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A integral estocástica de Ito para processos simples

No documento 1.3. Movimento browniano (páginas 82-88)

2. A integral estocástica 71

2.2. A integral de Ito

2.2.2. A integral estocástica de Ito para processos simples

com

yi=1

2(ti−1+ti), i=1...n,

possuem limite pelo quadrado da média igual a 0.5Bt2(você poderá verificar este fato com os mes-mos argumentos e ferramentas utilizadas para o casoSn). Esta quantidade pode ser interpretada como o valor de outra integral estocástica,Rt

0Bs◦d Bs, digamos. As somas de Riemann-Stieltjes Pk

i=1By

iiB,k=1...n, não constituem um martingal, e nem o processo limite 0.5Bt2.1No

en-1Verifique-o!

tanto, o último processo satisfaz a uma bela propriedade. A relação Z t

0 Bs◦d Bs =1

2B2t (2.9)

indica quea regra da cadeia clássicaé válida.

Para sermos mais precisos, sejab(t)uma função diferenciável determinística, satisfazendo a relaçãob(0) =0. Sabemos que

1 2

d b2(s)

d s =b(s)d b(s) d s .

Integrando ambos os membros, obtemos as regras clássicas do cálculo:

1 2

Z t 0

d b2(s) d s d s=1

2b2(t) = Z t

0

b(s)d b(s) d s d s=

Z t 0

b(s)d b(s).

Se substituirmosformalmentea funçãob(t)pelo movimento brownianoBt, obteremos o mesmo valor obtido no caso da integral estocástica (2.9). No entanto, trata-se de uma substituição for-mal, uma vez que esta regra da cadeia é aplicável somente para funções diferenciáveis, e não para caminhos amostrais brownianos.

A integral estocástica, que é obtida com um limite pelo quadrado da média das somas de Riemann-Stieltjes, calculadas nos pontos médios dos intervalos[ti−1,ti]é denominadaintegral de Stratonovich. Iremos considerá-la na seção 2.4. Ela resultará em uma ferramenta bastante útil para resolvermos as equações diferenciais estocásticas de Ito.

Assim, conseguimos estudar mais um fato a ser utilizado:

A fórmulaRt

0Bsd Bs =0.5(B2t−t)sugere que a clássica regra da cadeia da integração não é válida para as integrais estocásticas de Ito. Na seção 2.3 acharemos uma forma da regra da cadeia adequada à integração de Ito: é olema de Ito.

2.2. A integral de Ito

No que se segue, consideraremos que todos os processos estão sobre um mesmo intervalo fixado[0,T].

Primeiramente, introduziremos uma classe apropriada de processos Ito integráveis.

O processo estocásticoC = (Ct,t ∈[0,T])é ditosimplesse satisfizer às seguintes propriedades:

Existe uma partição

τn: 0=t0<t1<...,tn−1<tn=T, e uma seqüência(Zi,i=1...n)de variáveis aleatórias tais que

Ct=

(Zn, se t=T,

Zi, se ti−1≤t<ti, i=1...n.

A seqüência(Zi)é adaptada a(Fti−1,i =1...n), i.e., Zi é uma função do movi-mento browniano até o instanteti−1, e satisfazEZi2<∞para todoi.

Exemplo 2.2.1. (Alguns processos simples) A função determinística

fn(t) = (n−1

n , se t=T,

i−1

n , se i−1n ≤t<ni, i=1...n,

é uma função do tipo escada, e portanto trata-se de um processo simples. Defina agora o processo

Fig. 2.3 — Duas aproximações de um caminho amostral browniano por meio de processos simplesC(linhas interrompidas), dadas por(2.10)

Ct=

(Zn= Btn−1, se t=T,

Zi = Bti−1, se ti−1≤t<ti, i=1...n, (2.10) para uma dada partiçãoτnde[0,T]. Trata-se de um processo simples: os caminhos são constantes por trechos, eCté uma função de movimento browniano até o instantet. Para uma ilustração do processoC para duas partições distintas, veja a figura 2.3

Aintegral estocástica de Ito de um processo simples C sobre[0,T]é dado por Z T

0

Csd Bs=:Xn

i=1

Ct

i1(Bt

i−Bt

i1) = Xn

i=1

ZiiB.

Aintegral estocástica de Ito de um processo simples C sobre[0,t],tk−1 ≤ t ≤ tk é dada por

Z t 0

Csd Bs := ZT 0

CsI[0,t](s)d Bs = Xk−1

i=1

ZiiB + Zk(Bt − Bt

k−1), (2.11) ondeP0

i=1ZiiB=0.

Assim, os valores da integral estocástica de Ito Rt

0Csd Bs é a soma de Riemann-Stieltjes de um caminho deC, calculada nos pontos extremantes esquerdos dos intervalos[ti−1,ti], com respeito ao movimento browniano. Se t < tn, o ponto t pode ser formalmente interpretado como o último ponto da partição de[0,t].

Fig. 2.4 — A integral estocástica de ItoRt

0Csd Bscorrespondente aos caminhos deCeBdados na figura 2.3

Exemplo 2.2.2. (Continuação do exemplo 2.2.1)

Recorde-se dos processos simples f eCdo exemplo 2.2.1. As correspondentes integrais estocásti-cas de Ito são dadas por

Z t 0

fn(s)d Bs= Xk−1

i=1

i−1

n (Bi/n−B(i−1)/n) +k−1

n (Bt−B(k−1)/n), parat∈[(k−1)/n,k/n], e por

Z t 0

Csd Bs= Xk−1

i=1

Bt

i−1iB+Bt

k−1(Bt−Bt

k−1), (2.12)

2.2. A integral de Ito

parat∈[tk−1,tk]. Veja as figuras 2.3 e 2.4 para uma visualização dos caminhos amostrais deB,C e as correspondentes integrais estocásticas de Ito.

Já sabemos pelo exemplo 2.1.2 que

n→∞lim Zt

0

fn(s)d Bs(ω) = Z t

0

s d Bs(ω),

onde o segundo membro da equação é uma integral de Riemann-Stieltjes com respeito a um dado caminho amostral browniano. Nós também estudamos na seção 2.1.2 que as somas de Riemann-Stieltjes que aparecem em (2.12) em geral não convergem, quando a m.a.p.(τn)→0, para um dado caminho amostral de movimento browniano.

A forma da integral estocástica de Ito para processos simples nos trazem à memória a transformada martingal. Na página 67 foi introduzido o conceito de transformada martingalCe•Y), onde

(Ce•Y)0=0, (Ce•Y)n= Xn

i=1

CeiYi, n=1,2,....

Aqui,Y = (Yn)é uma seqüência de diferenças de martingais com respeito à dada filtração eCe= (Ce)n)é uma seqüência previsível. Neste sentido, a seqüência das integrais estocásticas de Ito

‚Ztk 0

Csd Bs, k=0...n

Œ

de processos simples(Cs,s≤t)é uma transformada martingal com respeito á filtração(Ftk,k= 0...n).

Mais ainda, a asserção seguinte é verdadeira:

O processo estocásticoIt(C) =Rt

0Csd Bs,t∈[0,T], é um martingal com respeito á filtração natural browniana(Ft,t∈[0,T]).

Verificamos aqui as propriedades definidoras de martingais expressas na página 65. Por conveniên-cia, relembrá-las-emos em termos deI(C):

• E|It(C)|<inf para todot∈[0,T].

• I(C)está adaptado a(Ft).

E(It(C)|Fs) =Is(C) s<t (2.13) A primeira propriedade é conseqüência, por exemplo, da propriedade da isometria (2.14) dada abaixo.

A adaptação de I(C)ao movimento browniano pode ser facilmente vista: no instantet, as variáveis aleatóriasZ1...Zke∆1B...∆k−1B,Bt−Btk−1, que ocorrem na relação definidora (2.11), são todas funções de movimento browniano até o instantet.

Falta verificar a relação crucial (2.13). Trata-se de um bom exercício de utilização das regras da esperança condicional, que sugerimos para você fazer por si próprio. Não indicamos quais as regras a serem usadas, já que estamos assumindo que você já as conheça.

Primeiramente, suponha ques<tes,t∈[tk−1,tk]. Observe que It(C) = Itk−1(C) +Zk(Bs−Btk−1) +Zk(Bt−Bs)

= Is(C) +Zk(Bt−Bs),

ondeIs(C)eZksão funçoes de movimento browniano até o instanteseBt−Bs é independente deFs. Portanto,

E(It(C)|Fs) =Is(C) +ZkE(Bt−Bs) =Is(C).

Isto prova (2.13) neste caso.

O caso em que s∈[tl−1,tl]et ∈[tk−1,tk]para valores l <k, podem ser tratados analoga-mente. Verifique (2.13); faça uso da decomposição

It(C) = [It

i−1(C) +Zl(Bs−Bt

i−1)] +

Zl(Bt

l−Bs)

Xk−1 i=l+1

ZiiB+Zk(Bt−Bt

k−1)



= Is(C) +R(s,t), e mostre queE(R(s,t)|Fs) =0.

Propriedades da integral estocástica de Ito para processos simples

É fácil verificar que E It(C) =0 uma vez queZi e∆iB na definição (2.11) são independentes, e E(ZiiB) =EZiE∆iB=0. Assim,

A integral estocástica de Ito possui esperança zero.

De forma alternativa, poderíamos argumentar da seguinte maneira: uma vez queI(C)é um mar-tingal, possui uma função de esperança constante. Além disto, I0(C) =0, e portantoE It(C) = E I0(C) =0.

Outra propriedade da integral estocástica de Ito para processos simples acabará sendo crucial para a definição geral da integral estocástica de Ito.

A integral estocástica de Ito satisfaz àpropriedade da isometria:

E

‚Z t

0 Csd Bs

Œ2

= Zt

0 ECs2d s, t∈[0,T]. (2.14)

Nós mostramos então esta propriedade. Para o caso que está sendo apresentado, supomos que t =tk, para algumk. De fato, se tk−1 <t <tk, observe que 0= t0 <...< tk−1 <tk0 =t é

2.2. A integral de Ito

uma partição de[0,t], de modo que você poderá considerar formalmentet como um ponto da partição. Temos, paraWt=ZiiB,

E[It(C)]2= Xk

i=1

Xk j=1

E(WiWj). (2.15)

Você poderá verificar que, para i > j, as variáveis aletóriasWi eWj são não correlacionadas:

observe queWj eZi são funções do movimento browniano até o instanteti−1, e portanto são independentes de∆iB. Concluímos que

E(WiWj) =E(WjZi)E(∆iB) =0.

Assim, os termos deE(WiWj)em (2.15) se anulam parai6=j, e portanto obtemos

E[It(C)]2= Xk

i=1

E(ZiiB)2= Xk

i=1

EZi2E(∆iB)2= Xk

i=1

EZi2(ti−ti−1).

O segundo membro nada mais é do que a integral de RiemannRt

0 f(s)d s da função em escada f(s) = ECs2, que coincide comEZi2 para ti−1 ≤ t < ti. (Verifique isto!) Assim, provamos a propriedade da isometria da integral estocástica de Ito.

A integral estocástica de Ito possui várias propriedades em comum com as integrais de Riemann e Riemann-Stieltjes.

A integral estocástica de Ito élinear:

Para constantesc1ec2e processos simplesC(1)eC(2)sobre[0,T], Z t

0

”c1Cs(1)+c2Cs(2)—

d Bs=c1 Z t

0

Cs(1)d Bs+c2 Zt

0

Cs(2)d Bs. A integral estocástica de Ito é aditiva em intervalos adjacentes:

para 0≤t≤T,

ZT

0 Csd Bs = Z t

0 Csd Bs+ ZT

t

Csd Bs.

A prova da linearidade não é difícil; tente você mesmo. Antes de começar, você precisa definirC(1) eC(2)sobre uma mesma partição. Isto é sempre possível: seτ(1)n é uma partição correspondente aC(1), eτ(2)m a partição correspondente aC(2), você poderá obter uma partição comum τ com no máximon+m pontos distintos tomando a união deτ(1)n eτ(2)m. Claramente, trata-se de um refinamento das duas partições originais. Os valores dos I(C(i))s permanecem os mesmos com esta nova partição. A linearidade é conseqüência da linearidade das somas de Riemann-Stieltjes subjacentes.

A aditividade em intervalos adjacentes é conseqüência da linearidade, uma vez que ZT

0

Csd Bs= ZT

0

”Cs(1)+Cs(2)— d Bs, ondeCs(1)=CsI[0,t](s)eCs(2)=CsI(t,T](s)são dois processos simples Finalmente enunciamos a seguinte propriedade:

O processoI(C)possui caminhos amostrais contínuos.

Isto sai da definição deI(C): a relação

It(C) =Iti−1(C) +Zi(Bt−Bti−1), ti−1≤t≤ti. é satisfeita e os caminhos amostrais do movimento browniano são contínuos.

No documento 1.3. Movimento browniano (páginas 82-88)

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