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CAPÍTULO 2 CONSIDERAÇÕES CONCEITUAIS

2.6 A INTERSECCIONALIDADE

A pouca idade do tema interseccionalidade na Sociologia aponta para a promissora ampliação de um debate sobre sua utilização, uma vez que, atualmente, o termo tem sido bastante aplicado nas pesquisas sociais. Sua origem está ligada ao movimento feminista, na década de 1970, especificamente ao Black Feminism, “cuja crítica coletiva se voltou de maneira radical contra o feminismo branco, de classe média, heteronormativo” (HIRATA, 2014, p. 62).

36 O PLANFOR transferia a responsabilidade do acesso ao emprego para o trabalhador como se o problema fosse individual e não resultado de toda uma complexa reestruturação produtiva (SOUZA, V.F., 2010, p. 189-190). 37 O PNQ foi instituído conforme resolução do CODEFAT – Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao

Trabalhador –, nº 333/2003, sendo que, no seu artigo 2º, informa que “deve contribuir para promover a integração das políticas e para articulação das ações de qualificação social e profissional do Brasil, e, em conjunto com outras políticas e ações vinculadas ao emprego, ao trabalho, à renda e à educação, deve promover gradativamente a universalização do direito dos trabalhadores à qualificação” (BRASIL, 2003, p. 26).

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O termo interseccionalidade, adotado pela jurista Crenshaw (1989), aparece para demonstração da estreita vinculação das relações de poder de sexo, raça e classe. A autora (1994, p. 54) apresenta o termo como proposta para levar em conta as várias identidades sem propor nova teoria global da identidade.

A relevância de considerar a interseccionalidade de distintas relações sociais revela-se de forma robusta quando se analisa o contexto específico. Para Crenshall (2002, p. 176),

a discriminação interseccional é particularmente difícil de ser identificada em contextos onde forças econômicas, culturais e sociais silenciosamente moldam o pano de fundo, de forma a colocar as mulheres em uma posição onde acabam sendo afetadas por outros sistemas de subordinação. Por ser tão comum, a ponto de parecer um fato da vida, natural ou pelo menos imutável, esse pano de fundo (estrutural) é, muitas vezes, invisível. O efeito disso é que somente o aspecto mais imediato da discriminação é percebido, enquanto que a estrutura que coloca as mulheres na posição de “receber” tal subordinação permanece obscurecida.

A autora, para quem os exemplos de opressão interseccional são relacionados à violência contra as mulheres estabelecida pela raça e etnia, considera que atos discriminatórios intencionais não se manifestam apenas na violência sexual ou física, mas também em outras esferas como o mercado de trabalho e a educação (CRENSHAW, 2002, p. 179).

Se Crenshaw fala inicialmente em interseccionalidade entre sexo e raça, Kergoat elabora a consubstancialidade no final dos anos de 1970 “em termos de articulação entre sexo e classe social, para ser mais desenvolvida, mais tarde, em termos de imbricação entre classe, sexo e raça” (HIRATA, 2014, p. 63). Segundo Kergoat (2010, p. 94),

as relações sociais são consubstanciais; elas formam um nó que não pode ser desatado no nível das práticas sociais, mas apenas na perspectiva da análise sociológica; e as relações sociais são coextensivas: ao se desenvolverem, as relações sociais de classe, gênero e “raça” se reproduzem e se co-produzem mutuamente.

Dessa forma, a consideração de que as relações sociais se estabelecem, permeadas por categorias distintas, torna-se fundante em vista à compreensão das práticas sociais frente à divisão do trabalho no que se refere ao gênero, à classe e à raça. A consubstancialidade outorga centralidade ao entrecruzamento que perpassa as relações sociais, de forma que, reciprocamente, cada uma interage como constitutiva da outra.

A proximidade entre interseccionalidade e consubstancialidade revela-se na proposta de análise das categorias sociais/relações sociais envolvidas, gênero, raça e classe, considerando as relações de opressão que cada categoria representa. Hirata (2014, p. 63) aponta que “um ponto maior de convergência entre ambas é a proposta de não hierarquização das formas de opressão”. Kergoat (2016, p. 21) explicita que tal proximidade emerge na criticidade frente a tendências que tomam experiências particulares de “opressão das mulheres” como experiências de todas. A consideração de outras relações sociais amplia o imbricamento social. Hirata (2014, p. 66) defende que “a controvérsia central quanto às categorias de interseccionalidade e consubstancialidade se refere ao que chamo ‘interseccionalidade de geometria variável’”. A autora expõe que, se para Kergoat existem três relações sociais fundamentais que se imbricam transversalmente – o gênero, a raça e a classe –, para outros autores, “a intersecção é de geometria variável, podendo incluir, além das relações de gênero, de classe e de raça, outras relações sociais, como de sexualidade, de idade, de religião etc.” (HIRATA, 2014, p. 66). Ressalta-se, assim, que a concepção de interseccionalidade permite o acolhimento de outras espécies para além do gênero, classe e raça.

Bilge (2009 apud HIRATA, 2014, p. 62-63) expõe a interseccionalidade da seguinte forma:

A interseccionalidade remete a uma teoria transdisciplinar que visa apreender a complexidade das identidades e das desigualdades sociais por intermédio de um enfoque integrado. Ela refuta o enclausuramento e a hierarquização dos grandes eixos da diferenciação social que são as categorias de sexo/gênero, classe, raça, etnicidade, idade, deficiência e orientação sexual. O enfoque interseccional vai além do simples reconhecimento da multiciplicidade dos sistemas de opressão que opera a partir dessas categorias e postula sua interação na produção e na reprodução das desigualdades sociais.

A consideração dos vários eixos que perpassam pela sociedade e que produzem diferenciações nela provoca discussões e análises pertinentes às realidades socioeconômicas e culturais específicas às próprias sociedades. Diversas categorias compõem diversos grupos sociais em diversas sociedades. Em consonância com Bilge (2009), trabalharemos a interseccionalidade, considerando a idade/geração como eixo de diferenciação social agregada ao gênero, à classe e à raça.

As relações sociais envolvendo a raça são particularizadas pelos contextos próprios de cada país. Salienta-se que, no contexto brasileiro, tais relações adquirem especificidades históricas devido ao uso da mão de obra escrava africana como sistema institucionalizado pelo Estado

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durante séculos. O racismo representa componente que perdura como prática social opressiva no país, sendo que sua conjugação ao sexismo e classismo agrava a situação dos grupos sociais envolvidos até os dias atuais. Indicadores sociais nacionais apontam dificuldades vivenciadas pelas mulheres negras em vários espaços, como o mercado de trabalho, pois, mesmo que, atualmente, a temática do combate ao racismo se mostre visível em diversos campos, “há uma arena ainda pouco focalizada neste cenário e na qual iniciativas com este mote mostram-se incipientes: o trabalho” (ARANHA; SALES, 2010, p. 328).

De acordo com o IPEA no relatório “Retrato das desigualdades de gênero e raça”,

O desemprego é também uma realidade permeada de desigualdades de gênero e raça. Assim, a menor taxa de desemprego corresponde à dos homens brancos (5%), ao passo que a maior remete às mulheres negras (12%). No intervalo entre os extremos, encontram-se as mulheres brancas (9%) e os homens negros (7%) (IPEA, 2011, p. 27).

A importância da análise da relação social que envolve a raça no Brasil não implica em estipular hierarquizações sobre as demais categorias que denotam opressão, implica, sim, em reconhecer sua relevância em relação ao gênero e à classe no enfoque da interseccionalidade. Mesmo porque, como já foi citado, a interseccionalidade tem como proposta a não hierarquização das formas de opressão. E, em relação à sociedade brasileira, há que se considerar que a fronteira entre classe e raça é extremamente tênue. Na verdade, as desigualdades sociais que historicamente caracterizam o país perpassam os diversos campos de estudo de formas distintas, mas sempre presentes. Não há como desconsiderá-las em qualquer discussão referente às relações sociais no país. Citá-las e discuti-las torna-se natural e por vezes necessário em análises referentes à educação e ao trabalho. Segundo Moutinho (2014, p. 203), “muitas das recentes reflexões acerca da produção da diferença e da análise da desigualdade social vêm investindo na articulação dos chamados ‘marcadores sociais da diferença’”.

Embora a proposição inicial desta pesquisa caminhasse na direção da análise referente ao gênero e à geração na educação profissionalizante de jovens e adultos e no mercado de trabalho correspondente, a invocação à classe e à raça foi inevitável. Mas ressalta-se que o tratamento teórico dessas duas relações sociais se efetiva de forma simplista, uma vez que não constituem o eixo principal desta pesquisa. Entende-se que tais dimensões “produzem efeitos que não podem ser simplesmente adicionados, porque obedecem lógicas distintas” (FERRARO, 2010, p. 505). Aqui, elas emergem, majoritariamente, por meio da apresentação e consideração de

informações e dados estatísticos que incrementam a problematização em torno do objeto desta pesquisa. A geração articulada a gênero, classe e raça irrompe no interior de uma certa dinâmica de sociabilidade presente no grupo de discentes que busca a retomada nos estudos de cursos profissionalizantes.

Portanto, neste trabalho, o uso da concepção de interseccionalidade será tratado de forma análoga à análise dos dados obtidos nas articulações das relações sociais que conotam o pertencimento das alunas do PROEJA. Dessa forma, a intersecção entre gênero, classe, raça e geração aparece como imbricamento palpável para a problematização social acerca dessas mulheres em relação à educação e ao mercado de trabalho, configurando, assim, numa perspectiva para a problematização descritiva analítica aqui realizada. Em momento algum terá caráter metodológico ou representará objetivo estabelecido nesta pesquisa.

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