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A Intersubjetividade Primária e as emoções da amorosidade na

CAPÍTULO 1 – A REIFICAÇÃO DA IMAGEM DOCENTE EM ADORNO E

5 O AUTORRECONHECIMENTO DOCENTE

5.2 A Intersubjetividade Primária e as emoções da amorosidade na

Observa-se que o objetivo central de Honneth (2003) na obra “Luta Por Reconhecimento: A Gramática Moral dos Conflitos Sociais” consiste em demonstrar como indivíduos e grupos lutam para se inserir na sociedade atual. Isso ocorre por

meio de uma busca por reconhecimento intersubjetivo, iniciado nas relações afetivas de intersubjetividade primária. Para melhor entendimento da intersubjetividade primária e das emoções da amorosidade na escalada ao reconhecimento, retomam-se, sinteticamente, os principais aspectos que estruturam as relações sociais nessa visão teórica. Convém lembrar, portanto, que três são os modos de reconhecimento: a dedicação emotiva, o respeito cognitivo e a estima social. O primeiro modo, a dedicação emotiva, apresenta como forma de reconhecimento as relações primárias de amor e amizade, sendo exemplificada pela dimensão da natureza carencial e afetiva da personalidade. Revela, por conseguinte, a autorrelação prática formada pela autoconfiança, autorrespeito e autoestima. A autoconfiança pode ser mutilada pelo desrespeito e maus-tratos ocasionados pela violação do reconhecimento. Aqui, a integridade física é ameaçada.

Já, o respeito cognitivo possui como forma de reconhecimento as relações jurídicas, as quais se comunicam com a dimensão da personalidade no âmbito da imputabilidade moral; o autorrespeito é a forma de relação prática em questão. A forma de desrespeito correspondente é a privação de direitos e exclusão. Com isso, a integridade social é o componente da personalidade ameaçado. Chega-se, então, à estima social, a qual versa sobre as capacidades e propriedades do indivíduo, e tem como forma de reconhecimento a solidariedade (comunidade de valores). A autoestima é considerada a autorrelação prática envolvida; a degradação e a ofensa seriam as formas, e a dignidade estaria ameaçada.

Nesse contexto, está o amor30. É o primeiro pilar que Honneth adiciona aos pressupostos metafísicos sobre o amor, na visão hegeliana, incorporando os elementos empíricos da psicologia de Mead. Por se tratar de um tema já abordado neste trabalho, não se faz necessário rediscutir essa teoria psicológica. Entretanto, é importante reportar-se às pretensões normativas estruturalmente inscritas na relação de reconhecimento recíproco:

30

O amor, na visão hegeliana, representa a primeira etapa do reconhecimento recíproco, porque em sua efetivação, os sujeitos se confirmam mutuamente na natureza concreta de suas carências, reconhecendo-as assim, como seres carentes: [...] daí, a necessidade de pesquisa de teoria das relações de objeto ser apropriada, em especial medida, para tornar compreensível o amor como uma relação interativa, a qual subjaz a um padrão particular de reconhecimento (HONNETH, 2003, p. 160).

O ponto de partida dessa teoria da sociedade deve ser constituído pelo princípio no qual o pragmatista Mead coincidirá fundamentalmente com o primeiro Hegel: a reprodução da vida social se efetua sob o imperativo de um reconhecimento recíproco porque os sujeitos só podem chegar a uma autorrelação prática quando aprendem a se conceber, da perspectiva de seus parceiros de interação, com seus destinatários sociais (HONNETH, 2003, p. 155).

O entendimento dessa premissa geral passa por um elemento dinâmico, de um imperativo ancorado no processo da vida pessoal como uma coerção normativa, que obriga os indivíduos à deslimitação gradual do conteúdo do reconhecimento recíproco, visto que só por esse meio os mesmos tornam-se aptos a conferir uma expressão social às pretensões de subjetividade, que sempre se regeneram. O processo de individuação, nesse sentido, ao discorrer no plano da história da espécie, está ligado ao pressuposto de uma ampliação simultânea das relações de reconhecimento mútuo. A história evolutiva assim traçada, porém, terá a possibilidade de se tornar a pedra angular de uma teoria da sociedade, na proporção em que ela é remetida de modo sistemático a processos no interior da práxis da vida social.

Nessa pedra angular está a amorosidade, ligada às emoções primárias de amizade pais/filhos, na qual a confirmação amorosa é capaz de gerar assentimento e encorajamento afetivo, bem como a autoconfiança. Em virtude do modo específico pelo qual o sucesso das ligações afetivas se torna dependente da capacidade adquirida na primeira infância, existe um equilíbrio frágil entre autonomia e fusão, isto é, entre simbiose e autoafirmação.

Para tratar dessas considerações, esse crítico traz os elementos da psicanálise, sobretudo a teoria das relações de objeto, como sendo a estrutura das relações afetivas entre os seres humanos. Referem-se ao relacionamento emocional entre sujeito e objeto amado que, por meio de uma identificação comum, contribui para o desenvolvimento do ego. Nesse contexto, entende-se por “objeto” uma pessoa, ou a sua representação, com a qual o sujeito adquire uma relação emocional intensa, de forma que o impossibilite a tal identificação com o outro. Assim, as relações objetais seriam as ligações que a criança estabelece com as figuras parentais .Nesse viés teórico, a teoria psicanalítica das relações de objeto relaciona-se à primeira tentativa de uma resposta conceitual, tendo em vista que,

sistematicamente, a intuição desenvolvida acerca do valor psíquico das experiências interativas na primeira infância, na medida em que,

complementando a organização das pulsões libidinosas, a relação afetiva com outras pessoas é considerada um segundo componente de amadurecimento (HONNETH, 2003, p. 163).

O olhar psicanalítico apresenta-se como fundamental, pois atribui prestígio às experiências primeiras e pré-linguísticas. Aborda os processos socializantes, bem como considera o relacionamento afetivo com os primeiros parceiros de interação. Para investigar a esfera do amor e da amizade, o autor volta-se aos estudos da psicologia infantil, do médico e psicanalista inglês Donald Winnicott (1984), sobre o conceito de intersubjetividade primária. São subsídios de fusão inicial do ser humano e a sua gradativa capacidade de estar só, a partir do questionamento de como se constitui o processo de interação, através do qual “mãe e filho podem se separar do estado do indiferenciado ser-um, de modo que eles aprendem a se aceitar e amar, afinal como pessoas independentes” (HONNETH, 2003, p. 165).

Nesse contexto, a intersubjetividade primária amorosa parte de uma fase simbiótica ou de dependência absoluta, no decorrer dos primeiros meses de nascimento. Nesse estado de indiferenciação, as reações do filho são percebidas pela mãe como um único ciclo de ação, em que há uma unidade de comportamento. Porém, a mãe precisa romper, gradativamente, sua identificação com o bebê, para ampliar seu campo de ação. É nessa dependência relativa, ou segunda fase de intersubjetividade primária, que a criança desenvolve sua capacidade para uma ligação afetiva. Ou seja, para reconhecer o outro como alguém com direitos próprios, independente, quando não mais se encontra num estado de simbiose maternal. Nessa nuance, o amor, fundamento de autoconfiança, permite aos indivíduos conservarem a identidade e desenvolverem a própria autoconfiança, imprescindível para a sua autorrealização.

Por fim, esse processo de amadurecimento na primeira infância“ permite ilações a respeito de estrutura comunicativa que faz do amor uma relação particular de reconhecimento recíproco” (HONNETH, 2003, p. 174). Com certeza, são deduções importantes à habilidade comunicativa docente ante o essencial sentido do gesto vocal como estímulo autorrealizador.

5.3 No sentido do gesto vocal docente: o estímulo autorrealizador do outro