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Aprender a viver: Uma sabedoria dos antigos mitos

CAPÍTULO 1 – A REIFICAÇÃO DA IMAGEM DOCENTE EM ADORNO E

3 DA FIGURA DA IMAGEM DOCENTE À LUZ DA NARRATIVA MÍTICA

3.3 Aprender a viver: Uma sabedoria dos antigos mitos

Uma questão contemporânea contínua para o mitólogo Ferry (2009, p. 219) é a sabedoria para se aprender a viver. Salienta a narrativa do amor e da vida como uma presença atual dos antigos mitos. Concebe a vida boa, liberta do caos, como uma indagação ancestral subjacente. Indica uma resposta na articulação entre mitologia e filosofia. Ao contrário do que muitos pensam, a mitologia grega, para ele, não se limita a um conjunto de contos e lendas, mas seu profundo saber também semeia amor e vida no plano filosófico. E, a cada dia, as pessoas empregam dezenas de imagens, sem compreender a sua origem. Mesmo indispensáveis à compreensão da filosofia, elas continuam adormecidas no cotidiano da linguagem, omitindo-se a sua narrativa. Esse quadro não passa longe da ação do professor como narrador e testemunha do seu tempo na formação cultural, ante a emergência de subtraírem-se os estigmas da barbárie.

O termo mito (lat. Mythus) é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares. Normalmente, o mito comunica-se mediante narrativas que utilizam símbolos e representações poderosas, como deuses e deusas para expressar situações ou histórias verdadeiras. Constitui uma expressão da inteligência funcional. Esta, calculadora e instrumental; é a arma da ciência e da técnica. Aquela usa os mitos, suas imagens, metáforas e símbolos para evocar sentimentos profundos, expressar o que dá sentido e valor ao ser humano. Foi utilizada por mestres como Jesus, Dalai Lama, e outros.

Assim o fazem também os meios de comunicação modernos, especialmente em estratégias de marketing. Carl Gustav Jung (1875-1961) entendia os mitos como arquétipos do inconsciente coletivo, ao representar a emergência de imagens das grandes experiências, sonhos e temores (arquétipos) que a humanidade elaborou em seu processo de individuação. Sua escola psicanalítica concorda que pessoas podem virar mito quando vivem uma biografia (um relato existencial ou saga), com tal densidade que mitos nela reencontram a si mesmos, ou por ela veem realizadas ideias e sonhos ancestrais. Semelhantemente, fala-se do mito de Pelé, do mito cinematográfico de Charles Chaplin, do mito midiológico da princesa Daiana, e outros. São atuais, portanto, os modernos também criam mitos.

Além da acepção geral de narrativa, Abbganano (2003), do ponto de vista histórico, distingue três significados do mito: como forma atenuada de intelectualidade, como forma autônoma de pensamento ou de vida, e como instrumento de estudo social. Assim, primeiramente, Platão e Aristóteles consideram o mito um produto inferior ou deformado da atividade intelectual, atribuindo-lhe no máximo verossimilhança, enquanto a verdade é conquista do intelecto. No entanto, Platão o identificava como a via humana mais curta para a persuasão; o que, em certos campos, é a única validade a que o discurso humano pode aspirar. Em outros, expressa o que de melhor e mais verdadeiro se pode encontrar.

A segunda acepção mitológica, como forma autônoma de pensamento, não é considerada intelectual, corrompida ou degenerada, mas conceito autêntico, embora com forma diferente da verdade intelectual, de forma fantástica ou poética. No terceiro significado, a interpretação sociológica, ao ver o mito como produto de uma mentalidade pré-lógica, o verdadeiro modelo do mesmo, não é a natureza, mas a sociedade, o que o torna sempre projeção da vida social do homem, ao refletir as características fundamentais dessa vida social. Essa concepção justifica o mito na retrospectiva dos elementos fundamentais que constituem a cultura de um grupo:

O mito não é uma simples narrativa, nem uma forma de ciência, nem um ramo da arte ou da história, nem uma narração explicativa. Cumpre uma função sui generis, intimamente ligada à natureza da tradição, à continuidade da cultura, à relação entre maturidade e juventude e à atitude em relação ao passado. A função do mito é, em resumo, reforçar a tradição e dar-lhe maior valor e prestígio, vinculando-a a mais elevada, melhor e mais sobrenatural realidade dos acontecimentos iniciais (ABBAGNANO, 2003, p. 674).

Justamente, por não se limitar ao mundo ou à mentalidade dos primitivos, o pensar mítico torna-se indispensável a qualquer cultura, já que cada mudança histórica cria sua mitologia. Logo, não é definido segundo determinada forma de espírito, como o intelecto ou o sentimento, conforme é visto nas duas interpretações antecedentes, e sim, de acordo com a função que pode ser esclarecida e descrita com base em fatos observáveis, decorrentes da relação à função que desempenha nas sociedades humanas. Além disso, observa-se que o mito vai além de uma narrativa histórica, como a representação genérica de fatos na vida dos homens, como o nascimento, a morte, a luta contra as forças da natureza, a derrota e a vitória, entre outras. Nesse sentido, a representação é embelezada, corrigida e aperfeiçoada ao revelar forças ocultas no interior do ser humano, pulsões originais e sentidos a desvelar.

A primeira concepção desvaloriza o mito, e a segunda o supervaloriza; mas, a terceira explica sua função nas sociedades mais avançadas, não somente como narrativas fabulosas, mas também como figuras humanas e noções abstratas. Atualmente, o mesmo está sendo visto com novos olhares desde os estudos de Junito de Souza Brandão e outros intérpretes; o que permite não serem mais considerados na irracionalidade da perspectiva positivista, mas representando o inconsciente coletivo da humanidade. É certo que o mito, além de gerar padrões de comportamento humano, para vivermos criativamente, permanece através da história como marco referencial.

Dessa forma, o contemporâneo mitólogo Ferry, em seu livro “A Sabedoria dos Mitos” (2010), de acordo com as primeiras teogonias, pontua o amor (Eros) como a terceira divindade predisposta a germinar a vida. É por seu impulso que o primeiro elemento, a natureza, a terra (Gea) une-se a Caos, o estranho deus da escuridão, que emergiu do nada e gera o céu (Urano). Eros, então, um deus autêntico, caracteriza-se pela energia que permite e torna possível o gestar da vida. A noção do amor é, sob o olhar grego, um princípio de vida, uma força vital que deve ser resgatada e dar forma às palavras humanas.

E nesse afã é vital a reconstrução de um sentido que vise, não somente à ordem e à justiça, mas às construções míticas que explicitam o caos antes da ordem; intensifiquem a diferença anterior à identidade. É na perspectiva de que se aprende a viver, desde as origens do mundo, entre o caos e o cosmos, que esse filósofo traz presente uma necessidade de harmonia e de ordem. Isso demonstra

que, mesmo quando houver uma violação do amor, como a que se revela na barbárie, a ação amorosa poderá nascer na força expressiva da linguagem.

Em consequência, o “projeto da mitologia é muito distinto do projeto científico moderno. Não aspira à objetividade, nem sequer ao conhecimento do real como tal, sua verdadeira essência está em outro âmbito” (FERRY, 2010 p. 44). É um âmbito distinguível, para esse mitólogo, mediante um relato que se perde na noite dos tempos e que, ao dizer a “verdade”, nada tem de explicativo no sentido que entendem os cientistas atuais. Trata de oferecer aos mortais a sabedoria intermediária para dar um sentido ao mundo que os rodeia. Em consequência, o universo não é considerado como um objeto a conhecer, mas uma realidade para viver. A hybris (violência) ameaça o retorno do caos. Nessa conecção, tal é o sentido do mito, que Gadamer (2003) considera haver um desprestígio, não somente com os relatos, narrativas, mas com o uso da própria palavra mito; usada, não raras vezes, de um modo bastante impreciso. Mito é o que desfralda, implanta o seu intrínseco poder de verdade e não apenas mediante um ulterior ser-dito.

A expressividade mítica convida os humanos a encontrarem a sua justa medida na ordem cósmica para proteger-se da hybris. Esse arquetípico que notifica a perda da medida da sabedoria desafia aos próprios deuses, à ordem cósmica, onde tudo é uno. A violência conduz à catástrofe, à história de Prometeu castigado. E, com ele, vem a punição aos homens. Não obstante, o ser humano tem uma vida que não está determinada, a princípio. Em suma, é a vida que, nas primícias, está despojada de significado, no tempo do caos, mas, hoje, deverá ser inventada pelo indivíduo. Sobreviver em meio às hostilidades que invadem o mundo posterior à idade do ouro, cometer uma insensatez ou ser prudente: tudo é escolha. O nexo da vida é, pois, um aprendizado que cabe ser pensado e transmitido pelo professor como testemunha do seu tempo.