2. A integral estocástica 71
2.2. A integral de Ito
2.2.2. A integral estocástica de Ito para processos simples
com
yi=1
2(ti−1+ti), i=1...n,
possuem limite pelo quadrado da média igual a 0.5Bt2(você poderá verificar este fato com os mes-mos argumentos e ferramentas utilizadas para o casoSn). Esta quantidade pode ser interpretada como o valor de outra integral estocástica,Rt
0Bs◦d Bs, digamos. As somas de Riemann-Stieltjes Pk
i=1By
i∆iB,k=1...n, não constituem um martingal, e nem o processo limite 0.5Bt2.1No
en-1Verifique-o!
tanto, o último processo satisfaz a uma bela propriedade. A relação Z t
0 Bs◦d Bs =1
2B2t (2.9)
indica quea regra da cadeia clássicaé válida.
Para sermos mais precisos, sejab(t)uma função diferenciável determinística, satisfazendo a relaçãob(0) =0. Sabemos que
1 2
d b2(s)
d s =b(s)d b(s) d s .
Integrando ambos os membros, obtemos as regras clássicas do cálculo:
1 2
Z t 0
d b2(s) d s d s=1
2b2(t) = Z t
0
b(s)d b(s) d s d s=
Z t 0
b(s)d b(s).
Se substituirmosformalmentea funçãob(t)pelo movimento brownianoBt, obteremos o mesmo valor obtido no caso da integral estocástica (2.9). No entanto, trata-se de uma substituição for-mal, uma vez que esta regra da cadeia é aplicável somente para funções diferenciáveis, e não para caminhos amostrais brownianos.
A integral estocástica, que é obtida com um limite pelo quadrado da média das somas de Riemann-Stieltjes, calculadas nos pontos médios dos intervalos[ti−1,ti]é denominadaintegral de Stratonovich. Iremos considerá-la na seção 2.4. Ela resultará em uma ferramenta bastante útil para resolvermos as equações diferenciais estocásticas de Ito.
Assim, conseguimos estudar mais um fato a ser utilizado:
A fórmulaRt
0Bsd Bs =0.5(B2t−t)sugere que a clássica regra da cadeia da integração não é válida para as integrais estocásticas de Ito. Na seção 2.3 acharemos uma forma da regra da cadeia adequada à integração de Ito: é olema de Ito.
2.2. A integral de Ito
No que se segue, consideraremos que todos os processos estão sobre um mesmo intervalo fixado[0,T].
Primeiramente, introduziremos uma classe apropriada de processos Ito integráveis.
O processo estocásticoC = (Ct,t ∈[0,T])é ditosimplesse satisfizer às seguintes propriedades:
Existe uma partição
τn: 0=t0<t1<...,tn−1<tn=T, e uma seqüência(Zi,i=1...n)de variáveis aleatórias tais que
Ct=
(Zn, se t=T,
Zi, se ti−1≤t<ti, i=1...n.
A seqüência(Zi)é adaptada a(Fti−1,i =1...n), i.e., Zi é uma função do movi-mento browniano até o instanteti−1, e satisfazEZi2<∞para todoi.
Exemplo 2.2.1. (Alguns processos simples) A função determinística
fn(t) = (n−1
n , se t=T,
i−1
n , se i−1n ≤t<ni, i=1...n,
é uma função do tipo escada, e portanto trata-se de um processo simples. Defina agora o processo
Fig. 2.3 — Duas aproximações de um caminho amostral browniano por meio de processos simplesC(linhas interrompidas), dadas por(2.10)
Ct=
(Zn= Btn−1, se t=T,
Zi = Bti−1, se ti−1≤t<ti, i=1...n, (2.10) para uma dada partiçãoτnde[0,T]. Trata-se de um processo simples: os caminhos são constantes por trechos, eCté uma função de movimento browniano até o instantet. Para uma ilustração do processoC para duas partições distintas, veja a figura 2.3
Aintegral estocástica de Ito de um processo simples C sobre[0,T]é dado por Z T
0
Csd Bs=:Xn
i=1
Ct
i−1(Bt
i−Bt
i−1) = Xn
i=1
Zi∆iB.
Aintegral estocástica de Ito de um processo simples C sobre[0,t],tk−1 ≤ t ≤ tk é dada por
Z t 0
Csd Bs := ZT 0
CsI[0,t](s)d Bs = Xk−1
i=1
Zi∆iB + Zk(Bt − Bt
k−1), (2.11) ondeP0
i=1Zi∆iB=0.
Assim, os valores da integral estocástica de Ito Rt
0Csd Bs é a soma de Riemann-Stieltjes de um caminho deC, calculada nos pontos extremantes esquerdos dos intervalos[ti−1,ti], com respeito ao movimento browniano. Se t < tn, o ponto t pode ser formalmente interpretado como o último ponto da partição de[0,t].
Fig. 2.4 — A integral estocástica de ItoRt
0Csd Bscorrespondente aos caminhos deCeBdados na figura 2.3
Exemplo 2.2.2. (Continuação do exemplo 2.2.1)
Recorde-se dos processos simples f eCdo exemplo 2.2.1. As correspondentes integrais estocásti-cas de Ito são dadas por
Z t 0
fn(s)d Bs= Xk−1
i=1
i−1
n (Bi/n−B(i−1)/n) +k−1
n (Bt−B(k−1)/n), parat∈[(k−1)/n,k/n], e por
Z t 0
Csd Bs= Xk−1
i=1
Bt
i−1∆iB+Bt
k−1(Bt−Bt
k−1), (2.12)
2.2. A integral de Ito
parat∈[tk−1,tk]. Veja as figuras 2.3 e 2.4 para uma visualização dos caminhos amostrais deB,C e as correspondentes integrais estocásticas de Ito.
Já sabemos pelo exemplo 2.1.2 que
n→∞lim Zt
0
fn(s)d Bs(ω) = Z t
0
s d Bs(ω),
onde o segundo membro da equação é uma integral de Riemann-Stieltjes com respeito a um dado caminho amostral browniano. Nós também estudamos na seção 2.1.2 que as somas de Riemann-Stieltjes que aparecem em (2.12) em geral não convergem, quando a m.a.p.(τn)→0, para um dado caminho amostral de movimento browniano.
A forma da integral estocástica de Ito para processos simples nos trazem à memória a transformada martingal. Na página 67 foi introduzido o conceito de transformada martingalCe•Y), onde
(Ce•Y)0=0, (Ce•Y)n= Xn
i=1
CeiYi, n=1,2,....
Aqui,Y = (Yn)é uma seqüência de diferenças de martingais com respeito à dada filtração eCe= (Ce)n)é uma seqüência previsível. Neste sentido, a seqüência das integrais estocásticas de Ito
Ztk 0
Csd Bs, k=0...n
de processos simples(Cs,s≤t)é uma transformada martingal com respeito á filtração(Ftk,k= 0...n).
Mais ainda, a asserção seguinte é verdadeira:
O processo estocásticoIt(C) =Rt
0Csd Bs,t∈[0,T], é um martingal com respeito á filtração natural browniana(Ft,t∈[0,T]).
Verificamos aqui as propriedades definidoras de martingais expressas na página 65. Por conveniên-cia, relembrá-las-emos em termos deI(C):
• E|It(C)|<inf para todot∈[0,T].
• I(C)está adaptado a(Ft).
•
E(It(C)|Fs) =Is(C) s<t (2.13) A primeira propriedade é conseqüência, por exemplo, da propriedade da isometria (2.14) dada abaixo.
A adaptação de I(C)ao movimento browniano pode ser facilmente vista: no instantet, as variáveis aleatóriasZ1...Zke∆1B...∆k−1B,Bt−Btk−1, que ocorrem na relação definidora (2.11), são todas funções de movimento browniano até o instantet.
Falta verificar a relação crucial (2.13). Trata-se de um bom exercício de utilização das regras da esperança condicional, que sugerimos para você fazer por si próprio. Não indicamos quais as regras a serem usadas, já que estamos assumindo que você já as conheça.
Primeiramente, suponha ques<tes,t∈[tk−1,tk]. Observe que It(C) = Itk−1(C) +Zk(Bs−Btk−1) +Zk(Bt−Bs)
= Is(C) +Zk(Bt−Bs),
ondeIs(C)eZksão funçoes de movimento browniano até o instanteseBt−Bs é independente deFs. Portanto,
E(It(C)|Fs) =Is(C) +ZkE(Bt−Bs) =Is(C).
Isto prova (2.13) neste caso.
O caso em que s∈[tl−1,tl]et ∈[tk−1,tk]para valores l <k, podem ser tratados analoga-mente. Verifique (2.13); faça uso da decomposição
It(C) = [It
i−1(C) +Zl(Bs−Bt
i−1)] +
Zl(Bt
l−Bs)
Xk−1 i=l+1
Zi∆iB+Zk(Bt−Bt
k−1)
= Is(C) +R(s,t), e mostre queE(R(s,t)|Fs) =0.
Propriedades da integral estocástica de Ito para processos simples
É fácil verificar que E It(C) =0 uma vez queZi e∆iB na definição (2.11) são independentes, e E(Zi∆iB) =EZiE∆iB=0. Assim,
A integral estocástica de Ito possui esperança zero.
De forma alternativa, poderíamos argumentar da seguinte maneira: uma vez queI(C)é um mar-tingal, possui uma função de esperança constante. Além disto, I0(C) =0, e portantoE It(C) = E I0(C) =0.
Outra propriedade da integral estocástica de Ito para processos simples acabará sendo crucial para a definição geral da integral estocástica de Ito.
A integral estocástica de Ito satisfaz àpropriedade da isometria:
E
Z t
0 Csd Bs
2
= Zt
0 ECs2d s, t∈[0,T]. (2.14)
Nós mostramos então esta propriedade. Para o caso que está sendo apresentado, supomos que t =tk, para algumk. De fato, se tk−1 <t <tk, observe que 0= t0 <...< tk−1 <tk0 =t é
2.2. A integral de Ito
uma partição de[0,t], de modo que você poderá considerar formalmentet como um ponto da partição. Temos, paraWt=Zi∆iB,
E[It(C)]2= Xk
i=1
Xk j=1
E(WiWj). (2.15)
Você poderá verificar que, para i > j, as variáveis aletóriasWi eWj são não correlacionadas:
observe queWj eZi são funções do movimento browniano até o instanteti−1, e portanto são independentes de∆iB. Concluímos que
E(WiWj) =E(WjZi)E(∆iB) =0.
Assim, os termos deE(WiWj)em (2.15) se anulam parai6=j, e portanto obtemos
E[It(C)]2= Xk
i=1
E(Zi∆iB)2= Xk
i=1
EZi2E(∆iB)2= Xk
i=1
EZi2(ti−ti−1).
O segundo membro nada mais é do que a integral de RiemannRt
0 f(s)d s da função em escada f(s) = ECs2, que coincide comEZi2 para ti−1 ≤ t < ti. (Verifique isto!) Assim, provamos a propriedade da isometria da integral estocástica de Ito.
A integral estocástica de Ito possui várias propriedades em comum com as integrais de Riemann e Riemann-Stieltjes.
A integral estocástica de Ito élinear:
Para constantesc1ec2e processos simplesC(1)eC(2)sobre[0,T], Z t
0
c1Cs(1)+c2Cs(2)
d Bs=c1 Z t
0
Cs(1)d Bs+c2 Zt
0
Cs(2)d Bs. A integral estocástica de Ito é aditiva em intervalos adjacentes:
para 0≤t≤T,
ZT
0 Csd Bs = Z t
0 Csd Bs+ ZT
t
Csd Bs.
A prova da linearidade não é difícil; tente você mesmo. Antes de começar, você precisa definirC(1) eC(2)sobre uma mesma partição. Isto é sempre possível: seτ(1)n é uma partição correspondente aC(1), eτ(2)m a partição correspondente aC(2), você poderá obter uma partição comum τ com no máximon+m pontos distintos tomando a união deτ(1)n eτ(2)m. Claramente, trata-se de um refinamento das duas partições originais. Os valores dos I(C(i))s permanecem os mesmos com esta nova partição. A linearidade é conseqüência da linearidade das somas de Riemann-Stieltjes subjacentes.
A aditividade em intervalos adjacentes é conseqüência da linearidade, uma vez que ZT
0
Csd Bs= ZT
0
Cs(1)+Cs(2) d Bs, ondeCs(1)=CsI[0,t](s)eCs(2)=CsI(t,T](s)são dois processos simples Finalmente enunciamos a seguinte propriedade:
O processoI(C)possui caminhos amostrais contínuos.
Isto sai da definição deI(C): a relação
It(C) =Iti−1(C) +Zi(Bt−Bti−1), ti−1≤t≤ti. é satisfeita e os caminhos amostrais do movimento browniano são contínuos.