) Alunos do Curso Superior e vinte (20) Alunos do Curso Complementar de Piano*, sendo oriundos de diferentes instituições, conforme o quadro apresentado.
Quadro 2 - Descrição da amostra
Professores de
Piano Superior de Piano Alunos do Curso
Alunos do Curso Complementar de Piano Univ. de Aveiro 2 20 Conserv. do Porto 1 __ Ac. de Música de Oliveira de Azeméis 3 „ — Ac. de Música de Espinho 2 — 5 Ac. de Música de Paços de Brandão 5 — 6 Ac. de Música de
Santa Maria da Feira 7 — 9
Número de elementos 20 20 20
Total 60
Os alunos do Curso Superior de Piano concentram-se na Universidade de Aveiro, por ser a única Instituição usada neste estudo onde é ministrada uma formação de nível superior neste domínio. Os alunos do Curso Complementar distribuem-se por cinco instituições diferentes, por não ser possível reunir vinte elementos numa só Escola. Os professores de piano distribuem-se um pouco por todas as instituições, conforme a disponibilidade manifestada pelos mesmos.
Na formação de cada um dos grupos esteve sempre presente o cuidado de verificar que a formação curricular era similar, por forma a não introduzir outro tipo de variáveis que eventualmente pudessem contaminar o objectivo inicial desta investigação.
4.2.2 - Os instrumentos de avaliação
A prova utilizada é constituída por um questionário criado especificamente para o efeito. Para tal foram realizadas algumas reflexões com personalidades ligadas ao
mundo da Música, nomeadamente pianistas e pedagogos, com o objectivo de serem apurados elementos importantes para a elaboração do mesmo, assegurando, assim, que os itens escolhidos contemplassem as dimensões que se pretendiam avaliar. O presente questionário apresenta-se sob o título "Questionário sobre percepção de elementos criativos na interpretação pianística" (QPECIP), com vinte e sete (27) itens, a ser preenchido após a visualização e audição em vídeo e DVD de parte de uma obra de J. S. Bach, Variações Goldberg, interpretada por dois pianistas, designadamente Glenn Gould e András Schiff. O facto de as duas interpretações serem apresentadas em meios audiovisuais diferentes, poderia criar uma variável parasita. Esta variável não foi considerada, uma vez que o objectivo do estudo não é comparar os intérpretes, mas sim a criatividade manifestada por cada um deles. O tratamento desta variável seria um assunto interessante a tratar noutro âmbito, designadamente com o objectivo de estudar a influência que os meios audiovisuais provocam na percepção de elementos criativos na interpretação.
As partes escolhidas foram: Ária, Variação 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 10, 14 e 15, tendo sido seleccionadas aleatoriamente. Esta triagem foi realizada por considerar que a audição da obra na íntegra seria demasiado extensa, podendo eventualmente traduzir-se num cansaço e dispersão por parte dos intervenientes. Por outro lado, seria difícil de conjugar com a disponibilidade dos participantes, podendo pôr em risco a realização do estudo.
O questionário é apresentado sob a forma de perguntas fechadas, correspondendo cada item a um aspecto diferente dos elementos que, eventualmente, constituam o processo interpretativo. Assim, cada afirmação não pretende ter qualquer tipo de relação com a anterior nem com a posterior, apesar de em alguns casos existir uma certa continuidade nos aspectos abordados.
4.2.3 - Procedimentos
A administração dos instrumentos de avaliação neste estudo decorreu nas instituições escolares de onde são oriundos os elementos da amostra. Aos elementos intervenientes no processo foi explicado verbalmente, e em simultâneo, o objectivo do estudo, referindo-se que este faz parte da investigação em curso sob o tema "Criatividade e Interpretação Musical". Não são explicados pormenores do trabalho em investigação, por forma a evitar qualquer tipo de influências que possam enviesar ou bloquear as respostas dos intervenientes aquando do preenchimento do questionário. É ainda explicado que este é anónimo, pedindo-se somente para identificar o grau académico, o género e a idade.
Inicialmente, foi apresentada a interpretação de Glenn Gould em DVD, seguindo-se a interpretação de András Schiff em vídeo. Nas várias administrações, a ordem da visualização/audição foi sempre a mesma, por forma a não constituir qualquer tipo de alteração na qualidade das respostas, caso contrário poderia, eventualmente, traduzir-se em resultados finais diferentes. Apesar de a administração do questionário ter sido realizada em diferentes momentos, não foram balanceados os grupos, uma vez que não era objectivo do estudo compará-los, mas sim verificar se todos os elementos da amostra apontavam para as mesmas medidas de criatividade. Depois de terminada a apresentação da obra {Variações Goldberg), foi distribuído o questionário a cada participante para o respectivo preenchimento.
A realização do trabalho, audição/visualização da obra e preenchimento do questionário teve a duração de uma hora, aproximadamente. O espaço onde decorreu o trabalho foi detalhadamente estudado, por forma a contemplar o isolamento do som exterior e possíveis motivos que dispersassem a atenção dos intervenientes.
Para a análise do instrumento de avaliação (QPECIP) foram utilizados testes de hipóteses não paramétricos, não só porque eram violados alguns dos pressupostos essenciais para a realização dos testes paramétricos, como, por exemplo, a necessidade das distribuições dos grupos de comparação terem uma distribuição normal, mas também pelo facto de termos dimensões de amostras muito pequenas, sendo este tipo de testes (não paramétrico) mais robustos para estes casos. Assim, no Anexo 4, encontram-se os outputs do SPSS utilizados para os testes de Kruskal-Wallis, Mann-Whitney e de Kolmogorov-Smirnov, tendo sido utilizado um nível de significância de 5% (a = 0.05) para rejeitarmos a hipótese nula dos testes de hipóteses realizados.
Para as análises estatísticas dos resultados, recorreu-se ao programa SPSS (versão 11.0), sendo efectuadas várias análises descritivas e inferenciais dos resultados.