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CAPÍTULO 2 CONSIDERAÇÕES CONCEITUAIS

2.5 TRABALHO E QUALIFICAÇÃO

2.5.2 Qualificação

Segundo Ramos (2001), o termo qualificação surgiu após a segunda guerra mundial, sendo que se apresenta apoiada a dois sistemas: “a) as convenções coletivas, que classificam e hierarquizam os postos de trabalho; b) o ensino profissional, que classifica e organiza os saberes em torno dos diplomas” (RAMOS, 2001, p. 42). Para a autora, o conceito de qualificação efetiva-se com o modelo fordista-taylorista de produção por considerar os padrões de formação como os de emprego e carreira.

Como categoria teórica, a qualificação do trabalho reapareceu com intensidade na Europa, nos anos de 1970/1980, “embora os estudos da sociologia do trabalho já se debruçassem sobre a questão desde a década de 1940, com as investigações de Friedmann e, posteriormente, de Naville, na década de 1950” (FERRETI, 2004, p. 404). No Brasil, as discussões em torno do tema, ganharam força em 1980/1990, sendo que é no fim dos anos de 1990 que

qualificação passa para o domínio público: cotidianamente, ela aparece nos discursos do governo, dos empresários, dos sindicatos, da mídia em geral, como instrumento para a solução de problemas individuais – conquista ou manutenção de uma posição no mercado de trabalho – e sociais – aumento de produtividade para as empresas e consequente desenvolvimento econômico e social para os países (TARTUCE, 2004, p. 354).

Tem-se conceitualmente, segundo Aranha (2000, p. 9), a qualificação do trabalhador como o “conjunto de habilidades e conhecimentos adquiridos pelo trabalhador para exercer uma atividade de trabalho”. Ressalta-se que tal processo ocorre como construção social, considerando que o indivíduo se qualifica em múltiplos espaços, como escola, família e local de trabalho, e também que se desenvolve em tempo móvel, já que é balizada pelo acúmulo de

experiências seja no trabalho ou na vivência cotidiana na sociedade em geral (ARANHA, 2000).

A qualificação profissional, reivindicada por uma atividade profissional, apresenta-se inserida dentro de um amplo quadro de relações, no qual se inscrevem as que o trabalhador acumula com os objetos de seu conhecimento, resultado de sua prática e, também, com as expectativas sociais referentes ao seu conhecimento, ação e comportamento (ARANHA; MACHADO, 2000). Naturalmente, tais relações são vinculadas a determinado contexto econômico e tecnológico, sendo que, de acordo com Aranha e Machado (2000, p. 10), “elas têm a ver com a divisão sexual do trabalho, os fatores étnicos e etários, o prestígio social da profissão, o jogo de interesses políticos e o poder que possui a categoria profissional na correlação de forças existentes”.

Para Silva (2012, p. 146),

ao se tratar do mundo do trabalho, sabe-se que o recorte geracional e o da qualificação profissional constituem elementos fundamentais de investigação e de desnudamento dos modelos explicativos, pois agrupam trajetórias de vidas semelhantes e mediam as experiências de trabalho e de desemprego dos sujeitos.

Portanto, entende-se que a qualificação profissional emerge como uma amplitude de relações sociais contextualizada ao momento histórico. Como exposto por Ferreti (2004, p. 418),

o enfoque da qualificação como relação social, sem abandonar o exame das relações entre a qualificação do trabalhador e as demandas da inovação tecnológica, antes tomando-a como elemento importante, confere prioridade ao exame do conceito no âmbito das relações sociais de produção e, neste sentido, enriquece-o.

Com a flexibilização envolvendo a reestruturação da produção capitalista e o mundo do trabalho, a noção de qualificação profissional passou a permear debates relacionados ao trabalho e à educação, sendo que o termo competência passou a incorporar os mesmos debates. Mas, apesar da proximidade, qualificação e competência não devem ser vistas como sinônimos. Para Ferreti (2004, p. 402), “a noção de qualificação profissional situa-se no âmbito das preocupações da sociologia do trabalho e tem sido por esta exaustivamente estudada”, enquanto a noção de competência tem origem no campo econômico, mesmo que venha sendo abordada pela sociologia do trabalho, em função de uma aproximação equivocada ou em função das

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mudanças introduzidas na forma de produzir e de organizar a produção. Hirata (2011, p. 132) observa a imprecisão do conceito, sobretudo se comparado ao de qualificação que se apresenta entranhado pela ideia de relação social e representa ponto-chave na sociologia do trabalho francesa. Mas o vigor da flexibilidade que pairou com a reestruturação da produção capitalista no final do século XX impulsionou o uso do termo competência em associação com diversas dimensões do universo produtivo.

Segundo Deluiz (2001, p. 13),

a literatura corrente sobre a noção de competência assinala, em termos gerais, que a competência profissional é a capacidade de articular e mobilizar conhecimentos, habilidades e atitudes, colocando-os em ação para resolver problemas e enfrentar situações de imprevisibilidade em uma dada situação concreta de trabalho e em um determinado contexto cultural.

Na verdade, tal termo representava princípios estabelecidos pela nova roupagem neoliberal do capitalismo e, assim, era bastante significativo sob tal perspectiva. Para elaboração do termo competência, Kuenzer (2002) ressalta a capacidade de ação rápida e eficiente em qualquer situação como lembra a importância da articulação entre conhecimentos tácitos e científicos com as experiências de vida e de trabalho dos indivíduos. Agilidade, flexibilidade e individualidade compõem a tônica do conceito. Afinal,

os objetivos da adoção do modelo das competências no mundo do trabalho são adequar a formação da força de trabalho às novas exigências do sistema produtivo, possibilitar maior flexibilização do mercado de trabalho pela noção de empregabilidade (o trabalhador passa a ser responsável por sua inserção no mercado, mantendo suas competências atualizadas) e unificar o sistema de qualificação profissional, tornando possível a disponibilidade e a mobilidade dos trabalhadores, que passariam a ter livre circulação no mercado de trabalho setorial, intrasetorial, nacional e internacional (DELUIZ, 2001, p. 13).

O fato é que, frente ao novo contexto capitalista consolidado no final da década de 1970, alterou-se o tipo de qualificação arrogada aos trabalhadores. Exigia-se maior destreza e raciocínio na realização de operações, enfim, exigia-se certa formação e qualificação (SANTOS, 2004). As exigências laborais foram estabelecidas tendo em vista a associação dos conteúdos do trabalho juntamente às subjetividades individuais que envolviam os saberes e práticas do executar, do fazer. Assim, “foi pelo processo de reestruturação produtiva e com o objetivo de atingir metas e seguir normas que a qualificação profissional foi caracterizada pelas demandas de um novo perfil da força de trabalho, amparado em um maior nível de

escolaridade” (SAMPAIO, 2010, p. 165). Nessa situação, as empresas passaram a creditar ao Estado a função de conduzir e ofertar cursos de capacitação direcionados ao atendimento da exigência de um novo perfil de trabalhador que, além dos saberes teóricos, deveria se caracterizar pela iniciativa nas atitudes, atenção, motivação e, naturalmente, flexibilização da conduta no processo de trabalho. Dessa forma, a qualificação profissional deveria compor a tessitura da educação profissional na vertente que a associa com o atendimento às demandas contextuais do capitalismo. Como exemplo, o Estado brasileiro estabeleceu o PLANFOR – Plano Nacional de Formação Profissional36 –, em 1997. Tal plano vigorou até 2003, quando foi substituído pelo PNQ – Plano Nacional de Qualificação37.

A formação profissional acadêmica balizada por criticidade ficaria relegada em função da prioridade dada à qualificação imediata, o que comprometeria uma visão mais ampla da sociedade e das relações de trabalho. Observa-se que

tanto a formação geral como a formação profissional tiveram que se adequar às políticas atuais de reestruturação do capital. A formação profissional, ao longo dos anos, tem constituído uma ação de caráter técnico e político inerente ao processo de ampliação da maquinaria e da democracia (SAMPAIO, 2010, p. 171).

Situação que evidencia com extrema nitidez os anseios do mercado de produção capitalista, mas não oferece garantias à sociedade composta por trabalhadores, já que a exigência de cursos de qualificação, propalada pelo mercado, não significa, necessariamente, acesso a empregos.