3. O ARRANJO INSTITUCIONAL DO CONSELHO DA CIDADE DE CHAPECÓ (SC)
3.3. Capacidade técnico-administrativa do CONCIDADE de Chapecó
3.3.3. A intersetorialidade das políticas urbanas
Da mesma forma como no âmbito do Conselho Nacional das Cidades, o grande desafio das coordenações das câmaras técnicas do CONCIDADE de Chapecó é em relação à intersetorialidade das políticas urbanas, conforme estabelecido no item IV do art. 45: “interagir intersetorialmente sempre que forem demandados pareceres conjuntos sobre matérias de interesse ao Desenvolvimento Territorial do Município”. Lembramos que a integração entre as políticas públicas urbanas estava prevista na Resolução Normativa no. 7, de abril de 2008, do MC e CC e articulada com as deliberações das Conferências Nacionais das Cidades.
Ressalta-se outrossim que, de acordo com art. 2, item XIV do Regimento do CONCIDADE, “são atribuições do CONCIDADE DE CHAPECÓ articular políticas e ações com os demais órgãos municipais e com outros organismos governamentais e não- governamentais, estabelecendo formas de integração entre os participantes”. Esta competência é atribuída mais especificamente às câmaras técnicas que, segundo o estabelecido no seu art. 37, item II, devem “promover articulação com os órgãos e entidades promotoras de estudos e propostas relacionadas à política municipal de Desenvolvimento Territorial”.
Com a responsabilidade do CONCIDADE em articular as políticas urbanas houve a extinção dos conselhos setoriais de desenvolvimento urbano existentes e os seus respectivos fundos municipais,conforme o disposto no art. 453 do PD de 201429.O único conselho municipal de políticas públicas urbanas existentes atualmente é o Conselho de Meio Ambiente (CONDEMA), criado em 2018 por meio da lei complementar nº 630 de 20/06/2018. Além disso, em 10 de julho de 2015, foi instituído o Plano Municipal de Saneamento Básico por meio da Lei 6.728; em 02 de setembro de 2015 foi estabelecido o Plano Municipal de Resíduos Sólidos pela Lei 6758 e, em 14 de março de 2016, através da Lei 6847, foi constituído o Plano municipal de mobilidade urbana de Chapecó (Matiello e Duarte, 2019).
Não obstante, “a construção de políticas com uma abordagem integral, por meio da articulação entre os diferentes setores, ou áreas das políticas públicas” na perspectiva
29 Foram extintos o Conselho Municipal de Desenvolvimento Territorial (CMDT), criado pelo Plano Diretor
de Desenvolvimento Territorial de Chapecó – Lei Complementar n. 202, de 06 de janeiro de 2004, e o Conselho da Habitação, que havia sido instituído em 1994, sendo que “a primeira menção à criação de um fundo é de 1995, tendo sido refundado com outros nomes, e em 2009, no contexto do PMCMV, é associado a outro fundo, o de regularização fundiária”(Matiello e Duarte, 2019, p. 281).
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abordada por Cunill-Grau (2014, apud Luchmann, 2019, p. 21-22), apesar de prevista no Regimento do CONCIDADE de Chapecó, não ocorre de uma forma efetiva.
Consoante os entrevistados, pouco se avançou na intersetorialidade e articulação das políticas urbanas no CONCIDADE de Chapecó. Entre as razões apresentadas está a falta de compreensão do que se entende por intersetorialidade entre as políticas urbanas por parte dos secretários municipais, dos conselheiros, do corpo técnico da prefeitura e a dificuldade do diálogo entre os coordenadores técnicos.
O item IV do art 45 do Regimento do CONCIDADE estabelece que é de responsabilidade dos coordenadores técnicos “interagir intersetorialmente sempre que forem demandados pareceres conjuntos sobre matérias de interesse ao Desenvolvimento Territorial do Município”. No entanto, o Entrevistado 2 afirma que
a intersetorialidade é um palavrão na concepção deles; eles não relacionam uma coisa com a outra; cada setor, cada secretaria/diretoria só cuida dos seus assuntos. Por exemplo: o trânsito passa pelo setor de mobilidade.... mas não se sabe se entendem que isto é intersetorialidade.
Exemplificando a situação, a Entrevistada 1 relata que um processo de estudo de impacto de vizinhança transita por três câmaras técnicas: de planejamento e gestão do solo urbano, de meio ambiente e saneamento ambiental; e de mobilidade urbana, trânsito, transporte e acessibilidade, mas nem sempre os coordenadores das câmaras técnicas dialogam entre si. “Depende dos coordenadores; se eles se dão bem; se eles não se dão bem. Nós temos estes problemas também”. E complementa:
Uma vez nós fazíamos mais reuniões. Montava a pauta, chamava os coordenadores. Era mais integrado. Hoje não vejo tanta integração assim. Tanto que os pareceres eram únicos uma época. Hoje temos pareceres isolados [...] até o ano passado fazíamos parecer único. Depois cada um ficou com o seu. (ENTREVISTADA 1. ).
Em estudo realizado por Silva sobre o CONCIDADE de Chapecó, constatou-se que, dos processos analisados nos anos 2015 a 2018 pelas Câmaras Técnicas,
Doze processos não foram encaminhados para nenhuma câmara técnica, enquanto 106 foram dispostos por três das quatro câmaras técnicas do ConCidade Chapecó. Houve processos que receberam pareceres de três das quatro CT’s regimentadas pelo conselho, enquanto alguns receberam pareceres apresentados somente por uma câmara. (SILVA, 2019, p. 50).
59 Dos processos analisados conjuntamente, houve uma pequena diferença entre as Câmaras de Mobilidade Urbana, Trânsito, Transporte e Acessibilidade e Planejamento e gestão do Solo Urbano. A apreciação conjunta foi disposta com menor porcentagem na Câmara de Meio Ambiente e Saneamento Ambiental. (SILVA, 2019, p. 52).
Estudos demonstram que o padrão centralizado e hierárquico de governo, a especialização do poder público e a busca por um bom desempenho de cada setor (Azevedo, 2011) dificultam o diálogo e a interlocução entre as diferentes instâncias e dos próprios conselheiros do poder público, inviabilizando a integração/intersetorialidade das políticas públicas.
Notadamente no que diz respeito a integração das políticas urbanas partilhamos do pensamento de Serafim (2013, p. 180) de que a setorização das políticas públicas urbanas na implementação do ConCidade nacional, em 2003, dificulta a inter-relação das políticas na medida em que se solidificou na estruturação da política urbana nacional, e que é seguida no âmbito municipal, que ela é composta por quatro setores. A autora avalia que houve um avanço na política com a criação de um modelo setorizado, mas não na articulação destas políticas setoriais. Dificuldade enfrentada também na integração das políticas urbanas do CONCIDADE de Chapecó.