QUADRO TEÓRICO
1.3 – R ESULTADOS QUANTITATIVOS DE SUJEITO NULO NO PB
No PB, o fenômeno do sujeito nulo foi bastante discutido por autores como Duarte (1993, 1995), Tarallo (1993) e Menon (1994), sob o ponto de vista da Gramática Gerativa. Segundo esses estudiosos, por ter sofrido uma mudança paramétrica, o PB estaria deixando de apresentar sujeito nulo na direção de uma língua não-pro-drop. Como principais características apontadas para essa mudança, esses autores apresentam o fato de o paradigma verbal do PB ter reduzido o seu número de flexões e a sensível diminuição da ordem verbo-sujeito.
Uns dos trabalhos pioneiros no estudo da ordem VS, no PB, é o de Berlinck (1989). Nesse estudo a autora aponta para diminuição da ocorrência de sujeito nulo paralela à diminuição da ordem VS. Tarallo (1993) confirma tal afirmação e aponta para uma hipótese de um enrijecimento no padrão canônico de ordem das palavras em direção a SV,
com uma proporção decrescente para a ordem VS4. O estudo diacrônico de Berlink (2000)
Brazilian Portuguese VS order: a diachronic analysis lida com a inversão verbo/sujeito, apresentando uma análise quantitativa cuidadosa, com base em um corpus que compreende três períodos: séculos 18,19 e 20. Os resultados mostram a tendência da diminuição da ordem VS, restrita no estágio atual da língua a verbos inacusativos.
Com a expansão do uso do “você” e do uso do “a gente” como pronomes pessoais e com a perda da 2ª pessoa no paradigma verbal no PB, a terceira pessoa verbal se generalizou, ocasionando três paradigmas. O primeiro com quatro posições (eu canto;
ele/você/ a gente canta; nós cantamos; eles/vocês cantam.); o segundo com três posições (eu canto; ele/você/ a gente canta, ele/vocês cantam); um terceiro com duas posições – dos menos escolarizados ou não escolarizados que não aplicam a concordância verbo-nominal – (eu canto, ele/ você/ a gente/ eles/ vocês canta).
A mudança do PB de língua pro-drop para uma língua com restrições de sujeito nulo marcaria uma diferença de parâmetro para o PE. Vale aqui ressaltar que a teoria gerativa concebe a mudança lingüística como substituição de uma gramática por outra e essa substituição é realizada através da mudança paramétrica. E essa mudança paramétrica é entendida como um fenômeno que ocorre na aquisição da linguagem, quando uma criança marca o valor de um parâmetro de forma diferente da geração anterior.
No entanto, essa posição de que o PB está deixando de ser uma língua de sujeito nulo não é aceita por outros estudiosos da lingüística. Nicolau (1995, 1997), em sua análise, questiona a assertiva de que a realização do sujeito no PB leva a indícios de uma nova gramática. A autora expõe que trabalhos como os de Paredes da Silva (1988), Oliveira (1990) e Nicolau (1994) registram altos índices de sujeito nulo no PB.
Nicolau afirma que os autores que defendem que o PB está deixando de ser uma língua pro-drop se equivocaram na interpretação dos dados obtidos. Um exemplo seria o trabalho de Duarte (1993), no qual o fato de a freqüência do sujeito nulo ter diminuído nos períodos investigados pela autora (1845 a 1992), não exclui a possibilidade da língua apresentar sujeito nulo.
4No presente trabalho não abordaremos a inversão do sujeito por uma questão de delimitação e recorte de
Figura 2: Gráfico do decréscimo do uso do sujeito nulo no PB. Fonte: Duarte, 1993.
A diminuição do uso do sujeito nulo, apresentado no trabalho de Duarte, deixa claro que esse fenômeno sofreu alteração no PB, no decorrer do tempo. Em sua tese, Duarte (1995) evidencia que, em contrapartida ao uso decrescente do sujeito nulo, há o aumento do uso do sujeito pronominal realizado. E para a autora esse gráfico demonstraria a mudança na marcação de parâmetros no PB.
Pelos resultados encontrados por Duarte (1995), considera-se incontestável a alteração no uso de sujeito nulo, no decorrer do tempo no PB. No entanto, não se pode afirmar categoricamente que seja uma mudança no sentido de uma língua de sujeito nulo para uma língua de sujeito não nulo. Ao mesmo tempo, o fato de o PB ainda apresentar uma certa quantidade de sujeito nulo em sua construção, não é suficiente para se afirmar que o PB ainda seja uma língua marcada com o valor positivo em relação ao parâmetro de sujeito nulo, como afirma Nicolau (1997). Pelo menos, dentro do quadro gerativista e da teoria de mudança que seguimos nesse trabalho, o fato de uma variante ainda poder ser produzida em uma gramática, não implica em dizer que uma língua não tenha sofrido mudanças. A presença de duas varáveis em um mesmo contexto lingüístico nos textos é caracterizada pela competição de gramáticas, definida por Kroch (1994).
Uma questão intrigante, para Duarte (1993), foram os altos índices de sujeito
nulo de terceira pessoa encontrados em sua pesquisa. Se o quadro da colocação do sujeito pronominal aumentou em relação a épocas anteriores, o pronome de terceira pessoa teria que apresentar a maior porcentagem de preenchimento, pois esse, no paradigma atual, seria o principal responsável pelas ambigüidades no contexto. Daí a necessidade do preenchimento pronominal, pressuposto que não acontece.
Figueiredo Silva (1996) aponta como resposta a essa indagação o fato de que a marcação de sujeito nulo no PB seria diferente das demais línguas com essa parametrização. A presença do sujeito nulo não estaria relacionada com a concordância verbal – riqueza flexional – mas dependeria da presença de um antecedente na frase ou no discurso. Tal aspecto tem sido relacionado com a caracterização do PB como língua de
Tópico (cf. Pontes 1987, Galves 1987 e Negrão e Müller 1997). Ou seja, o uso do sujeito nulo no PB não estaria ligado a questões de licenciamento, mas sim a questões de identificação.
No presente trabalho consideraremos outras formas de preenchimento do sujeito, diferentes do pronominal, talvez, a falta de análise dessa variante tenha sido um dos prováveis motivos para Duarte (1993) ter encontrado um comportamento diferenciado no uso de sujeito nulo de terceira pessoa. Em seu estudo, a autora considerou apenas a oposição entre sujeito nulo e sujeito pronominal preenchido, não levando em consideração outras estratégias de preenchimento de sujeito, como o sujeito lexical anafórico. Assim, ao não se levar em consideração outras formas de preenchimento obteve-se um alto índice de sujeito nulo na terceira pessoa.