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QUADRO TEÓRICO

1.4 – A INTERPRETAÇÃO DO SUJEITO NULO NO PB

A diferença do sujeito nulo do PB foi inicialmente apontada por Galves (1987) na comparação com o sujeito nulo do PE. Esse trabalho propõe que existem diferenças de interpretação no sujeito nulo de terceira pessoa do singular entre essas duas línguas. Essas diferenças de interpretação, segundo a autora, se relacionam com as diferenças no uso do clítico se e do pronome pessoal ele, o que coloca em jogo a alternância determinação/indeterminação nessas línguas de forma distinta. Segundo a autora, teríamos o seguinte quadro:

PE PB

• Determinado usa saia ela usa saia • Indeterminado usa-se saia usa saia

A autora argumenta que o fato de o sujeito indeterminado no PB não utilizar o clítico se, não significa que todo sujeito nulo de terceira pessoa deva ser considerado como indeterminado. A interpretação da categoria vazia sujeito será determinada pelo contexto em que aparece:

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a) João disse que viria.

Segundo Galves (1987), os falantes brasileiros interpretam o sujeito nulo de

viria como “João”, sendo “João” o controlador referencial da categoria vazia do verbo em questão. Já para os falantes portugueses, essa interpretação não é obrigatória e nem única, pois em PE a interpretação determinada do sujeito nulo nesse contexto é independente da presença de um “controlador”. Assim o sujeito de viria pode ser diferente de João.

A partir dessas reflexões, Galves (1987) faz as seguintes considerações:

O elemento de concordância da 3ª pessoa não é mais suficiente para atribuir referência determinada ao sujeito nulo. Na ausência de sintagma nominal que possa servir de antecedente, usa preferencialmente o pronome lexical ele, que deixa visíveis os traços pronominais que a flexão não tem mais, e chega desempenhar o próprio papel de concordância ao ser empregado junto com o SN lexical sujeito. (...) O enfraquecimento da concordância não resulta no abandono do sistema de sujeito nulo – como numa língua românica como o francês – mas numa reorganização da sentença em torno do tópico que pode ser o antecedente direto de objetos nulos e de sujeito nulo de orações infinitivas. (Galves, 1987, p. 35).

Essa concepção de análise do sujeito nulo no PB tem sido retomada e formulada no quadro da gramática gerativa. Trabalhos como Figueiredo Silva (1996), Negrão (1997), e Modesto (2000) têm analisado os ambientes sintáticos nos quais o sujeito nulo pode ser legitimado e identificado em PB.

Ao contraste apontado por Galves (1987) a respeito da interpretação do sujeito nulo de orações subordinadas, Negrão (1997) acrescenta os seguintes dados:

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PB – a) [O amigo do Pedro2]1 disse que cv1/*2/*3 ganhou na loto.

PB – b) [O amigo do Pedro2]1 disse que ele1/2/3 ganhou na loto.

PE – c) [O amigo do Pedro2]1 disse que cv1/2/3 ganhou na loto.

O contraste entre a e c mostra que o sujeito nulo no PB só pode receber a interpretação referencial de um DP que o c-comande - ver definição na seção 1.2, exemplo (6) - diferentemente do que acontece nas línguas pro-drop, ou do que se verifica nas orações com sujeito pleno. A comparação de a e c com b mostra que a categoria vazia (cv) sujeito é diferente em PB e PE. Enquanto no PE o sujeito nulo recebe todas as interpretações possíveis para o pronome lexical, o sujeito nulo do PB só pode ser correferencial com o sujeito da oração principal. Podemos concluir então, que a categoria vazia do PE é um pronome referencial, independente da existência de um antecedente na sintaxe (definido formalmente na teoria como um SN co-indexado com a categoria vazia e c-comandando esta). Na Literatura gerativista, tal pronome nulo tem sido denominado pro. Já no PB, no qual a única interpretação possível se dá na relação de antecedência, verificamos que não se trata propriamente de um pronome nulo (pro), mas de outro tipo de categoria vazia.

Figueiredo Silva (1996) distingue sujeito nulo referencial e sujeito nulo não referencial. Os sujeitos nulos não referenciais são sujeitos não-argumentais e “quasi- argumentais” como os representados abaixo:

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a) Parece que o João passou por aqui.

b)* Isso/ele parece que o João passou por aqui. c) Choveu a noite inteira.

d) *Isso/ele choveu a noite inteira.

Os exemplos acima mostram que esses sujeitos nunca podem ser realizados por um pronome lexical no PB. No que tange às propriedades a respeito dos sujeitos nulos referenciais, Figueiredo Silva afirma que encontramos outras restrições à sua presença em certos contextos. Observe os exemplos abaixo:

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a)Comprei um carro ontem.

b)* A Maria disse que comprei um carro muito caro. c)Eu, a Maria disse que comprei um carro muito caro.

Segundo Figueiredo Silva, o que esses dados mostram é que no PB os sujeitos nulos podem ter também um tópico como antecedente. Segundo a autora, esse tópico não precisa estar presente no contexto lingüístico imediato quando o sujeito nulo está numa oração matriz, mas sim quando está numa oração encaixada. Ela argumenta que a relação entre o sujeito nulo de uma oração encaixada e o tópico é bloqueada por elementos – QU intervenientes, e em geral quando o sujeito nulo esta num domínio caracterizável como uma “ilha”, como nos exemplos a seguir:

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a)* A Maria1, eu achei um carro que cv1 tem grana para comprar.

b) * A Maria1, o Pedro olha pro chão toda vez eu que cv1 fala com ele.

Resumindo, Figueiredo Silva (1996) faz as seguintes considerações a respeito dos ambientes sintáticos em que se encontram sujeitos nulos no PB: ainda existem no PB sujeitos nulos que são obrigatórios, os não referenciais. Por outro lado, uma vez que os sujeitos nulos referenciais não são pronomes nulos (pro), mas outros tipos de categorias vazias, não são interpretados pela morfologia verbal, mas precisam de algum tipo de antecedente. Sobre essa relação de antecedência pesam restrições de natureza sintática que explicam a diminuição da freqüência desses sujeitos. Outros pesquisadores, como Barra (2000) e Rodrigues (2004), também estabeleceram contextos específicos de realização do sujeito nulo no PB. A seguir esses contextos serão apresentados e a natureza do sujeito nulo no PB será discutida.